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LEITURA EM PARTESParte 5 de 10

Parte 5

O laudo preliminar da avaliação chegou na terça-feira seguinte. Não trazia um número definitivo, mas uma faixa suficientemente clara para mostrar que minha participação tinha valor relevante e que uma eventual compra exigiria planejamento. A empresa era saudável, porém não tinha dinheiro sobrando para transformar uma separação societária em pagamento instantâneo.

Isso eliminou uma fantasia perigosa.

Eu não sairia dali batendo a porta com um cheque na mão.

Precisaríamos negociar.

Caio me ligou depois de receber o mesmo documento.

— Eu quero comprar sua parte.

— Você consegue?

— À vista, não.

— Então vamos discutir uma estrutura que a empresa suporte.

Ele ficou alguns segundos calado.

— Você está mesmo preocupada com a empresa.

— Eu estou preocupada com o que também é meu até a transferência terminar.

Marcamos uma reunião com o contador e um advogado empresarial indicado pela própria contabilidade. A função dele não era “me salvar”, nem derrubar Caio. Era explicar o que podia ser feito sem colocar a operação em risco.

A solução mais simples seria negociar uma compra parcelada, com regras de pagamento e garantias proporcionais. Nada cinematográfico. Nada resolvido em cinco minutos.

Saí daquela reunião cansada, mas estranhamente satisfeita.

Havia algo poderoso em transformar uma situação emocionalmente caótica em decisões verificáveis.

No estacionamento, encontrei a secretária encostada ao lado do carro dela.

— Eu estava esperando você.

Parei.

— Aconteceu alguma coisa?

— Eu pedi para sair da assessoria direta do Caio.

Aquilo me surpreendeu.

— Por minha causa?

— Também.

Ela respirou fundo.

— Desde a festa, qualquer vez que entro numa sala as pessoas param de falar. Tem gente que acha que eu sou amante dele. Tem gente que acha que eu tentei tomar seu lugar. Eu errei em não corrigir os comentários. Mas eu não quero continuar numa função em que qualquer proximidade profissional virou outra coisa.

— Você pediu demissão?

— Não. Pedi transferência para outra área. Se aceitarem.

Assenti.

— É uma decisão sua.

Ela me observou.

— Você me odeia?

A pergunta não combinava com a imagem segura que ela transmitia no trabalho.

— Não.

— Mesmo?

— Eu não gostei do que você fez. Mas meu casamento não é sua responsabilidade principal. É do Caio e minha.

Ela respirou como se tivesse prendido o ar durante dias.

— Tem uma coisa que eu devia ter feito naquela noite.

— O quê?

— Quando o primeiro funcionário me chamou de patroa, eu ri. Achei ridículo. Depois mais gente repetiu. Eu falei para o Caio que estava ficando estranho.

— E ele?

— Disse: “Deixa. Amanhã ninguém lembra.”

A frase ficou entre nós.

Era pequena.

Comum.

Exatamente o tipo de frase que Caio usava quando queria evitar qualquer desconforto imediato.

Deixa.

Depois a gente resolve.

Não vale a pena discutir.

Amanhã ninguém lembra.

Só que algumas coisas continuam existindo justamente porque alguém decide deixá-las passar.

Agradeci por ela ter contado e fui embora.

Não transformei aquilo numa nova acusação naquela noite.

Esperei Caio buscar Luna no dia seguinte.

Quando nossa filha já estava no carro, chamei-o antes que fechasse a porta.

— Sua secretária disse que avisou você que os comentários estavam ficando estranhos.

O rosto dele mudou.

— Ela falou com você de novo?

— Isso importa?

— Não. Eu só…

— Ela disse que você respondeu: “Deixa. Amanhã ninguém lembra.”

Caio fechou os olhos por um instante.

— Eu falei.

— Por quê?

— Porque eu estava no meio de uma festa com clientes, fornecedores, equipe inteira. Eu achei que corrigir aquilo na hora ia virar mais assunto ainda.

— E a mão na cintura?

— Ela quase tropeçou quando subiu no palco. Eu segurei. Depois ficou daquele jeito na foto.

— O colar?

Ele olhou para o carro onde Luna esperava.

— Eu comprei.

— Eu sei.

— Não foi romântico.

— Também sei que você diz isso.

Ele passou a mão pela nuca.

— Eu queria que ela estivesse bem apresentada. Era a pessoa que estava do meu lado recebendo gente, acompanhando agenda, resolvendo problema. Eu pensei na imagem do evento.

Foi naquele momento que entendi uma parte importante do problema.

— Você pensou na imagem.

Ele me encarou.

— Pensou na imagem da empresa, na imagem da festa, na imagem de quem estava ao seu lado. E quando as pessoas começaram a achar que ela era sua esposa, você preferiu não mexer na imagem.

— Eu não pensei desse jeito.

— Eu sei. Esse é o problema.

Caio não discutiu.

Luna bateu no vidro do carro.

— Pai!

Ele olhou para trás.

— Já vou.

Antes de sair, falou baixo:

— Eu fui um idiota.

— Foi.

Dessa vez não amenizei.

Nos dias seguintes, Caio aceitou a transferência da secretária para outra área, sem puni-la nem transformá-la em culpada. Achei correto.

Também começou a negociar a compra da minha participação.

A primeira proposta veio abaixo da faixa apontada pela avaliação.

Recusei.

Não gritei.

Não ameacei procurar comprador externo.

Apenas respondi que o valor não refletia o laudo e pedi uma proposta revisada.

Caio apareceu em casa naquela noite.

— Você sabe que eu não tenho como pagar o topo da avaliação.

— Sei.

— Então por que recusou?

— Porque existe diferença entre não conseguir pagar o topo e oferecer abaixo do razoável.

— Eu preciso manter a empresa funcionando.

— E eu preciso não sair perdendo só para facilitar sua vida.

Ele andou até a janela.

— Você acha que eu estou tentando aproveitar a situação?

— Acho que você está tentando resolver o problema da maneira mais confortável para você.

Ele virou.

— E isso é errado?

— Quando o conforto é pago por mim, sim.

A frase ficou pesada na sala.

Caio pediu dois dias.

Na segunda proposta, o valor aumentou e o prazo também.

Dessa vez, havia espaço para negociação.

Foi a primeira consequência concreta que ele enfrentou que não dependia de eu estar triste ou zangada.

Sua escolha naquela festa não custaria apenas uma discussão.

Custaria reorganização.

Tempo.

Dinheiro.

E a possibilidade real de perder a mulher que durante anos ele acreditou que continuaria ali enquanto “depois” nunca chegava.

Naquela noite, antes de dormir, olhei para a mancha no teto.

No dia seguinte, liguei para um profissional e marquei o conserto por conta própria.

Quando desliguei, quase ri.

Não porque fosse engraçado.

Mas porque percebi quanto tempo eu havia passado esperando Caio resolver coisas que eu mesma podia decidir resolver.

A mancha começaria pelo teto.

O resto viria depois.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

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