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LEITURA EM PARTESParte 2 de 10

PARTE 2

Eu não respondi imediatamente. Apenas continuei comendo, enquanto Rafael evitava me encarar e tentava agir como se a pergunta sobre Yasmin não tivesse importância. Por dentro, porém, eu repetia cada frase que tinha ouvido atrás da porta do quarto. Pela primeira vez em três anos, percebi que talvez conhecesse muito menos o meu marido do que imaginava.

Naquela noite, Rafael ficou acordado até tarde olhando o celular. Eu estava deitada ao lado dele, de costas, fingindo dormir, mas conseguia sentir cada vez que ele se mexia. Não tentei olhar a tela nem fazer perguntas. Depois do que tinha ouvido, eu já não queria arrancar respostas às escondidas; queria ver até onde ele iria por conta própria.

Na manhã seguinte, enquanto preparávamos o café, ele voltou ao assunto. — Marina, você pensou no que eu falei ontem? — perguntou. Coloquei a xícara sobre a mesa e respondi que sim. Então acrescentei: — Mas quero entender uma coisa: você realmente acha que está me deixando porque quer me poupar?

Rafael ficou alguns segundos sem falar. — Não é só isso — admitiu, finalmente. — Acho que nós mudamos. Eu não sei se consigo continuar do mesmo jeito. Aquela resposta doeu, mas pelo menos era mais próxima da verdade do que a história sobre proteger minha vida de uma possível demissão.

— Existe outra pessoa? — perguntei. Rafael levantou os olhos de uma vez, e aquele pequeno gesto foi resposta suficiente antes mesmo de ele abrir a boca. — Por que está perguntando isso? — disse. Eu não contei que tinha ouvido a ligação; apenas respondi que a maneira como ele estava agindo tinha me feito pensar nisso.

Ele passou a mão pelo rosto. — Eu não queria que chegasse a esse ponto. — Isso não responde à minha pergunta — falei. Rafael permaneceu calado por tanto tempo que eu entendi que ele não pretendia negar com firmeza. Mesmo assim, ele disse apenas que tinha se aproximado de alguém e que as coisas estavam “confusas”.

Eu senti vontade de gritar, mas não gritei. — Então não use o seu emprego, a falta de filhos ou a minha idade para justificar uma decisão que já está tomando por outro motivo. — Rafael tentou dizer alguma coisa, mas eu o interrompi. — Se você quer ir embora, tenha coragem de dizer que quer ir embora.

Aquela frase pareceu tirar um peso dos ombros dele. — Talvez seja melhor mesmo a gente se separar — respondeu. Doeu perceber o alívio em sua voz. Ainda assim, eu disse que não tomaria nenhuma decisão sobre apartamento, dívida ou dinheiro no meio daquela conversa. Se fôssemos nos divorciar, seria de maneira clara e correta.

Rafael perguntou se poderíamos resolver tudo rapidamente. Disse que não queria briga e sugeriu colocar o apartamento à venda para quitar o financiamento e dividir o que sobrasse. Eu respondi que primeiro precisávamos entender valores, documentos e responsabilidades. Ele não gostou da minha cautela, mas não tinha argumento para contestar.

Assim que cheguei ao trabalho, entrei em contato com o advogado responsável pela herança de Seu Antônio. Expliquei apenas que eu também estava enfrentando uma possível separação e queria saber se isso afetaria o patrimônio recebido. Ele disse que seria necessário analisar meu regime de casamento e toda a documentação, mas que uma herança, em situações comuns de comunhão parcial, não se tornava automaticamente patrimônio do casal.

A informação não me fez feliz. Dinheiro nenhum poderia apagar o que eu tinha ouvido. Mas saber que eu não precisava tomar decisões desesperadas me deu uma tranquilidade que não sentia desde o dia anterior. Marquei uma conversa com ele para analisar tudo antes de assinar qualquer documento do divórcio.

Quando voltei para casa, Rafael já havia separado algumas roupas em uma mala. Disse que ficaria alguns dias na casa de um amigo para que nós dois pudéssemos pensar melhor. Não perguntei se realmente iria para a casa de um amigo. Naquele momento, percebi que minha prioridade não era mais vigiar Rafael, e sim proteger a mim mesma.

Antes de sair, ele parou perto da porta e perguntou: — Então você vai aceitar o divórcio? Respirei fundo. — Vou aceitar conversar sobre o divórcio. Mas não vou aceitar mentiras nem decisões tomadas às pressas. — Rafael assentiu e foi embora levando a mala.

A porta se fechou, e eu fiquei sozinha no apartamento que, durante três anos, tinha chamado de nosso lar. Naquela noite, não contei a Rafael sobre os R$ 12 milhões, nem telefonei pedindo que voltasse. Pela primeira vez desde que ele pronunciara a palavra “divórcio”, tomei uma decisão só minha: antes de tentar salvar qualquer casamento, eu precisava descobrir exatamente o que ainda existia para ser salvo.

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