
Parte 9
Os meses seguintes não tiveram nenhuma grande revelação.
E foi justamente isso que tornou tudo mais difícil e mais verdadeiro.
Não apareceu um amante secreto.
Não surgiu um filho escondido.
Não houve gravação, câmera ou documento capaz de transformar Caio em alguém completamente diferente do homem com quem eu tinha vivido.
Ele continuava sendo o mesmo.
Um homem que trabalhava demais, amava a filha, tinha participado da construção da nossa vida e, ao mesmo tempo, havia aprendido a tratar minha presença como algo garantido.
A ausência de um escândalo maior não diminuiu o que eu sentia.
Pelo contrário.
Obrigou-me a sustentar minha decisão sem a ajuda de um vilão perfeito.
A transferência da minha participação avançou conforme o acordo.
As parcelas chegavam.
As alterações societárias eram feitas no ritmo correto.
Eu recebia cópia dos documentos e conferia tudo.
Caio não atrasou.
Em uma das últimas reuniões, ele pediu que o contador saísse alguns minutos.
— Depois da próxima etapa, você não participa mais de nenhuma decisão interna — disse.
— Eu sei.
— Eu pensei que ficaria aliviado quando isso acontecesse.
— E não ficou?
— Não.
Não respondi.
Ele passou a mão pela mesa.
— Quando a empresa estava começando, eu dizia para todo mundo que nós fazíamos aquilo juntos.
Eu me lembrava.
— Depois que cresceu, eu comecei a falar “minha empresa”.
Também me lembrava.
— Em algum momento, eu transformei você em parte da estrutura. Como se você fosse estar sempre ali porque seu nome estava nos documentos.
— Foi por isso que você falou das ações naquela manhã?
— Foi.
Caio ergueu os olhos.
— Quando você desligou o celular, eu passei a madrugada imaginando que você ia me deixar. E pensei: não, ela não vai. A participação dela está aqui. Nós temos tudo misturado. Ela vai ter que falar comigo.
A sinceridade era desagradável.
Mas necessária.
— Então você usou a empresa como segurança emocional.
— Sim.
— Não era segurança. Era dependência.
— Agora eu sei.
Fechei a pasta diante de mim.
— Esse foi o ponto em que eu percebi que precisava sair da sociedade mesmo se, por algum motivo, a gente ainda tentasse salvar o casamento.
Caio assentiu.
— Eu entendo.
A reunião terminou.
Na saída, ele não tentou prolongar a conversa.
Outra diferença.
Em casa, Luna já tinha criado uma rotina própria entre os dois endereços. Às quartas-feiras, deixava uma mochila pronta perto da porta. Aos domingos, voltava contando coisas demais ao mesmo tempo.
Certa noite, sentou na minha cama.
— O papai falou que vocês não vão voltar.
Meu coração apertou.
— Ele falou isso como?
— Eu perguntei.
— E o que ele respondeu?
— Que ele queria, mas você não quer.
Fechei os olhos por um instante.
Aquilo precisava ser corrigido.
— Eu vou conversar com ele.
— Você não quer porque não ama mais ele?
Sentei ao lado dela.
— Às vezes dois adultos ainda gostam um do outro e mesmo assim entendem que viver juntos não está fazendo bem.
Ela franziu a testa.
— Isso é estranho.
— É.
— Adulto é complicado.
— Muito.
Luna encostou a cabeça no meu ombro.
No dia seguinte, liguei para Caio.
— Não coloque em mim, para a Luna, a decisão inteira da separação.
Ele ficou em silêncio.
— Eu não quis fazer isso.
— Quando você diz que queria voltar e eu não quero, é exatamente isso que ela entende.
— Você tem razão.
— Fala que é uma decisão dos adultos. Que nós dois somos responsáveis pelo que aconteceu no casamento, mesmo que as responsabilidades não sejam iguais.
— Tá.
Ele cumpriu.
Na noite seguinte, mandou uma mensagem:
“Conversei com ela. Desculpa.”
Não respondi além de:
“Obrigada.”
A data da última assinatura societária foi marcada para a mesma semana em que receberíamos a versão final dos termos da separação.
Dois encerramentos quase ao mesmo tempo.
Minha prima achou simbólico.
— Parece novela.
— Não parece nada com novela.
— Você sabe o que eu quero dizer.
Eu sabia.
Mas a realidade tinha sido muito menos espetacular do que as pessoas imaginavam.
As decisões mais importantes não vieram acompanhadas de música, gritos ou portas batendo.
Vieram em salas pequenas.
Com papéis.
Com frases curtas.
Com noites em que eu precisei repetir para mim mesma que sentir saudade não era o mesmo que ter tomado a decisão errada.
Na véspera da assinatura, Caio pediu um último encontro.
Aceitei.
Escolhemos a mesma cafeteria onde havíamos conversado semanas antes.
Ele chegou antes.
Sobre a mesa havia uma pequena caixa.
Meu estômago se contraiu.
— Se isso for joia, eu vou embora.
Caio quase riu.
— Não é.
Abriu.
Dentro estava a chave antiga do primeiro escritório da empresa.
Reconheci imediatamente.
— Encontrei quando estava arrumando umas caixas.
Peguei a chave.
Naquela sala pequena, eu havia passado noites ajudando a organizar notas, preparar café e fazer conta.
— Você quer que eu fique com ela? — perguntei.
— Quero. Não como tentativa de te prender. Só porque aquela parte da história também é sua.
Passei o polegar pelo metal gasto.
Dessa vez, aceitei.
Não porque queria voltar.
Mas porque sair de uma história não exigia negar que ela existira.
Caio me olhou.
— Amanhã eu vou assinar tudo.
— Eu também.
— E depois?
— Depois a gente cria a vida que consegue criar. Separados.
Ele respirou fundo.
— É sua resposta final?
Olhei para ele.
Não havia raiva suficiente para me proteger.
Não havia escândalo novo para me empurrar.
Só havia a verdade.
— É.
Caio fechou os olhos.
Quando abriu, assentiu.
— Então amanhã eu não vou tentar mudar sua cabeça.
Levantei da mesa com a chave na mão.
Pela primeira vez, a promessa dele de não fazer alguma coisa me trouxe paz.
No dia seguinte, nós encerraríamos oficialmente a ligação empresarial que ele imaginara capaz de me manter ao lado dele.
E, logo depois, encararíamos a última parte que restava.
Não para decidir se eu iria embora.
Essa decisão já estava tomada.
Mas para aprender a sair sem destruir tudo o que ainda precisava continuar existindo por causa da nossa filha.
A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇














