
PARTE 4
A demissão de Rafael mudou imediatamente o tom das nossas conversas. Até então, ele falava do divórcio com uma pressa quase impaciente, como se estivesse apenas tentando atravessar uma porta que já havia decidido abrir. Depois de perder o emprego, essa segurança desapareceu. Ele começou a perguntar mais sobre o apartamento, sobre quanto tempo uma venda levaria e sobre quanto dinheiro poderíamos conseguir caso encerrássemos o financiamento.
Eu respondia apenas ao que realmente sabia. Helena me orientou a não fazer promessas informais nem transferir valores sem entender como seriam tratados na divisão. Também explicou que poderíamos chegar a um acordo sem transformar o divórcio em uma guerra, desde que os dois apresentassem informações claras. Aquilo parecia óbvio, mas percebi como a pressa de Rafael poderia nos levar a decisões ruins.
Marcamos uma reunião com nossos representantes para discutir o apartamento. Rafael apareceu cansado, usando a mesma camisa social que costumava vestir para trabalhar, embora já não tivesse emprego para onde ir. O contraste mexeu comigo. Durante anos, eu o vira como alguém seguro, organizado e sempre dois passos à minha frente; agora ele parecia um homem tentando esconder o próprio medo.
A proposta inicial dele continuava sendo vender o imóvel. Helena perguntou se algum de nós tinha interesse em permanecer ali. Rafael disse imediatamente que não. Eu pedi alguns dias para pensar, porque aquele apartamento ainda significava muita coisa para mim, mesmo carregando lembranças dolorosas.
Depois da reunião, Rafael quis conversar sozinho comigo.
— Eu não quero que você pense que estou tentando tirar vantagem — disse.
— Então não tente.
Ele fez uma expressão de irritação.
— Você ficou diferente.
— Não. Eu só comecei a fazer perguntas antes de dizer sim.
Rafael desviou o olhar.
Caminhamos alguns metros em silêncio antes que ele admitisse que estava preocupado com os próximos meses. A rescisão lhe daria algum fôlego, mas não por muito tempo. Procurar outro emprego poderia levar semanas ou meses, e ele não sabia quanto conseguiria ganhar no início.
— A Yasmin sabe que você foi demitido? — perguntei.
Ele me olhou rapidamente.
— Sabe.
— E vocês continuam juntos?
Rafael apertou a mandíbula.
— Eu não acho que isso seja da sua conta.
— Você tem razão. Não é mais.
A minha resposta pareceu incomodá-lo mais do que qualquer cobrança.
Nos dias seguintes, percebi que a separação emocional estava acontecendo de verdade. Retirei as roupas de Rafael que ainda estavam espalhadas pelo quarto e as coloquei cuidadosamente em caixas. Não rasguei fotos, não joguei nada fora, não fiz cenas. Apenas comecei a reorganizar um espaço que durante muito tempo havia sido pensado para duas pessoas.
Quando Rafael veio buscar parte das coisas, observou as caixas próximas à porta.
— Você estava com tanta pressa assim para me tirar daqui?
— Foi você quem decidiu sair.
— Eu só precisava pensar.
Olhei para ele.
— Rafael, você pediu o divórcio e admitiu que gosta de outra mulher. Não transforme isso agora em uma pausa temporária porque sua situação financeira mudou.
O rosto dele endureceu.
— Você acha que tudo gira em torno de dinheiro?
A pergunta quase me fez rir pela ironia.
— Eu ainda não sei em torno do que suas decisões giram. Estou tentando descobrir.
Ele pegou as caixas sem responder.
Naquela semana, recebi novidades sobre o processo de sucessão de Seu Antônio. Algumas etapas haviam avançado, mas o advogado reforçou que ainda havia procedimentos a cumprir. Ele também me mostrou uma visão mais detalhada do patrimônio: havia aplicações financeiras, dois imóveis alugados e outros ativos que compunham aproximadamente os R$ 12 milhões mencionados na primeira ligação.
Olhei para aquelas informações e senti algo diferente de euforia.
Responsabilidade.
Seu Antônio tinha construído aquilo ao longo de uma vida. Ele poderia ter deixado para instituições, parentes distantes ou qualquer outra pessoa. De alguma maneira, tinha escolhido confiar em mim.
Na saída do escritório, passei pelo condomínio e encontrei o pequeno tabuleiro de xadrez que ele costumava usar guardado com o porteiro. Eu não sabia que tinha ficado ali. O porteiro me disse que ninguém tivera coragem de jogar fora depois da morte dele.
Peguei o tabuleiro nas mãos e fiquei alguns segundos em silêncio.
Lembrei-me de uma conversa antiga, de quando eu reclamava que meu salário desaparecia no mesmo dia em que chegava.
Seu Antônio tinha rido e dito:
— Dinheiro serve para dar escolha. Quando ele começa a escolher por você, alguma coisa está errada.
Na época, achei apenas uma frase de velho experiente.
Agora parecia um aviso.
Na reunião seguinte com Helena, eu disse que talvez quisesse permanecer no apartamento. Ela explicou que seria preciso avaliar o valor atual, a dívida restante, o patrimônio comum já formado e a possibilidade de eu assumir ou quitar a parte adequada sem prejudicar Rafael. Nada seria feito de um dia para o outro, principalmente porque havia banco envolvido.
— Eu não quero receber o que não é meu — falei. — Só não quero perder minha casa por causa de uma decisão que não tomei.
— Então vamos construir uma proposta justa — respondeu Helena.
Naquela mesma noite, Rafael apareceu sem avisar. Parecia abatido.
— Posso entrar?
Deixei.
Ele se sentou no sofá e ficou alguns segundos olhando para as próprias mãos.
— Mandei currículo para oito empresas.
— Espero que dê certo.
— Eu também.
Depois de um silêncio, perguntou:
— Você ainda quer mesmo se divorciar?
A pergunta me pegou de surpresa.
— Você está perguntando porque mudou o que sente por mim ou porque perdeu o emprego?
Rafael levantou os olhos.
— Não sei.
Pela primeira vez, aquela resposta me pareceu genuína.
— Então descubra antes de pedir que eu mude de decisão.
Ele respirou fundo.
— A Yasmin também está pressionada. Ela achava que as coisas seriam mais simples.
Eu senti uma pontada no peito, mas não permiti que aquilo se transformasse em disputa.
— Isso é entre vocês.
— Marina…
— Não. Você não pode planejar uma vida com outra pessoa e depois voltar para mim quando a realidade fica mais complicada.
Rafael se levantou.
— Eu cometi erros.
— Cometeu.
— E você nunca cometeu?
— Claro que sim. Mas os meus erros não justificam os seus.
Ele foi embora sem discutir.
Poucos dias depois, nossos advogados começaram a formalizar os primeiros termos da separação. Ainda não havia acordo definitivo sobre o apartamento, mas concordamos em manter temporariamente as despesas proporcionais até que uma solução fosse aprovada. Rafael usaria parte da rescisão para cumprir suas obrigações enquanto buscava trabalho.
Também iniciamos oficialmente o procedimento para um divórcio consensual, desde que conseguíssemos resolver os pontos patrimoniais.
Quando recebi a primeira minuta dos termos, fiquei muito tempo olhando para meu nome ao lado do nome dele.
Marina e Rafael.
Durante três anos, aqueles dois nomes juntos significaram família para mim.
Agora estavam em um documento que explicava como nossas vidas seriam separadas.
Doeu mais do que eu esperava.
Ainda assim, assinei apenas o recebimento para análise e levei o restante para casa.
Naquela noite, coloquei o tabuleiro de xadrez de Seu Antônio sobre a mesa da sala. Passei a mão pelas peças antigas e percebi que eu ainda estava no meio de uma partida que não havia escolhido começar.
Mas, pela primeira vez, eu estava pensando antes de mover a próxima peça.
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