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LEITURA EM PARTESParte 3 de 10

Parte 3

Cheguei à empresa pouco depois das duas da tarde. Durante anos, eu havia entrado ali sem precisar anunciar meu nome, mas naquela tarde a recepcionista se levantou depressa assim que me viu. O movimento chamou a atenção de duas pessoas no corredor. Uma delas desviou os olhos no mesmo instante.

Não precisei perguntar por quê.

As fotos ainda estavam circulando.

Caio estacionou poucos minutos depois, apesar de eu ter dito que queria conversar com o contador sem ele. Quando atravessou a recepção, veio direto na minha direção.

— Eu só vim porque isso também envolve a empresa.

— Então se comporte como presidente da empresa, não como meu marido.

Ele parou a dois passos de mim.

Foi uma frase dura, mas necessária. Naquele prédio, nossos papéis sempre tinham se misturado demais. Eu era esposa quando ele queria compreensão e sócia quando precisava de assinatura, paciência ou capital.

O contador nos recebeu numa pequena sala de reunião. Colocou diante de mim os documentos societários, explicou a composição da empresa e confirmou o que eu já sabia: minha participação não desapareceria porque eu decidisse ir embora. Qualquer transferência teria de obedecer ao contrato social e ser formalizada corretamente.

— Eu não quero prejudicar a operação — deixei claro. — Quero saber as opções para deixar de ser sócia sem abrir mão do valor que me pertence.

Caio se mexeu na cadeira.

— Nós podemos conversar sobre isso em casa.

— Estamos falando da empresa.

O contador percebeu a tensão e manteve a voz neutra. Explicou que seria necessário avaliar a participação, verificar as regras de preferência e definir se a compra seria feita por Caio, pelos demais sócios ou por outra estrutura permitida pelo contrato.

Não havia botão mágico.

Não existia uma assinatura que apagasse anos de participação em uma tarde.

Curiosamente, aquilo me tranquilizou.

Pela primeira vez desde que vira as fotos, eu não estava reagindo ao que Caio tinha feito. Estava tomando uma decisão que dependia de mim e de um processo concreto.

Quando a reunião terminou, pedi também uma relação das funções formais que eu ainda ocupava. Eu não trabalhava na rotina diária da empresa havia bastante tempo, mas continuava vinculada a decisões específicas por causa da minha participação.

— Você está querendo cortar tudo de uma vez — Caio disse no corredor.

— Estou tentando descobrir o que ainda está preso.

— Nós construímos isso juntos.

— Eu sei.

— Então por que você está falando como se a empresa fosse um problema?

Parei.

— A empresa não é o problema. O problema é você achar que o que construímos juntos pode ser usado para me manter perto quando o casamento começa a desmoronar.

Ele empalideceu.

Antes que respondesse, a porta do elevador abriu.

A secretária saiu.

Ela usava uma calça escura, camisa branca e nenhum acessório além de um relógio. Parecia muito diferente da mulher de vestido vermelho das fotos.

Quando me viu, parou.

— Posso falar com você?

Caio se colocou imediatamente entre nós.

— Agora não.

— Eu perguntei a ela.

A secretária olhou para mim, não para ele.

— Só alguns minutos.

Assenti.

Entramos numa sala vazia. Caio ficou do lado de fora, visivelmente contrariado.

Ela fechou a porta, mas não sentou.

— Eu não sabia que as pessoas iam começar a me chamar daquele jeito.

— De patroa?

Ela assentiu.

— No começo achei que fosse piada. Depois vi que tinha gente levando a sério.

— E você corrigiu?

Seus dedos apertaram a borda do celular.

— Não.

— Por quê?

Ela demorou.

— Porque o Caio falou que eu não precisava estragar a festa por causa de comentário de funcionário.

A resposta coincidia com o que ele havia admitido.

Não era uma revelação explosiva.

Era pior justamente por ser simples.

Ele sabia.

Ela sabia.

E os dois escolheram deixar seguir.

— O colar foi presente dele? — perguntei.

Ela respirou fundo.

— Foi.

— Para a festa?

— Ele disse que ficaria melhor com o vestido. Eu não pedi.

— Você sabia que no mês anterior ele tinha dito que não podia gastar comigo porque precisava economizar?

O rosto dela mudou.

— Não.

Acreditei naquela reação. Talvez porque não houvesse nada de teatral nela, apenas desconforto.

— Eu devolvi o colar hoje de madrugada.

— Ele me contou.

— Eu não tive nada com o Caio.

Não respondi imediatamente.

Ela continuou:

— Eu sei como as fotos parecem. Sei também que falar isso agora pode soar conveniente. Mas não houve caso entre nós.

— Eu não vim aqui investigar se você dormiu ou não com meu marido.

Ela ergueu os olhos, surpresa.

— Vim entender o que aconteceu na empresa da qual ainda sou sócia.

— Entendi.

— E aconteceu uma coisa simples: funcionários confundiram você com a esposa do presidente. Nem você nem ele corrigiram.

Ela abaixou a cabeça.

— Sim.

Era a primeira vez que alguém dizia aquela palavra sem tentar diminuí-la.

Sim.

Saí da sala com menos perguntas do que quando entrei.

Caio estava me esperando.

— O que ela falou?

— O que você já tinha falado.

— E você acredita nela?

— Isso não é um interrogatório.

— Você precisa saber se aconteceu alguma coisa.

— Eu preciso saber o suficiente para decidir o que eu aceito na minha vida.

Ele passou a língua pelos lábios, irritado.

— Você está transformando um erro numa sentença.

— Não. Estou tentando descobrir quantos erros eu chamei de pequenos só porque era mais fácil continuar.

A expressão dele endureceu.

— Isso agora é sobre tudo?

Olhei para ele.

A pergunta ficou entre nós.

No teto de casa havia uma mancha de infiltração que ele prometia resolver havia um ano. No meu aniversário, R$ 800 e uma explicação sobre caixa. Na festa, um colar para outra mulher e silêncio enquanto a chamavam de esposa.

Nenhuma dessas coisas sozinha definia um casamento.

Juntas, começavam a desenhar um padrão que eu não queria mais ignorar.

Voltei para a sala do contador e pedi uma indicação de profissional independente para avaliar minha participação. Não queria que Caio definisse sozinho quanto valia o que era meu.

Ele ouviu da porta.

— Você acha que eu tentaria te passar para trás?

— Eu acho que, a partir de agora, nenhum de nós deve depender de confiança onde existe conflito de interesse.

O contador baixou os olhos para os papéis.

Caio não respondeu.

Naquela noite, ele voltou para casa comigo, mas dormiu no sofá por decisão minha.

Não discutimos diante de Luna.

Depois que ela adormeceu, ele apareceu na porta do quarto.

— Quanto tempo você pretende fazer isso?

— Isso o quê?

— Me tratar como estranho.

Eu estava dobrando uma camiseta da nossa filha.

— Ontem seus funcionários trataram outra pessoa como sua esposa. Você achou melhor não corrigir para não criar um climão. Hoje você está incomodado porque eu criei distância dentro de casa.

— Eu já disse que errei.

— Dizer que errou não desfaz o que aconteceu.

— Então o que desfaz?

Parei de dobrar a roupa.

— Talvez nada.

A resposta assustou até a mim.

Caio ficou parado na porta, e pela primeira vez não tentou rebater.

Na manhã seguinte, recebi o contato da empresa de avaliação indicada pelo contador. Marquei uma reunião para aquela mesma semana.

Depois mandei uma mensagem curta para Caio:

“Quero separar sociedade de casamento. E, até eu decidir o que fazer com o casamento, preciso que você respeite meu espaço.”

Ele leu.

Não respondeu.

Duas horas depois, porém, apareceu outra coisa.

As quatro publicações da festa tinham sido apagadas.

Olhei para a tela por alguns segundos.

No passado, eu talvez enxergasse aquilo como um gesto de reparação.

Dessa vez, enxerguei apenas o que realmente era:

apagar uma foto não apagava a escolha que tinha permitido que ela existisse daquele jeito.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

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