
Parte 2
Atendi no segundo toque. Caio nem esperou que eu dissesse alô. — Para com isso, por favor. Eu sei que você está com raiva. A voz dele estava rouca, apressada. Ao fundo, ouvi uma porta bater e depois o som de passos. — Sua participação na empresa ainda está no seu nome.
— Não mais, Caio. — Houve um silêncio do outro lado. Eu corrigi antes que ele transformasse aquilo em outra coisa: — Ou melhor, não vai ficar por muito tempo. Quero organizar minha saída da sociedade.
— Você enlouqueceu? — A pergunta escapou antes que ele pudesse controlar o tom. Em seguida, baixou a voz. — Desculpa. Não quis dizer isso. Mas você não pode decidir uma coisa dessas por causa de meia dúzia de comentários.
— Vinte e sete curtidas. Quatro publicações. Nove fotos em uma delas. Sua mão na cintura da sua secretária. E ninguém achou estranho chamá-la de sua mulher.
— Ela estava organizando o evento. Subiu ao palco porque eu agradeci à equipe que trabalhou na confraternização. Aquela foto pegou um ângulo ruim. — Ele falava rápido demais. — E eu nem vi esses comentários na hora.
— Você viu sua secretária sendo tratada como patroa?
Caio demorou a responder. — Vi alguns comentários depois. Mas era festa, o pessoal estava bebendo, fazendo piada. Eu não queria criar um climão na frente de todo mundo.
Foi a primeira resposta realmente útil que ele me deu. Não porque o ajudasse, mas porque eliminava uma dúvida. Ele tinha percebido. E tinha escolhido não corrigir.
— De quem é o colar?
— Que colar?
— Caio.
Ele soltou o ar. — Não começa.
— Eu fiz uma pergunta.
— Eu dei para ela usar ontem.
A rua diante da escola estava cheia de carros entrando e saindo, mas de repente tudo pareceu distante. — Você comprou?
— Comprei. Mas não foi do jeito que você está pensando. Era para compor a apresentação. Ela estava representando a diretoria no evento, ficou em recepção, acompanhou convidados…
— No mês passado, no meu aniversário, você me mandou R$ 800 porque a empresa estava sem caixa.
— O dinheiro do colar não saiu da empresa.
— Isso melhora?
Ele não respondeu. Pela primeira vez desde que atendi, a voz do outro lado perdeu a pressa e ficou pesada. — Onde você está?
— No carro.
— Eu estou indo para casa.
— Eu não estou em casa.
— Então me fala onde você está.
— Não.
Ele respirou fundo. — Nós precisamos conversar olhando um para o outro.
— Precisamos. Mas não sobre ciúme.
— Então sobre o quê?
— Sobre você ter deixado seus funcionários tratarem outra mulher como sua esposa enquanto eu continuava sendo útil o bastante para manter participação na sua empresa.
— Não mistura as coisas.
— Foi você quem misturou quando a primeira coisa que falou foi sobre minhas ações, não sobre mim.
Dessa vez ele ficou sem resposta. O silêncio me atingiu de um jeito estranho. Na noite anterior, eu imaginava que ouvir uma explicação pudesse me deixar furiosa. Em vez disso, senti alguma coisa se encaixar.
— Eu volto antes do almoço — ele disse. — Não faz nada antes de eu chegar.
— Não cabe mais a você me dizer o que eu posso fazer.
— Eu estou pedindo.
— Então eu também vou pedir uma coisa. Me manda hoje a última alteração societária, os documentos da minha participação e os contatos do contador que cuida da empresa.
— Para quê?
— Para eu entender exatamente o que é meu e qual é a forma correta de sair.
A respiração dele ficou audível. — Você está falando sério.
— Estou.
— Por causa de uma festa?
— Não. Por causa de uma escolha. Ontem você teve várias oportunidades de mostrar às pessoas qual era o lugar daquela mulher na sua vida e qual era o meu. Você preferiu não fazer isso.
— Não aconteceu nada entre nós.
— Eu não disse que aconteceu.
— Mas é isso que você está insinuando.
— Não. Eu estou dizendo que você me desrespeitou. Não preciso descobrir uma traição para reconhecer um desrespeito.
Caio tentou interromper, mas eu continuei. — E não quero que você procure a Luna na escola hoje sem falar comigo antes. Ela não tem nada a ver com isso.
A frase o desmontou mais do que qualquer acusação. — Você está querendo se separar?
Olhei pelo para-brisa. Algumas crianças atrasadas corriam para o portão de mãos dadas com os pais. — Eu ainda estou decidindo o que fazer com o casamento. Com a empresa, eu já decidi. Quero separar o que é meu do que é seu.
— Espera eu chegar.
— Você pode voltar. Mas antes me manda os documentos.
Desliguei.
Cinco minutos depois, chegou um arquivo do contador. Depois outro. E outro. Caio não escreveu nenhuma explicação.
Abri o primeiro documento ainda dentro do carro. Meu nome aparecia onde sempre aparecera: entre os sócios da empresa que eu ajudara a sustentar nos anos em que tudo ainda cabia numa sala pequena e as contas venciam antes dos clientes pagarem.
Fechei o arquivo. Não senti orgulho nem raiva. Senti clareza.
Voltei para casa, coloquei água para ferver e comecei a separar numa pasta os documentos que precisaria analisar. Às dez e vinte, ouvi a chave girando na porta.
Caio entrou sem paletó. A camisa estava amarrotada, e os olhos vermelhos denunciavam que ele não dormira.
Ele me olhou como se esperasse encontrar a mulher que discutia, cobrava, chorava e depois aceitava alguma promessa de mudança.
Não encontrou.
Colocou o celular sobre a mesa. — Eu mandei tudo.
— Eu vi.
— O colar está comigo.
Ergui os olhos.
— Ela devolveu de madrugada — disse ele. — Quando percebeu o tamanho da confusão.
— E?
— Eu quero que você veja que não significou nada.
— Para você, talvez.
— Eu posso devolver à loja.
— O problema não é o colar.
Ele passou a mão pelo rosto. — Então me fala o que você quer que eu faça.
Fechei a pasta.
— Hoje, depois do almoço, eu vou à empresa. Quero falar com o contador e entender minha situação societária sem você respondendo por mim.
— Você não precisa ir lá.
— Eu sei.
Levantei.
— Eu vou porque quero.
Foi quando Caio finalmente entendeu que o pior daquela noite não tinha sido eu desligar o celular.
Era eu ter parado de esperar que ele resolvesse alguma coisa por mim.
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