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LEITURA EM PARTESParte 9 de 10

PARTE 9

A confirmação definitiva do divórcio chegou numa manhã comum de terça-feira. Helena me ligou pouco depois das dez e explicou que os registros finais estavam concluídos. Minha situação civil, o acordo patrimonial e as providências relacionadas ao apartamento já estavam formalizados. Depois de meses de conversas, documentos e espera, o casamento finalmente tinha terminado também no papel.

Agradeci e desliguei.

Fiquei olhando para o computador diante de mim.

Eu esperava sentir uma explosão de tristeza ou alívio.

Em vez disso, senti silêncio.

Talvez porque emocionalmente aquela separação tivesse acontecido aos poucos. Um pedaço na ligação com Yasmin, outro quando Rafael pediu o divórcio, outro quando admitiu gostar dela, outro quando me perguntou se eu teria contado sobre a herança. O documento apenas confirmava aquilo que meu coração já vinha aceitando havia muito tempo.

Na hora do almoço, saí sozinha.

Comprei um café e caminhei algumas quadras sem destino.

Pensei em ligar para alguém, mas percebi que não precisava transformar aquele dia numa cerimônia. Não era aniversário, nem vitória, nem funeral.

Era apenas o primeiro dia em que eu já não era casada com Rafael.

À noite, ele mandou uma mensagem.

“Recebi a confirmação também. Posso passar amanhã para entregar a chave que ainda está comigo?”

Respondi que sim.

No dia seguinte, Rafael apareceu no horário combinado. Parecia melhor do que alguns meses antes. O trabalho temporário havia se transformado em uma contratação efetiva, e ele tinha alugado um pequeno apartamento em outro bairro.

Entregou a chave sobre a mesa.

— Acho que agora acabou tudo.

Olhei para aquele pedaço de metal.

— Acho que sim.

Ele observou a sala.

— Está diferente.

— Mudei algumas coisas.

— Ficou bom.

A conversa poderia ter terminado ali.

Mas Rafael permaneceu parado.

— Marina, eu queria te contar uma coisa.

Minha reação imediata foi de tensão, e ele percebeu.

— Não é nenhuma bomba — disse, quase sorrindo. — Só queria dizer que estou fazendo terapia.

Aquilo me surpreendeu.

— Espero que te faça bem.

— Está sendo difícil, mas acho que eu precisava há muito tempo.

Ele respirou fundo.

— Passei muito tempo achando que eu precisava provar o tempo todo que era bem-sucedido. Quando perdi o emprego, parecia que eu tinha perdido quem eu era. E aí percebi que tinha usado você, a Yasmin, o trabalho… tudo como confirmação de alguma coisa que eu não conseguia encontrar sozinho.

Eu o ouvi sem interromper.

— Não estou te falando isso para voltar — acrescentou. — Já entendi que não vai acontecer.

— Obrigada por respeitar isso.

— Eu devia ter respeitado você antes.

Dessa vez, aceitei o pedido de desculpas sem discutir.

— Espero que você construa uma vida boa, Rafael.

Ele me olhou.

— Você também.

A porta se fechou atrás dele pela última vez.

Diferentemente da primeira vez em que saiu com uma mala, eu não fiquei parada no corredor tentando imaginar para onde ele estava indo.

Não importava mais.

Nos meses seguintes, organizei lentamente minha relação com a herança. Mantive grande parte dos investimentos e dos imóveis administrados de maneira profissional, criei reservas separadas e estabeleci limites claros para gastos. Também continuei trabalhando, pelo menos por enquanto.

Algumas pessoas não entendiam.

Quando Lívia descobriu, muito tempo depois, que eu havia recebido uma herança considerável, quase derrubou o café.

— Você ainda está aqui fazendo relatório comigo?

Ri.

— Ainda.

— Se eu tivesse R$ 12 milhões, você nunca mais ia ver minha cara.

— Talvez eu mude de ideia no futuro. Mas não quero que o dinheiro decida por mim só porque agora pode.

Essa frase soou familiar.

Era exatamente o tipo de coisa que Seu Antônio poderia ter dito.

Comecei também a reservar uma pequena parte do rendimento anual para projetos simples ligados ao condomínio e ao bairro, sem transformar isso em obrigação permanente. Ajudei a manter o espaço de jogos, contribuí com uma iniciativa local para idosos e estabeleci limites para que aquela vontade de ajudar não virasse uma fila infinita de pedidos.

Aprendi rapidamente que dizer “não” continuava sendo necessário mesmo quando se tinha dinheiro para dizer “sim”.

Talvez ainda mais necessário.

Certo domingo, enquanto jogava xadrez no condomínio, um menino de uns doze anos sentou-se diante de mim.

— Você conhecia o senhor que jogava aqui antes?

— Conhecia.

— Dizem que ele era muito bom.

Sorri.

— Era melhor conversando do que jogando.

— Então ele perdia?

— Só quando queria me deixar feliz.

O garoto riu.

Começamos a partida.

Enquanto movíamos as peças, percebi que já conseguia pensar em Seu Antônio sem sentir apenas tristeza. Sua ausência continuava real, mas não era mais um vazio doloroso. Tinha se transformado em memória.

O mesmo começava a acontecer com meu casamento.

Rafael não era mais o homem que eu precisava odiar para conseguir seguir em frente. Era alguém que tinha dividido uma parte importante da minha vida e feito escolhas que encerraram aquela história.

As duas coisas podiam ser verdade ao mesmo tempo.

Algumas semanas depois, encontrei numa gaveta um comprovante antigo de uma das primeiras parcelas do apartamento. No verso, Rafael havia escrito uma brincadeira sobre quantos anos ainda faltavam para “a casa ser realmente nossa”.

Fiquei olhando por alguns segundos.

Depois guardei o papel numa caixa.

Não porque ainda estivesse presa ao passado.

Mas porque já não precisava fugir dele.

Naquele mesmo fim de semana, recebi de Helena os últimos documentos físicos organizados numa pasta. Coloquei tudo em um armário junto com os papéis da sucessão de Seu Antônio.

Dois processos diferentes.

Um tinha me dado uma fortuna que eu nunca esperava receber.

O outro tinha encerrado um casamento que eu nunca esperava perder.

Curiosamente, o que mais havia mudado minha vida não estava escrito em nenhum dos dois.

Era a percepção de que eu poderia tomar decisões sem medo de decepcionar alguém, sem medo de ficar sozinha e sem precisar comprar a permanência de ninguém.

Fechei o armário.

Depois desci para jogar mais uma partida.

Dessa vez, venci.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

 

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