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LEITURA EM PARTESParte 1 de 10

Na festa da empresa, chamaram a secretária do meu marido de patroa — e ele deixou todos acreditarem

Parte 1

Na confraternização de fim de ano da empresa, meu marido apareceu acompanhado da própria secretária.

Em menos de uma hora, meu feed estava cheio de fotos dos dois. Em quase todas, os comentários se repetiam como se alguém tivesse combinado antes:

“Que patroa linda.”

Fiquei olhando para a tela durante três minutos.

Depois desliguei o celular.

Fui para a cama.

Na manhã seguinte, quando liguei o aparelho, havia 137 chamadas perdidas.

A mensagem mais recente dizia:

“Amor, eu sei que errei. Atende, por favor.”

Respondi apenas:

“Quem é?”

O celular tocou quase no mesmo instante.

Do outro lado, a voz de Caio estava tão nervosa que mal parecia a mesma voz segura que ele usava nas reuniões da empresa.

— Para com isso. Eu sei que você está com raiva. Sua participação na empresa ainda está no seu nome.

Minha resposta saiu calma:

— Não mais, Caio.

Horas antes, o telefone tinha tocado enquanto eu lavava a louça do jantar.

— Abre o Instagram agora.

Fechei a torneira.

— O que aconteceu?

— Abre primeiro. — A voz da minha prima tremia. — Eu já te mandei. Olha antes de qualquer coisa.

Sequei as mãos no pano de prato e peguei o celular.

Eram nove fotos.

Na primeira, aparecia o salão de festas de um hotel em São Paulo. No painel atrás do palco, o nome da empresa de Caio ocupava quase toda a parede.

Na segunda, ele estava no palco, segurando um microfone e fazendo o discurso de encerramento do ano.

Na terceira, estendia a mão para uma mulher de vestido vermelho subir os degraus.

Na quarta, os dois estavam lado a lado.

Perto demais.

A mão dele repousava na cintura dela.

Conheci aquela mulher no mesmo instante.

Era a secretária dele.

Abaixo da foto, os comentários se acumulavam.

“Que patroa linda.”

“O presidente e a esposa formam um casal perfeito.”

“Que o casal tenha um ano novo cheio de prosperidade.”

A publicação era de um funcionário do comercial da empresa. Eu o conhecia de alguns encontros e ainda o seguia nas redes sociais.

Desci a tela.

Outros três funcionários tinham publicado imagens da mesma festa. Os ângulos mudavam, mas uma coisa permanecia igual.

Patroa.

Patroa.

Patroa.

Voltei à primeira foto.

Passei novamente por todas as nove.

Depois fiz o caminho inverso, da última para a primeira.

Minha prima perdeu a paciência com meu silêncio.

— Você está aí?

— Estou vendo.

— Não tira conclusão antes de falar com o Caio. Talvez o pessoal tenha chamado ela assim sem saber. Funcionário fala besteira, você sabe como é…

Olhei outra vez para os comentários.

— Tem vinte e sete curtidas só nos comentários chamando ela de patroa.

Minha prima não respondeu.

— Nenhuma pessoa corrigiu — completei.

O outro lado da ligação ficou mudo.

Continuei descendo a tela.

Alguém havia compartilhado uma das fotos e acrescentado:

“Trabalhar com o presidente Caio é garantia de mesa farta. Passei a noite inteira olhando o colar da patroa.”

Colar.

Levantei os olhos para o armário da sala.

No mês anterior tinha sido meu aniversário.

Caio dissera que a empresa estava com o caixa apertado. Falou sobre pagamentos, fornecedores, compromissos de fim de ano e repetiu que precisávamos “segurar as pontas” por mais algumas semanas.

Naquela manhã, havia me transferido R$ 800.

“Depois da virada eu compenso”, prometera.

Não reclamei.

Sabia que administrar uma empresa tinha períodos melhores e piores.

Afastei o telefone do rosto e ampliei a quarta fotografia.

No pescoço da secretária havia um colar delicado, com uma pedra brilhante no centro. Mesmo pela tela, chamava atenção.

— Ei…

Minha prima voltou a falar.

— Talvez seja melhor você vir para o hotel. A festa ainda não acabou.

— Que horas são?

— Nove e quarenta.

— Entendi.

— Você vem?

— Não.

— Como assim, não?

Olhei o relógio na tela.

Desde o momento em que abrira a primeira foto até aquele instante, tinham se passado exatamente três minutos.

— Amanhã eu preciso levar a Luna para a escola.

— Mas…

— Vai dormir. A gente conversa depois.

Desliguei.

Ainda havia dois pratos na pia.

Abri novamente a torneira, lavei os dois, coloquei-os no escorredor e limpei a bancada.

Não chorei.

Também não liguei para Caio.

Não escrevi para a secretária.

Não comentei nenhuma foto.

Quando terminei, apaguei a luz da cozinha.

Ao atravessar a sala, vi a chave do carro de Caio sobre a mesa de centro.

Ele a havia esquecido em casa naquela manhã.

Peguei a chave e coloquei dentro da gaveta do móvel perto da porta.

Depois fui para o quarto.

Conectei o celular ao carregador.

Desliguei o aparelho.

E me deitei.

Um minuto depois, sentei de novo.

Fui até o quarto da Luna.

Minha filha dormia atravessada na cama, com o cobertor empurrado para os pés.

Puxei o cobertor até seus ombros.

Peguei o copo de água vazio que estava na mesinha e levei para fora.

Quando voltei ao meu quarto, deitei novamente.

No teto, acima da cama, ainda havia uma mancha de infiltração.

Era do vazamento do apartamento de cima, ocorrido no ano anterior.

Caio dissera várias vezes que chamaria alguém para consertar.

Um ano inteiro tinha passado.

A mancha continuava ali.

Fiquei olhando para ela.

Depois fechei os olhos.

Acordei uma vez durante a madrugada.

O outro lado da cama estava vazio.

Passei a mão pelo travesseiro de Caio.

Frio.

Virei para o lado.

E dormi novamente.

Às seis e vinte da manhã, acordei antes mesmo de o despertador tocar.

Fiz o café da manhã.

Cozinhei ovos.

Esquentei o leite.

Separei pão para Luna.

Quando ela apareceu no corredor, ainda esfregava os olhos com as duas mãos.

— Cadê o papai?

Coloquei o copo de leite diante dela.

— Foi viajar a trabalho.

Ela franziu a testa.

— Mas ontem não era a festa da empresa?

— Era. Ele viajou depois da festa.

Luna mordeu o pão.

Pensou por alguns segundos e assentiu.

— Tá.

Não fez mais perguntas.

Levei-a para a escola.

Quando desceu do carro, ela correu alguns passos em direção ao portão, mas parou de repente.

Virou-se.

— Mãe.

— Oi.

— Hoje você…

Ela me observou por alguns instantes.

— Nada. Tchau, mãe.

— Tchau, meu amor.

Fiquei ali até vê-la desaparecer pelo portão.

Só então voltei para o carro.

Tirei o celular da bolsa.

Apertei o botão lateral.

A tela acendeu.

Assim que o sinal da operadora apareceu, o aparelho começou a vibrar.

Uma vez.

Duas.

Três.

Depois sem parar.

As notificações chegavam em sequência, fazendo o celular tremer sobre minha mão.

Coloquei-o no banco do passageiro.

Deixei vibrar.

Quase quarenta segundos se passaram até finalmente ficar quieto.

Peguei de volta.

137 chamadas perdidas.

19 mensagens de texto.

Mais de noventa mensagens em aplicativos.

A mais recente tinha sido enviada dez minutos antes.

“Amor, eu sei que errei. Atende, por favor.”

Olhei para o relógio do painel.

7h51.

Digitei duas palavras.

“Quem é?”

Enviei.

Três segundos depois, o celular começou a tocar.

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