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LEITURA EM PARTESParte 1 de 10

Minha mãe ficou dez dias em casa e meu marido fez cara feia; quando a mãe dele anunciou um mês, eu abri a mala
PARTE 1

Minha mãe ficou dez dias na nossa casa.

Durante aqueles dez dias, Gustavo Monteiro, meu marido formado numa das universidades mais prestigiadas do país, praticamente não conseguiu esconder o incômodo por ter minha mãe por perto.

Até os pãezinhos que ela preparou antes de ir embora, com medo de que ficássemos sem ter o que comer nos dias mais corridos, ele criticou e jogou no lixo assim que ela saiu.

Mas, perto do fim do ano, Gustavo chegou em casa com uma animação que eu não via havia semanas.

— Minha mãe vem passar um mês aqui com a gente!

Não respondi.

Fui direto para o quarto, peguei minha mala prateada e comecei a colocar minhas roupas dentro dela, bem na frente dele.

Gustavo me olhou sem entender.

— Natália, o que você está fazendo?

Ergui os olhos e respondi, sem alterar a voz:

— Estou aprendendo com você.

A luz fria do lustre da sala refletia na superfície metálica da mala e deixava o ambiente ainda mais desconfortável.

Gustavo segurou meu pulso com força.

— Natália, que loucura é essa agora?

O tom era o mesmo que ele costumava usar quando considerava qualquer reclamação minha um exagero. Como se eu fosse uma criança fazendo birra e ele fosse a única pessoa razoável naquela casa.

Não puxei o braço.

Apenas ergui o rosto e encarei seus olhos.

Talvez tenha sido a tranquilidade do meu olhar que o fez soltar minha mão.

— Loucura?

Repeti a palavra devagar.

— Gustavo, eu só estou imitando você.

Ele recuou um pouco.

— Do que você está falando?

Abri a mala novamente e continuei separando algumas roupas.

— Há duas semanas, minha mãe ficou dez dias aqui.

Ele abriu a boca, mas eu não lhe dei tempo para interromper.

— No primeiro dia, ela preparou aquele peixe ao molho que sabe fazer tão bem. Você experimentou um pedaço, disse que estava com cheiro forte e não tocou mais na comida.

Continuei.

— No segundo dia, ela acordou às seis da manhã para fazer mingau e café para nós. Você reclamou que o barulho na cozinha tinha atrapalhado seu sono.

Gustavo ficou em silêncio.

— No terceiro dia, você chegou do trabalho, viu minha mãe assistindo televisão na sala e foi direto para o escritório. Fechou a porta com tanta força que ela desligou a televisão porque achou que estava incomodando.

A expressão dele começou a mudar.

— Natália, eu estava cansado naquele dia…

— No quinto dia, minha mãe lavou uma camisa sua. Você pegou a camisa, cheirou e perguntou se ela tinha economizado no amaciante porque não estava com o perfume de que você gostava.

Ele desviou o olhar.

Eu continuei.

— No nono dia, ela foi ao supermercado e escolheu as cerejas mais bonitas que encontrou. Você olhou e disse que não pareciam frescas, como se ela tivesse comprado qualquer coisa numa barraca da rua.

Respirei fundo antes de chegar ao que mais tinha me machucado.

— No décimo dia, antes de ir embora, minha mãe passou a tarde preparando duas travessas de pãezinhos para deixar congelados. Ela fez aquilo porque sabia que nós dois trabalhamos muito e queria facilitar nossa vida.

Olhei diretamente para ele.

— Assim que ela saiu, você colocou tudo no lixo.

O rosto de Gustavo, que antes estava vermelho de irritação, perdeu a cor.

— Natália… você ficou guardando essas coisinhas?

Ele parecia indignado.

— Você guarda rancor demais.

Assenti.

— Guardo.

Minha voz continuou calma.

— Porque a pessoa que você ignorou, desprezou e tratou como se o carinho dela não tivesse valor era a minha mãe.

Coloquei um frasco de perfume sobre a cômoda.

O pequeno estalo do vidro contra a madeira pareceu alto naquele silêncio.

— Se uma esposa precisa fingir que não se importa quando a própria mãe é maltratada dentro da casa dela para ser considerada compreensiva, então isso não é compreensão. É perder o respeito por si mesma.

Apontei para a mala.

— Agora sua mãe vai ficar um mês aqui. Então imaginei que seria melhor eu sair antes. Assim não corro o risco de incomodar sua mãe e ser tratada como você tratou a minha.

Ele me encarou.

— Não é a mesma coisa!

— Não?

— Minha mãe passou por muita coisa para me criar!

Ergui uma sobrancelha.

— E a minha mãe me criou como? Sem esforço nenhum? Ela caiu pronta do céu?

Dei um passo na direção dele.

— A sua mãe é mãe e merece respeito. Concordo. Mas a minha também é.

Gustavo apertou a mandíbula.

— Minha mãe não veio aqui para servir ninguém.

— Exatamente.

Aproximei-me mais.

— E a minha também não veio.

Ele apontou para mim.

— Você está sendo impossível!

Peguei o celular e abri minhas anotações.

— Então leia.

Mostrei a tela.

Durante aqueles dez dias, sempre que alguma coisa acontecia, eu tinha registrado brevemente o que Gustavo fazia e dizia.

Não para usar contra ele.

Mas porque, no começo, eu mesma tentava me convencer de que talvez estivesse exagerando.

Gustavo percorreu as linhas com os olhos.

Seu rosto alternou entre constrangimento e irritação.

No fim, empurrou minha mão.

— Se você tiver coragem de sair por essa porta hoje, acabou entre nós!

Fiquei olhando para ele por alguns segundos.

Depois sorri sem humor.

— E quem disse que eu vou embora?

Inclinei-me, recolhi as roupas que havia tirado do armário e comecei a guardá-las novamente.

Gustavo me observou, primeiro confuso e depois claramente aliviado.

Fechei a porta do armário.

Então me virei para ele.

— Esta casa também é minha, Gustavo. Não é uma extensão da casa da sua família.

Minha voz saiu tranquila.

— Sou dona desta casa tanto quanto você. Portanto, é claro que eu não vou sair.

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