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LEITURA EM PARTESParte 8 de 10

Parte 8

A primeira parcela referente à compra da minha participação entrou na data combinada. Não era todo o valor, e ainda havia etapas formais a cumprir, mas aquele depósito tornou concreto algo que até então existia em contratos e reuniões.

Eu estava realmente saindo da empresa.

Caio cumprira sua parte.

Na mesma semana, a secretária foi transferida para outra área. Não fui informada por ela, e sim porque o assunto apareceu numa atualização administrativa enviada aos sócios.

Quando perguntei a Caio se ele havia feito aquilo para me agradar, ele respondeu:

— Não. Ela pediu. E eu achei que fazia sentido.

— Você pressionou?

— Não.

— Ótimo.

Não havia mais nada a discutir.

A secretária tinha cometido um erro ao aceitar aquela situação.

Caio tinha cometido um erro maior ao criá-la e sustentá-la.

Eu não pretendia construir meu recomeço destruindo profissionalmente uma mulher só para sentir que havia vencido alguma disputa que, no fundo, nunca deveria ter existido.

Os documentos da separação avançavam mais devagar.

Ter uma filha em comum exigia cuidado.

A advogada explicou os pontos que precisaríamos organizar e reforçou que o objetivo não deveria ser produzir um “vencedor”, e sim regras viáveis para a vida depois do casamento.

Gostei daquela expressão.

Vida depois.

Durante semanas, tudo parecera girar em torno da festa.

Agora começava a existir um depois.

Caio buscava Luna duas vezes durante a semana e passava parte do fim de semana com ela. No início, nossa filha voltava mais quieta. Depois começou a falar sobre o quarto novo na casa do pai, os livros que levara para lá e a caneca que escolhera para deixar na cozinha dele.

A adaptação não era indolor.

Mas era real.

Certa tarde, enquanto arrumávamos a mochila, Luna perguntou:

— Mãe, quando eu estou com o papai você fica sozinha?

— Às vezes.

— Você fica triste?

Sorri.

— Às vezes também.

Ela colocou um estojo dentro da mochila.

— Então chama a prima para ficar aqui.

Eu ri.

Foi a primeira risada espontânea que tive sobre minha nova rotina.

— Posso fazer isso.

Luna pareceu satisfeita.

As crianças não precisavam de discursos perfeitos.

Precisavam saber que o mundo continuava de pé.

Na sexta-feira, Caio pediu para conversar depois de deixar nossa filha.

Sentamos na varanda.

— A equipe parou com os comentários — ele disse.

— Que bom.

— A secretária também falou com o RH. Disse que não quer que ninguém seja punido por ter feito piada na festa, só quer que parem.

— Parece razoável.

Ele passou as mãos pelas pernas.

— Você percebeu que eu não falo mais o nome dela com você?

— Ela não tem nome para mim desde o começo.

Caio quase sorriu, mas desistiu.

— Eu passei semanas querendo provar que não tinha acontecido nada entre nós.

— Eu sei.

— E demorei para entender que você não precisava provar uma traição para decidir que eu tinha passado do limite.

Assenti.

Era exatamente isso.

— Eu achava que, se não tivesse sexo, beijo, mensagem escondida, então o casamento ainda estava intacto.

— Não estava.

— Agora eu sei.

Ele olhou para dentro da casa.

O teto da sala estava pintado.

A mancha havia desaparecido.

— Ficou bom.

— Ficou.

— Eu devia ter chamado alguém.

— Caio.

— Eu sei. Não estou falando para você voltar.

Havia uma diferença naquela frase.

Ele não estava mais tentando usar cada arrependimento como moeda de troca.

— Eu comecei terapia — disse.

Não respondi imediatamente.

— Por você?

— Por mim.

— Melhor.

Ele respirou fundo.

— Eu percebi que tenho uma mania de evitar qualquer coisa que me faça parecer fraco ou desorganizado. Se tem um problema, eu empurro até achar uma solução que ninguém veja. Na festa, corrigir as pessoas significaria admitir que a situação tinha ficado ridícula. Então deixei.

— E piorou.

— Muito.

Ficamos em silêncio.

Não era um silêncio hostil.

Também não era íntimo.

Era o espaço de duas pessoas que finalmente conseguiam olhar para o mesmo fato sem disputar qual versão seria mais confortável.

Caio levantou para ir embora.

Antes de abrir a porta, virou.

— Eu ainda amo você.

Meu corpo ficou tenso.

Ele ergueu a mão.

— Não precisa responder. Eu só queria dizer sem transformar isso num pedido.

— Tá.

Foi tudo.

Quando a porta fechou, esperei a antiga culpa aparecer.

Não apareceu.

O amor dele não criava obrigação em mim.

Na semana seguinte, tivemos uma reunião de mediação para organizar os termos que seriam levados ao procedimento de separação. Guarda, convivência, despesas, férias, decisões importantes sobre Luna.

Em quase todos os pontos, chegamos a acordo.

No único em que divergimos, relacionado a datas de viagem, pedimos orientação e ajustamos.

Sem gritos.

Sem chantagem.

Sem usar nossa filha.

Quando saímos, Caio perguntou:

— Quer tomar um café?

Pensei.

— Não.

Ele assentiu.

Não insistiu.

Voltei para casa sozinha.

No caminho, passei diante do hotel onde acontecera a confraternização.

Reconheci a entrada imediatamente.

Por um instante, vi mentalmente a foto: vestido vermelho, mão na cintura, comentários chamando outra mulher de patroa.

A lembrança ainda doía.

Mas já não tinha o mesmo poder.

Ela deixara de ser uma pergunta.

Tinha se tornado uma resposta.

Eu não precisava saber se aquela noite poderia ter evoluído para algo pior.

Precisava apenas aceitar o que ela já tinha revelado sobre o casamento que existia naquele momento.

Naquela tarde, liguei para minha advogada.

— Quero seguir até o fim.

— Você tem certeza?

Olhei para a sala, para o teto restaurado e para uma fotografia de Luna na estante.

— Tenho.

Depois mandei uma mensagem para Caio:

“Autorizei minha advogada a concluir os próximos passos da separação.”

Ele levou quase uma hora para responder.

“Tudo bem. Vou cooperar.”

Fiquei esperando o aperto.

Ele veio.

Mas passou.

Naquele instante, alguma coisa mudou definitivamente.

Até então, eu vinha saindo da empresa.

Agora eu também estava saindo do casamento.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

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