Stories · Emotions · Life

LEITURA EM PARTESParte 8 de 10

PARTE 8

A proximidade da conclusão do divórcio trouxe uma tristeza que eu não esperava sentir. Eu tinha certeza da minha decisão, mas isso não significava que três anos de casamento pudessem ser reduzidos a um erro. Houve aniversários felizes, jantares improvisados, contas pagas juntos, noites de doença em que um cuidou do outro e planos que, durante muito tempo, foram sinceros. Reconhecer o fim não exigia negar tudo o que existira antes.

Na última reunião de conciliação, Rafael parecia pensar da mesma maneira. Sentamo-nos frente a frente, acompanhados pelos profissionais responsáveis, e revisamos os termos finais. O apartamento ficaria comigo, a compensação patrimonial dele estava definida, cada um manteria seus bens particulares e não havia outras disputas relevantes.

Quando tudo terminou, Rafael pediu para conversar comigo por alguns minutos antes de irmos embora.

Descemos até uma cafeteria próxima.

Sentamos numa mesa afastada.

Por alguns segundos, nenhum dos dois disse nada.

— Você lembra do primeiro apartamento que fomos visitar? — perguntou ele.

Sorri sem querer.

— Aquele em que a cozinha mal cabia uma geladeira?

— E você disse que dava para colocar a geladeira na sala.

— Porque eu queria casar logo.

Rafael riu brevemente.

O sorriso desapareceu tão rápido quanto surgiu.

— Eu não queria que nossa história terminasse assim.

— Eu também não.

— Às vezes penso que, se eu tivesse falado antes que estava infeliz, talvez tudo fosse diferente.

— Talvez.

— Você acha que poderíamos ter consertado?

Pensei antes de responder.

— Talvez algumas coisas. Mas eu nunca vou saber, porque você não me deu essa oportunidade. Quando finalmente conversou comigo, já estava planejando uma vida com outra pessoa.

Ele abaixou os olhos.

— Eu sei.

Dessa vez, não havia necessidade de continuar aquela discussão. O ponto já tinha sido entendido.

Rafael então falou sobre algo que nunca tinha admitido claramente. Disse que o medo de perder o emprego havia despertado nele uma sensação profunda de fracasso. Durante anos, acreditara que ser o principal responsável pelas despesas era a prova de que tinha valor. Quando percebeu que poderia perder aquele papel, começou a imaginar uma vida diferente como forma de escapar da própria insegurança.

— Isso não justifica a Yasmin — acrescentou rapidamente. — Eu sei.

— Não justifica.

— Mas acho que explica por que eu estava agindo como se precisasse fugir de tudo.

Eu concordei.

Explicação não era absolvição.

Ainda assim, ouvir Rafael falar daquele jeito me ajudou a entender algo importante: a traição não tinha acontecido porque eu ganhava pouco, porque não tínhamos filhos ou porque eu havia falhado como esposa. Ela tinha surgido de escolhas que ele fez diante das próprias frustrações.

Durante semanas, uma parte de mim tinha procurado silenciosamente alguma deficiência pessoal que explicasse tudo.

Naquela cafeteria, finalmente consegui deixar aquela pergunta para trás.

— Eu também poderia ter falado mais sobre o quanto me sentia pequena financeiramente no nosso casamento — disse. — Muitas vezes eu aceitava suas decisões porque achava que, como você pagava mais contas, tinha mais direito de decidir.

Rafael me olhou.

— Eu fazia você se sentir assim?

— Nem sempre de propósito. Mas sim.

Ele pareceu desconfortável.

— Desculpa.

— Eu também deveria ter percebido antes.

A conversa não nos reconciliou.

Mas nos tirou de uma guerra que, na verdade, nenhum de nós queria continuar.

No final daquela semana, os atos necessários ao divórcio avançaram para a conclusão. Helena me explicou cada etapa e repetiu que eu receberia a documentação definitiva assim que os registros estivessem feitos. Eu ouvi tudo com atenção.

Quando saí do escritório, não senti vontade de comemorar.

Fui trabalhar.

Passei o dia respondendo e-mails, revisando relatórios e participando de uma reunião interminável sobre um projeto atrasado. Aquela normalidade foi estranhamente reconfortante. Minha vida não havia se transformado numa novela luxuosa apenas porque eu tinha herdado dinheiro e terminado um casamento.

Continuava sendo minha vida.

Na hora do almoço, Lívia finalmente perguntou diretamente:

— Você e o Rafael se separaram?

Eu olhei para ela.

— Estamos terminando o divórcio.

O rosto dela ficou sério.

— Sinto muito.

— Eu também senti.

Ela segurou minha mão por cima da mesa.

Não contei detalhes.

Não precisava.

À noite, voltei para o condomínio e encontrei três moradores jogando xadrez na mesa reformada. Um deles me chamou e perguntou se eu sabia jogar.

— Muito mal — respondi.

O senhor aposentado que costumava observar as partidas riu.

— Então sente aqui. A gente aprende.

Sentei-me.

Durante quase uma hora, perdi duas partidas seguidas.

Foi a primeira vez em meses que ri de verdade de alguma coisa sem sentir culpa logo depois.

Quando subi para o apartamento, pensei em Seu Antônio.

Eu havia passado anos acreditando que o maior presente que ele me dera era companhia.

Depois achei que era a herança.

Naquela noite, percebi que talvez fosse outra coisa.

Ele tinha me ensinado, sem discursos, que uma pessoa podia ocupar um espaço importante na nossa vida mesmo sem possuir nenhum vínculo de sangue.

E também que perdas não apagavam o que havia sido bom.

Algumas semanas depois, recebi a confirmação de que o acordo sobre o apartamento tinha sido integralmente executado. Rafael recebeu o valor correspondente à parte dele, e eu passei a responder sozinha pelo imóvel conforme a nova estrutura aprovada.

Mandei uma mensagem simples:

“Foi concluído.”

Ele respondeu:

“Recebi. Obrigado.”

Nada mais.

Olhei para a tela por alguns segundos e depois apaguei a conversa do topo dos favoritos.

Não bloqueei Rafael.

Não precisava.

A distância agora existia naturalmente.

No domingo seguinte, comecei a reorganizar o quarto. Troquei apenas algumas coisas: mudei a posição da cama, retirei uma cômoda antiga e coloquei perto da janela uma poltrona pequena para leitura.

Não queria transformar o apartamento em outra casa.

Queria transformar novamente aquele lugar na minha casa.

Quando terminei, sentei-me na poltrona e observei o quarto.

Durante muito tempo, achei que recomeçar significava destruir tudo o que existia e construir outra vida completamente diferente.

Agora entendia que, às vezes, recomeçar era apenas decidir o que permanecia e o que já não tinha espaço.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

 

DESCUBRA MAIS

Histórias mais recentes

Comece sempre pela Parte 1