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LEITURA EM PARTESParte 7 de 10

PARTE 7

Depois que Rafael aceitou a proposta referente ao apartamento, nossas conversas ficaram mais objetivas. O banco iniciou a análise necessária para reorganizar o financiamento e, paralelamente, Helena e o advogado dele ajustaram os termos patrimoniais do divórcio. Nada aconteceu em vinte e quatro horas, e eu agradecia por isso. Cada etapa concluída me dava tempo para me acostumar à ideia de que a separação deixava de ser apenas emocional e se tornava concreta.

Rafael receberia um valor justo pela participação que tinha no imóvel. Não mais, não menos. Eu poderia ter usado minha nova condição financeira para esmagá-lo numa disputa, mas isso nunca foi o que eu quis. Queria sair daquele casamento sem dever favores e sem carregar a sensação de ter usado dinheiro como vingança.

Enquanto os documentos avançavam, Rafael finalmente conseguiu um trabalho temporário em uma empresa menor. O salário era inferior ao anterior, mas significava recomeço. Quando me contou, respondi que esperava que desse certo. Não senti vontade de ironizar nem de lembrá-lo de quantas vezes ele havia associado o próprio valor pessoal ao emprego.

Talvez ele mesmo já tivesse aprendido alguma coisa.

Certo sábado, ele veio buscar duas caixas que ainda estavam guardadas no depósito do apartamento. Eu estava limpando a sala quando ele chegou. Ao entrar, seus olhos foram imediatamente para o tabuleiro de Seu Antônio sobre a mesa.

— Você ficou com isso?

— O porteiro tinha guardado.

Rafael passou a mão pela madeira antiga.

— Ele gostava muito de você.

— Eu gostava muito dele também.

Ficamos em silêncio.

Depois Rafael perguntou:

— Por que você nunca me contou que ele tinha dinheiro?

— Porque eu não sabia.

Ele me olhou, surpreso.

— Nunca?

— Para mim, ele era apenas Seu Antônio. Um senhor que gostava de xadrez, reclamava do preço do café e sempre esquecia de levar casaco quando esfriava.

Rafael abaixou os olhos.

— E ele deixou tudo para você.

— Deixou.

— Talvez tenha visto alguma coisa em você que eu não vi.

Aquela frase me entristeceu.

— Você viu muitas coisas em mim. Só parou de valorizar algumas delas.

Ele não respondeu.

Depois de carregar as caixas até o elevador, voltou à sala.

— Marina, eu queria pedir desculpas de um jeito diferente.

Cruzei os braços, esperando.

— Eu passei muito tempo pensando que o que fiz foi só uma consequência de estar insatisfeito. Mas não foi só isso. Eu fui covarde. Queria garantir uma saída antes de enfrentar você. E quando fiquei com medo de perder o emprego, pensei primeiro em como aquilo afetaria a vida que eu estava planejando com a Yasmin.

Era difícil ouvi-lo.

Não porque eu não soubesse.

Mas porque finalmente ele estava nomeando as próprias escolhas.

— Obrigada por admitir isso.

— Eu sei que não conserta nada.

— Não conserta.

Rafael assentiu.

— Ainda existe alguma chance?

Respirei devagar.

— Não.

A resposta saiu sem raiva.

Ele desviou o olhar, mas não insistiu.

Depois que foi embora, percebi que aquela conversa tinha sido diferente das anteriores. Pela primeira vez, Rafael não tentou culpar o desemprego, Yasmin, a falta de filhos ou a pressão financeira. Ele havia reconhecido que tomara decisões e que essas decisões tinham consequências.

Isso não significava que eu precisava oferecer outra oportunidade.

Também comecei a perceber mudanças em mim que não tinham relação direta com o divórcio. Eu ainda trabalhava na mesma empresa, continuava usando transporte público em vários dias e mantinha hábitos que sempre tivera. A diferença era que eu deixara de sentir pânico diante de qualquer despesa inesperada.

Com orientação profissional, mantive a maior parte do patrimônio investida de forma cuidadosa. Separei uma reserva confortável, organizei os imóveis recebidos e recusei várias sugestões de conhecidos de conhecidos que apareceram assim que algumas pessoas souberam que Seu Antônio havia deixado bens para mim. Descobri rapidamente que dinheiro grande atraía opiniões ainda maiores.

Por isso, mantive o círculo pequeno.

Uma das coisas que decidi fazer foi reformar discretamente o espaço onde Seu Antônio costumava jogar xadrez no condomínio. Não transformei aquilo em uma grande homenagem nem coloquei meu nome em placa alguma. Apenas conversei com a administração, paguei uma mesa resistente, algumas cadeiras e novos jogos de xadrez e damas para os moradores.

Quando o síndico perguntou por que eu queria fazer aquilo, respondi:

— Porque aquele espaço me deu mais do que parece.

No primeiro domingo depois da instalação, dois adolescentes do prédio começaram a jogar. Um senhor aposentado ficou observando e logo se ofereceu para ensinar algumas jogadas. Eu passei pelo local e sorri.

Parecia pouco diante de R$ 12 milhões.

Mas era uma das primeiras vezes em que eu usava aquele dinheiro para algo que realmente fazia sentido para mim.

Enquanto isso, o procedimento do apartamento avançava. O banco aceitou a estrutura proposta depois das análises necessárias, e o pagamento da parte de Rafael foi preparado para ocorrer junto à formalização dos documentos. Helena revisou tudo comigo mais de uma vez.

— Tem certeza de que quer quitar uma parcela maior do saldo agora? — perguntou.

— Tenho. Quero simplificar minha vida, não maximizar cada centavo.

Ela sorriu.

— Essa é uma boa razão.

No dia marcado para assinatura de parte dos documentos, Rafael chegou cedo. Parecia nervoso. Leu todas as páginas, fez perguntas ao próprio advogado e assinou somente depois de confirmar os valores.

Quando chegou a minha vez, fiz o mesmo.

Não havia triunfos naquela mesa.

Havia apenas duas pessoas encerrando uma etapa da vida de maneira civilizada.

Depois, na calçada, Rafael ficou ao meu lado por alguns segundos.

— O dinheiro vai me ajudar muito agora.

— É a sua parte do que construímos juntos.

— Eu sei.

Ele respirou fundo.

— Obrigado por não tentar me prejudicar.

Olhei para ele.

— Eu não precisava prejudicar você para proteger a mim mesma.

A frase pareceu tocá-lo.

Rafael assentiu e foi embora.

Naquela tarde, voltei para casa e retirei da gaveta uma fotografia antiga do nosso casamento. Fiquei observando nossos rostos sorridentes por um tempo. Eu não conseguia olhar para aquela mulher de três anos antes e chamá-la de ingênua.

Ela apenas havia confiado no homem que amava.

Confiar não tinha sido um erro.

O erro seria continuar ignorando o que eu sabia agora.

Guardei a fotografia em uma caixa com outras lembranças. Não joguei fora. Aquela história tinha acontecido, e eu não precisava apagá-la para seguir em frente.

Poucos dias depois, Helena me avisou que os últimos termos do divórcio estavam praticamente concluídos. Restavam formalidades e a confirmação final de alguns registros.

Quando desliguei, fiquei olhando pela janela do apartamento.

Durante meses, temi que o fim do casamento fosse me deixar sem chão.

Mas a sensação era outra.

O chão continuava ali.

Eu apenas precisava aprender a ficar de pé sem me apoiar em Rafael.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

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