Stories · Emotions · Life

LEITURA EM PARTESParte 10 de 10

PARTE 10

Quase um ano depois daquela ligação no banheiro da empresa, eu estava sentada diante do mesmo tabuleiro de xadrez que Seu Antônio costumava usar. O espaço perto da entrada do condomínio agora tinha uma mesa nova, cadeiras confortáveis e moradores que apareciam quase todos os fins de tarde. O tabuleiro antigo, porém, eu continuava guardando comigo.

Naquela manhã de sábado, tinha levado as peças para limpar.

Enquanto passava um pano cuidadosamente sobre a madeira, ouvi alguém chamar meu nome.

Era Rafael.

Levantei o rosto.

Por um instante, foi estranho vê-lo ali de novo.

Não havia mala, documentos, advogados ou discussões entre nós.

Ele apenas estava parado a poucos metros, com as mãos nos bolsos.

— Oi — disse.

— Oi.

— Vim visitar um amigo que mora no bloco ao lado. Vi você aqui e achei que seria estranho fingir que não vi.

Sorri levemente.

— Seria mesmo.

Rafael se aproximou da mesa.

— Posso sentar?

Assenti.

Durante alguns minutos, conversamos sobre coisas simples. Ele continuava no emprego novo e parecia mais tranquilo. Eu ainda trabalhava na mesma empresa, mas havia reduzido algumas horas extras e começado a estudar possibilidades para, no futuro, participar de projetos que realmente me interessassem.

Não precisava decidir tudo imediatamente.

Essa talvez fosse uma das maiores diferenças entre a Marina daquele dia e a mulher que recebera a ligação um ano antes.

Eu havia deixado de viver como se todas as decisões precisassem ser tomadas sob pressão.

Rafael olhou para o tabuleiro.

— Nunca aprendi a jogar direito.

— Seu Antônio teria tentado ensinar.

— Ele não gostava muito de mim.

— Gostava, sim.

— Não tanto quanto de você.

Ri.

— Isso provavelmente é verdade.

Ele sorriu também.

Depois o silêncio chegou.

Não era um silêncio desconfortável.

Era apenas o espaço entre duas pessoas que já tinham dito quase tudo.

— Marina, posso fazer uma pergunta?

— Pode.

— Você alguma vez pensou em voltar atrás?

Eu sabia exatamente o que ele queria dizer.

Pensei antes de responder.

— Pensei se tinha feito a coisa certa. Muitas vezes.

Ele levantou os olhos.

— E?

— Sempre que eu sentia saudade, tentava lembrar não apenas dos momentos bons, mas também do motivo pelo qual terminamos. Saudade não é a mesma coisa que confiança.

Rafael assentiu lentamente.

— Justo.

— E você?

— Durante muito tempo pensei em tentar te convencer. Depois percebi que isso seria só mais uma forma de colocar o que eu queria acima do que você tinha decidido.

A resposta me surpreendeu.

— Acho que você realmente mudou algumas coisas.

— Estou tentando.

Ficamos mais alguns minutos ali.

Então Rafael disse:

— O que mais me envergonha é lembrar daquela pergunta que fiz quando descobri a herança.

— Qual delas?

— “E se você tivesse me contado?”

Eu lembrava.

— Passei meses pensando nisso — continuou. — Naquele momento, uma parte de mim realmente estava calculando como tudo teria sido diferente se eu soubesse do dinheiro. Isso me mostrou uma coisa sobre mim que eu não gostei de ver.

Não senti vontade de consolá-lo.

Também não senti vontade de feri-lo.

— Talvez tenha sido importante você ver.

— Foi.

Ele respirou fundo.

— Eu queria dizer uma última vez que sinto muito.

Olhei para Rafael.

Durante meses, eu imaginara como seria receber um pedido de desculpas perfeito. Achava que talvez ele apagasse alguma coisa, equilibrasse a dor ou devolvesse os três anos que pareciam ter sido desperdiçados.

Agora eu entendia que nenhum pedido de desculpas faria isso.

Mas também não precisava.

— Eu aceito seu pedido de desculpas — respondi.

Os olhos dele se abriram um pouco.

— Isso quer dizer…

— Não significa que eu queira voltar.

Ele sorriu, quase constrangido.

— Eu imaginei.

— Significa apenas que não quero carregar raiva de você para sempre.

Rafael assentiu.

— Obrigado.

Pouco depois, levantou-se.

Antes de ir, olhou novamente para o tabuleiro.

— Cuida bem disso.

— Vou cuidar.

Ele caminhou em direção ao outro bloco.

Eu o acompanhei com os olhos por alguns segundos.

Não senti vontade de correr atrás.

Não senti vontade de perguntar se ainda pensava em Yasmin, se estava saindo com alguém ou se algum dia voltaria a se casar.

A vida dele já não era minha responsabilidade.

E isso não doía mais.

Subi para o apartamento perto do meio-dia. A casa estava silenciosa, mas já não tinha aquele silêncio vazio que me assustava nos primeiros meses. Havia livros novos na estante, plantas perto da janela e algumas fotografias de pessoas que continuavam fazendo parte da minha vida.

A foto do casamento não estava exposta.

Mas continuava guardada.

Não precisava fingir que nunca tinha acontecido.

Preparei café e abri o computador para revisar minhas finanças. Parte da herança permanecia investida, os imóveis recebidos estavam sendo administrados e eu havia mantido uma margem confortável para viver sem ansiedade.

O apartamento estava definitivamente regularizado em meu nome.

A dívida que um dia parecera capaz de destruir nossa vida tinha sido resolvida de forma responsável, sem atalhos improvisados.

Mas o dinheiro não era a parte de que eu mais me orgulhava.

A maior mudança tinha acontecido dentro de mim.

Antes, eu acreditava que amar alguém significava permanecer ao lado daquela pessoa mesmo quando tudo começava a doer.

Depois entendi que lealdade não era aceitar qualquer coisa.

Também descobri que independência financeira não significava apenas poder comprar algo caro ou deixar de trabalhar.

Significava poder dizer “não” sem calcular se aquele “não” me deixaria sem teto.

Poder dizer “sim” porque eu queria, e não porque precisava.

No fim da tarde, desci novamente para o espaço de xadrez.

O menino com quem eu jogava aos domingos já estava esperando.

— Hoje eu vou ganhar — anunciou.

— Você disse isso semana passada.

— Mas hoje eu treinei.

Sentamos.

Alguns moradores conversavam perto da entrada. Uma senhora lia numa das cadeiras que havíamos colocado ali. Alguém apareceu com café.

Olhei ao redor e pensei em Seu Antônio.

Durante algum tempo, senti culpa pela herança.

Parecia grande demais.

Injusta demais.

Eu continuava sem saber por que exatamente ele havia escolhido deixar tudo para mim além do carinho que construímos.

Mas parei de tentar encontrar uma explicação que transformasse aquilo numa dívida.

Ele tinha tomado uma decisão.

Agora cabia a mim decidir o que fazer com o que recebera.

Eu não precisava desperdiçar.

Não precisava provar que merecia.

Não precisava usar o dinheiro para salvar pessoas que não queriam se salvar.

Precisava apenas cuidar daquilo com responsabilidade e permitir que aquela segurança ampliasse minhas escolhas.

O menino moveu uma peça.

— Sua vez.

Olhei para o tabuleiro.

Por um instante, lembrei-me de todas as vezes em que Seu Antônio esperava pacientemente enquanto eu demorava para decidir uma jogada.

— Se escolher errado, eu perco? — perguntei certa vez.

Ele riu.

— Talvez. Mas ficar sem escolher também é uma escolha.

Na época, eu não havia entendido completamente.

Agora entendia.

Movi minha peça.

O menino sorriu, certo de que tinha encontrado uma abertura.

Talvez tivesse.

Não importava.

A vida não precisava mais ser uma partida em que eu tentava antecipar cada movimento para impedir que alguém fosse embora.

Eu tinha aprendido que perder uma pessoa não significava perder a mim mesma.

Tinha aprendido que dinheiro podia abrir portas, mas não decidir quem deveria atravessá-las comigo.

E tinha aprendido que um casamento podia terminar sem que minha história terminasse junto.

Quando a noite começou a cair, recolhi o tabuleiro de Seu Antônio e caminhei até a entrada do prédio.

Antes de subir, olhei uma última vez para a mesa onde ele costumava ficar.

Meu casamento havia acabado.

Meu medo de ficar sozinha também.

Eu não sabia exatamente como seriam os próximos anos, e pela primeira vez isso não me assustava.

Porque o futuro já não era uma vida que eu precisava proteger para outra pessoa.

Era uma vida que, finalmente, eu podia escolher por mim mesma.

Obrigado por acompanhar e ler a história até o final 🙏 Deixe nos comentários sua opinião, reação ou sugestão. Isso nos ajuda muito a melhorar as próximas histórias. Não se esqueça de seguir a página para não perder as novas histórias de cada dia 📖✨

DESCUBRA MAIS

Histórias mais recentes

Comece sempre pela Parte 1