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LEITURA EM PARTESParte 4 de 10

Parte 4

Na sexta-feira, sentei diante de dois profissionais da empresa responsável pela avaliação e respondi perguntas sobre a história do negócio, aportes, distribuição de resultados e alterações societárias. Caio não estava presente. Eu havia pedido expressamente que aquela primeira conversa fosse feita sem ele, para que eu pudesse compreender o processo antes de negociar qualquer coisa.

Descobri algo importante naquele encontro: sair não significava destruir.

Eu podia vender minha participação respeitando as regras da sociedade. Podia negociar condições. Podia receber de forma parcelada se fosse necessário preservar o caixa da empresa. Podia, acima de tudo, parar de pensar que minhas únicas opções eram continuar como estava ou causar um desastre.

Essa percepção mudou meu humor.

Quando voltei para casa, Caio estava na cozinha preparando café. Havia tentado consertar a torneira que pingava há meses e deixado ferramentas espalhadas sobre a bancada.

— Falei com o pessoal da avaliação — eu disse.

Ele congelou por um instante.

— E?

— Eles vão analisar os números e apresentar uma faixa de valor.

Caio desligou a cafeteira.

— Você não precisa vender.

— Eu quero.

— Você sempre disse que aquela participação era para o futuro da Luna.

— O futuro dela não depende de eu continuar presa a uma empresa da qual não quero mais participar.

— Presa?

— Sim.

Ele encostou as mãos na bancada.

— Eu nunca te obriguei a nada.

— Não com uma ordem. Mas ontem, quando achou que eu estava indo embora, a primeira coisa que você usou foi a empresa. “Sua participação ainda está no seu nome.” Você falou como se isso fosse uma corda amarrando a gente.

Ele desviou os olhos.

A frase tinha atingido o ponto exato.

— Eu estava desesperado.

— Eu sei.

— Eu pensei que, se você lembrasse que nós ainda tínhamos aquilo juntos…

— Exatamente.

Não havia muito mais a dizer.

Naquela tarde, Caio pegou algumas roupas e foi ficar por alguns dias em um apartamento que a empresa mantinha perto do escritório para executivos de fora. Não o expulsei dramaticamente. Não coloquei malas na porta. Apenas disse que precisava de espaço, e ele, depois de resistir, concordou.

Luna percebeu sua ausência na primeira noite.

— Papai vai viajar de novo?

Sentei ao lado dela na cama.

— Ele vai ficar alguns dias em outro lugar.

— Vocês brigaram?

Era a pergunta que eu mais temia.

— Nós estamos resolvendo algumas coisas de adulto.

— Ele fez alguma coisa ruim?

Pensei antes de responder.

— Ele fez uma coisa que me machucou. E nós precisamos entender o que fazer agora.

Luna ficou mexendo na ponta do cobertor.

— Ele continua sendo meu pai?

Meu peito apertou.

— Sempre.

Ela assentiu e se deitou.

Naquele momento, uma segunda decisão ficou clara para mim: qualquer coisa que acontecesse entre mim e Caio não seria transformada numa disputa pelo amor da nossa filha.

No dia seguinte, encontrei Caio numa cafeteria perto da escola. Ele tinha pedido a conversa depois de saber que eu não pretendia impedir que ele visse Luna.

— Obrigado — disse.

— Não me agradeça por uma coisa que é direito dela.

Ele baixou os olhos.

— Eu contei para a diretoria que você está avaliando sua saída.

— E como reagiram?

— Mal.

Não havia acusação na resposta. Apenas cansaço.

Caio explicou que minha participação sempre fora vista como um sinal de estabilidade entre os sócios. Minha saída não faria a empresa acabar, mas criaria perguntas, exigiria negociação e provavelmente obrigaria a reorganizar alguns planos.

— Eu não quero usar isso para te pressionar — ele acrescentou depressa. — Só estou te contando porque você perguntou.

Assenti.

Aquilo, pelo menos, era uma mudança.

— Eu também não quero usar minhas ações para te punir — respondi. — Quero receber o que é justo e sair de forma organizada.

— E se eu comprar?

— Pode ser uma opção, desde que o valor seja independente e as condições sejam viáveis.

Ele me encarou.

— Você fala como se estivesse fazendo uma transação com um estranho.

— É justamente para não transformar uma questão empresarial em mais uma discussão de casal.

Caio apertou a xícara entre as mãos.

— Eu cancelei o jantar da diretoria da semana que vem.

— Por quê?

— Porque não tenho cabeça.

— Não faça isso.

Ele franziu a testa.

— Não use nossa crise para abandonar suas responsabilidades. Sua equipe não tem culpa.

Ele me olhou com uma expressão que eu não soube interpretar.

Talvez esperasse vingança.

Eu não queria vingança.

Queria limite.

Mais tarde, minha prima ligou perguntando se eu tinha descoberto “a verdade” sobre a secretária.

— Que verdade?

— Se eles estão juntos.

— Não sei.

— E você está tranquila assim?

— Eu sei que ele comprou o colar. Sei que deixou funcionários chamarem ela de esposa. Sei que não corrigiu. Isso já aconteceu de verdade.

Minha prima ficou quieta.

— E se não tiver traição?

— Então eu vou decidir com base no que existiu, não no que eu preciso inventar para justificar minha dor.

Dizer aquilo em voz alta teve um efeito inesperado.

Eu não precisava transformar Caio num monstro para reconhecer que ele tinha ultrapassado uma linha.

Também não precisava provar uma história pior para ter o direito de sair.

Dois dias depois, a empresa de avaliação enviou uma lista adicional de documentos. Encaminhei ao contador e copiei Caio no e-mail.

Ele respondeu em menos de dez minutos:

“Pode liberar tudo o que for necessário.”

Nenhuma tentativa de atrasar.

Nenhuma ameaça.

Nenhuma frase sobre nosso casamento.

Foi a primeira atitude dele, desde a festa, que não parecia motivada por pânico.

Naquela noite, quando veio buscar Luna para jantar, ficou na porta.

— Posso entrar?

— Pode.

Ele passou pela sala e levantou os olhos para o teto.

A mancha da infiltração ainda estava ali.

— Eu devia ter resolvido isso há meses.

— Devia.

— Tem muita coisa que eu devia ter resolvido.

Não respondi.

Ele respirou fundo.

— Não vou pedir para você esquecer a festa.

— Ainda bem.

— Mas eu queria entender se existe alguma coisa que eu possa fazer.

— Existe.

Os olhos dele se ergueram rapidamente.

— O quê?

— Para de tentar descobrir qual gesto me faria voltar ao normal. Começa a pensar no motivo de você ter achado aceitável deixar aquilo acontecer.

Ele ficou parado.

Luna surgiu no corredor segurando a mochila.

— Pai, vamos?

Caio se abaixou para recebê-la.

Quando os dois saíram, fechei a porta e fiquei alguns segundos encostada nela.

Não senti alívio porque ele parecia arrependido.

Arrependimento era começo.

Não era reparação.

E, pela primeira vez, eu não estava disposta a confundir os dois.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

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