
Parte 7
A reunião para acertar os termos finais da venda da minha participação durou quase três horas. Não porque houvesse uma briga, mas porque cada ponto precisava ser claro: valor, número de parcelas, datas, garantias, responsabilidade por custos e o momento em que eu deixaria oficialmente de integrar a sociedade.
Caio leu tudo.
Eu também.
O contador fez duas observações.
O advogado corrigiu uma cláusula.
Ninguém levantou a voz.
Talvez aquela tenha sido a cena mais distante das histórias dramáticas que as pessoas imaginariam depois de ver as fotos da confraternização.
E, ainda assim, para mim, era um ponto sem volta.
Antes de assinarmos, Caio pediu uma pausa.
Saímos da sala e fomos até a varanda estreita do escritório.
A cidade seguia barulhenta lá embaixo.
— Se você assinar, acabou mesmo — ele disse.
— A sociedade, sim.
— Você sabe o que eu quis dizer.
Apoiei as mãos no parapeito.
— Eu também quero dar entrada na separação.
Caio ficou olhando a rua.
— Eu pensei que, se eu fizesse tudo certo daqui para frente, talvez você esperasse.
— Eu esperei muitos anos por várias coisas.
Ele fechou os olhos.
— Eu sei.
— Não quero que você faça tudo certo para me convencer a voltar. Faça porque é o certo.
— E se eu ainda quiser recuperar você?
— Você pode querer. Eu só não posso prometer que isso vai acontecer.
A resposta doeu nele.
Dessa vez, não tentou esconder.
— Você ainda me ama?
Era a primeira pergunta que realmente me colocou em dificuldade.
— Amo partes da vida que nós tivemos. Amo o pai que você é quando está presente. Amo lembranças nossas. Não sei se isso é o mesmo que querer continuar sua esposa.
Caio respirou fundo.
— Então existe alguma chance?
— Não transforme cada frase minha numa negociação.
Ele abaixou a cabeça.
— Desculpa.
Voltamos para a sala.
Assinei.
Caio assinou depois.
A transferência ainda dependeria dos atos formais previstos no acordo e no contrato social. O pagamento não aconteceria inteiro naquele dia. Mas a decisão estava tomada.
Saí da reunião sem sentir vitória.
Senti luto.
Aquela empresa tinha atravessado grande parte do nosso casamento. Eu me lembrava de Caio trabalhando à mesa da cozinha, de planilhas abertas de madrugada, de contas que pagávamos contando moeda, de reuniões em que eu esperava do lado de fora com Luna ainda bebê no colo.
Não era fácil sair de algo que também tinha sido parte de mim.
Mas permanecer apenas porque sair doía seria outra forma de prisão.
No mesmo dia, conversei com Caio sobre Luna.
— Quero que a rotina dela mude o mínimo possível.
— Eu também.
— Escola continua igual. Atividades continuam iguais. Você pode buscar nos dias que combinarmos, e a gente ajusta conforme sua agenda.
— Não quero ser pai de fim de semana.
— Então não seja.
Ele me olhou, surpreso.
— Você não vai dificultar?
— Por que eu faria isso?
— Porque está com raiva de mim.
— Eu estou magoada com você. Não com ela.
Foi ali que tivemos talvez o primeiro acordo verdadeiramente adulto desde o início da crise.
Não éramos um casal funcionando.
Ainda podíamos tentar ser bons pais.
Na semana seguinte, Caio procurou um apartamento próprio.
Não ficou mais no imóvel da empresa.
Quando contou para Luna, fizemos isso juntos.
Ela chorou.
Não houve maneira bonita de evitar.
— Vocês vão se divorciar? — perguntou.
Caio me olhou.
Respondi:
— Provavelmente, sim.
— Porque papai fez você chorar?
A pergunta me surpreendeu.
Eu não tinha chorado na frente dela.
Talvez criança percebesse coisas que adultos acreditavam esconder.
— Nós tivemos problemas que não conseguimos resolver como casal — expliquei. — Mas isso não muda o quanto nós dois amamos você.
Luna olhou para o pai.
— Você vai voltar?
Caio levou alguns segundos.
— Eu vou estar sempre na sua vida. Mas não sei se vou voltar a morar aqui.
Ela chorou mais um pouco.
Ele também.
Eu quase chorei.
Mas não prometemos o que não sabíamos cumprir.
Naquela noite, depois que Luna dormiu, Caio ficou na sala.
— Você podia ter dito que não sabia ainda — falou.
— E deixar ela esperando?
— Talvez fosse menos doloroso.
— Agora, talvez. Depois, seria pior.
Ele assentiu.
Havia outra diferença entre nós ficando mais clara.
Caio sempre preferia evitar o desconforto imediato.
Eu não queria mais pagar o preço futuro dessa escolha.
Dois dias depois, recebi a primeira minuta dos termos da separação. Havia pontos simples e outros delicados. Nada estava finalizado.
Caio recebeu a mesma versão.
À noite, ligou.
— Eu concordo com a parte da Luna.
— Certo.
— Também concordo com a divisão das despesas.
— Ótimo.
— Tem uma coisa que eu queria pedir.
Esperei.
— Não quero que você saia de casa.
— Eu não pretendo sair.
— Eu sei que o imóvel…
Ele parou.
A casa era nossa, e qualquer definição patrimonial seria tratada separadamente, sem improvisos.
— Eu só queria que a Luna continuasse no lugar em que ela está acostumada — explicou.
— Nisso nós concordamos.
Foi uma conversa estranhamente tranquila.
Quando desliguei, fiquei sentada no sofá.
Caio ainda me conhecia.
Eu ainda conhecia seus silêncios, suas manias, o jeito como respirava antes de falar algo difícil.
Separar-se não apagava essa intimidade de um dia para o outro.
Mas intimidade também não era prova de que um casamento deveria continuar.
Na sexta-feira, Caio me enviou uma mensagem diferente.
“Falei com a equipe sobre a festa.”
Perguntei apenas:
“Como?”
Ele respondeu:
“Assumi que permiti uma situação inadequada e pedi que ninguém envolvesse a secretária em boatos. Também deixei claro que você é sócia e minha esposa enquanto o casamento não estiver formalmente encerrado.”
Li duas vezes.
Não senti satisfação.
Senti que ele finalmente tinha feito o que deveria ter feito na primeira noite.
Tarde.
Mas corretamente.
Respondi:
“Era o mínimo.”
Caio digitou por alguns segundos.
Depois parou.
Não chegou outra mensagem.
Na segunda-feira seguinte, a primeira etapa da transferência societária seria formalizada.
E, pela primeira vez desde a confraternização, a pergunta não era mais se Caio conseguiria consertar o que havia feito.
Era se eu ainda queria construir alguma coisa com ele depois que tudo estivesse consertado.
Eu já começava a saber a resposta.
A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇














