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LEITURA EM PARTESParte 6 de 10

Parte 6

O homem que veio consertar a infiltração levou menos de uma manhã para avaliar o problema. O vazamento antigo já estava resolvido no apartamento de cima; o que restava era reparar o reboco, tratar a área e pintar.

Um ano de promessa.

Algumas horas de trabalho.

Enquanto ele cobria os móveis, pensei em como certos atrasos pareciam enormes quando a gente se acostumava a esperar pela pessoa errada.

Caio chegou no fim da tarde para buscar Luna e parou no corredor ao ver a escada.

— Você chamou alguém?

— Chamei.

— Eu ia resolver.

— Eu sei.

Ele entendeu antes que eu precisasse completar.

“Eu ia” tinha sido uma frase frequente demais no nosso casamento.

Naquela semana, a segunda proposta de compra das minhas ações avançou. O valor estava dentro da faixa razoável da avaliação, e o pagamento seria feito em parcelas que não esmagariam o caixa da empresa.

Pedi apenas que as condições ficassem claras e que qualquer atraso tivesse consequência prevista em contrato.

Caio não contestou.

Em outra época, eu talvez interpretasse isso como frieza.

Na verdade, era maturidade.

Uma empresa não podia depender da esperança de que um ex-casal “se entenderia depois”.

Foi numa dessas reuniões que Caio me pediu dez minutos a sós.

O contador saiu.

Ficamos frente a frente na sala.

— Eu quero te contar uma coisa sem usar isso como desculpa.

Esperei.

— Não tive um caso com ela.

— Você já disse isso.

— Eu sei. Mas nunca expliquei por que fiz aquelas coisas.

Cruzei as mãos sobre a mesa.

— Então explica.

Caio respirou devagar.

— Nos últimos dois anos, a empresa cresceu muito. Eu comecei a participar de jantar, evento, reunião com gente que mede tudo. Roupa, carro, restaurante, quem está do seu lado. Eu fui entrando nisso.

Não interrompi.

— Você nunca gostou dessas festas. Quando ia, saía cedo por causa da Luna ou porque achava tudo falso.

— E você começou a achar importante.

— Sim.

Era uma admissão simples.

— A secretária estava sempre comigo porque organizava agenda, falava com clientes, sabia quem era quem. Em algum momento, eu parei de perceber como aquilo parecia.

— Até seus funcionários chamarem ela de sua esposa.

Ele baixou os olhos.

— Aí eu percebi.

— E deixou.

— Deixei.

Nenhum “mas” veio depois.

Caio apertou os dedos.

— Eu gostei da imagem.

A frase me atingiu mais do que qualquer defesa anterior.

— Que imagem?

— A de que eu tinha tudo sob controle. Empresa crescendo. Gente me respeitando. Uma mulher bem vestida do meu lado recebendo convidado. Parecia… bonito.

— E sua esposa de verdade?

Ele demorou a responder.

— Eu achei que você estaria em casa de qualquer jeito.

Aquilo doeu.

Mas não me destruiu.

Talvez porque, finalmente, ele tivesse parado de correr em volta da verdade.

— Então você não me traiu com ela — falei. — Você me apagou porque era mais conveniente.

Os olhos dele se encheram, mas Caio não chorou.

— Eu acho que sim.

Foi uma das conversas mais difíceis que tivemos desde a festa.

E, paradoxalmente, a menos barulhenta.

Não havia mais disputa sobre fotografias.

Não havia investigação.

Não havia tentativa de transformar tudo em mal-entendido.

Havia uma escolha reconhecida pelo próprio homem que a fizera.

— Eu sinto muito — ele disse.

— Eu acredito.

Ele ergueu os olhos, talvez esperando algo além.

— Mas acreditar que você se arrepende não me obriga a continuar casada.

A esperança no rosto dele se apagou.

Não senti prazer nisso.

Também não voltei atrás.

Naquela noite, conversei com uma advogada de família. Não pedi que “acabasse com ele”. Queria entender guarda, convivência com Luna, despesas da criança e quais passos seriam necessários se eu decidisse formalizar a separação.

Como tínhamos uma filha menor, tudo teria de ser tratado com cuidado e dentro do procedimento adequado.

Saí da conversa com uma lista curta.

Não era uma sentença.

Era informação.

No fim de semana, Caio levou Luna ao parque.

Quando voltaram, ela correu para mostrar um desenho.

Havia três pessoas de mãos dadas.

Ela, eu e o pai.

— Somos nós — disse.

Caio olhou para mim por cima da cabeça dela.

A culpa apareceu no rosto dele.

Ajoelhei ao lado da nossa filha.

— Ficou lindo.

Não precisava ensinar a Luna que uma família só existia se todos dormissem na mesma casa.

Mais tarde, depois que ela foi tomar banho, Caio falou:

— Isso está acabando com ela.

— Não diga isso.

— Você viu o desenho.

— Vi uma criança desenhando os pais.

— Ela quer a gente junto.

— Criança também quer não ir à escola, comer doce antes do jantar e nunca dormir cedo. Nós não podemos colocar nas costas dela a decisão sobre nosso casamento.

Caio fechou a boca.

— E não use a Luna para me convencer.

— Eu não estava…

— Estava quase fazendo isso.

Ele assentiu devagar.

— Você tem razão.

A capacidade dele de reconhecer os próprios erros estava melhorando.

Só que isso não apagava os erros anteriores.

E eu comecei a entender uma coisa que durante anos confundira: uma pessoa pode mudar e, mesmo assim, chegar tarde demais para salvar determinada relação.

Dias depois, a avaliação final ficou pronta.

Com o número definido, a negociação deixou de ser abstrata.

Caio teria de reorganizar distribuições futuras, adiar alguns planos de expansão e assumir um compromisso financeiro pessoal para comprar minha participação sem desestabilizar a empresa.

Foi consequência.

Não punição.

Ele assinou a proposta revisada.

Eu ainda não assinei.

Levei para revisão.

Na mesma tarde, mandei uma mensagem:

“Depois que resolvermos a sociedade, quero iniciar formalmente nossa separação.”

Caio visualizou às 16h12.

Às 16h18, respondeu:

“Eu entendi.”

Fiquei olhando aquelas duas palavras.

Nada de cinquenta ligações.

Nada de promessas.

Nada de “não faça isso”.

Apenas:

“Eu entendi.”

Foi a primeira vez que percebi que ele começava a aceitar uma coisa que eu já vinha aceitando havia dias:

alguns arrependimentos servem para transformar quem fica.

Não necessariamente para trazer de volta quem foi embora.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

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