
PARTE 4
O primeiro fim de semana de Dona Helena conosco foi tranquilo até o café da manhã de domingo.
Gustavo preparava café enquanto eu cortava algumas frutas.
Helena observava da mesa.
De repente, perguntou:
— Sua mãe sempre fica tantos dias quando vem?
Eu parei por um segundo.
— Dez dias da última vez.
— Achei bastante.
Gustavo, que estava colocando café na xícara, ficou imóvel.
Eu continuei cortando a maçã.
— A senhora vai ficar trinta.
Helena percebeu imediatamente a comparação.
— Mas é diferente.
Soltei a faca sobre a tábua com cuidado.
— Por quê?
Ela abriu a boca, mas demorou a responder.
— Eu sou mãe do Gustavo.
— E ela é minha mãe.
O silêncio caiu sobre a cozinha.
Gustavo baixou os olhos.
Dona Helena tentou mudar o rumo.
— Eu só quis dizer que vocês trabalham muito. Ter visita por muitos dias atrapalha a rotina.
— Concordo.
Olhei para Gustavo.
— Foi exatamente o que tentei explicar quando minha mãe veio.
Ele entendeu.
A mãe dele não.
— Gustavo sempre foi muito reservado — disse ela. — Desde pequeno gosta das coisas do jeito dele.
— Eu sei.
— Então sua mãe talvez devesse ter percebido.
Dessa vez, Gustavo ergueu o rosto.
— Mãe.
Ela olhou para ele.
— O quê?
Ele demorou alguns segundos.
— A mãe da Natália não fez nada de errado.
Helena franziu a testa.
— Eu não disse que fez.
— Mas parece que está dizendo que ela deveria ter se adaptado completamente a mim só porque estava aqui.
A voz dele não estava agressiva.
Ainda assim, a mudança era clara.
Helena tentou rir.
— Agora você virou advogado da sogra?
— Não.
Ele colocou a xícara sobre a mesa.
— Só estou dizendo que eu também fui desagradável.
Olhei para ele.
Gustavo não me encarou.
Talvez ainda sentisse vergonha de admitir aquilo na minha frente.
Dona Helena mudou de assunto, mas ficou mais quieta durante o resto do café.
Naquela tarde, fomos os três ao mercado.
Helena colocou no carrinho chocolates importados, um queijo caro e algumas outras coisas que queria experimentar.
Quando chegamos ao caixa, Gustavo tirou o cartão.
Eu paguei apenas os itens que faziam parte das compras normais da casa.
Ele olhou para mim.
— Vamos mesmo separar?
— Foi o que combinamos.
Sem discutir, pagou o restante.
No carro, Helena perguntou:
— Vocês sempre fazem as contas assim?
Respondi:
— Não. Algumas despesas são compartilhadas. Outras são pessoais.
— Casamento virou empresa agora?
Gustavo respondeu antes de mim.
— Não, mãe. É só organização.
Olhei pela janela para esconder minha surpresa.
Alguns dias antes, ele tinha usado praticamente a mesma crítica.
Na segunda-feira, encontrei minha planilha aberta no computador.
Gustavo estava sentado à mesa analisando os números.
— Você deixou aberto — disse.
— Tudo bem.
Ele apontou para uma coluna.
— Eu não sabia que você pagava isso todo mês.
A despesa era pequena, mas recorrente.
Depois apontou outra.
— E isso também?
Assenti.
Ao longo dos anos, tínhamos dividido as contas sem organizar cada detalhe. Eu pagava algumas coisas, ele pagava outras, e cada um acreditava intuitivamente que contribuía de maneira justa.
A planilha mostrou que a realidade era menos equilibrada.
Gustavo pagava uma parte maior do financiamento e do carro.
Eu, porém, arcava com quase todas as compras do supermercado, serviços recorrentes e várias despesas pequenas que, somadas, tinham um peso considerável.
— Eu achava que você gastava muito menos que eu com a casa — admitiu.
— Eu sei.
— Por que nunca me mostrou isso?
— Porque nunca achei que precisava provar minha participação.
Ele ficou olhando para a tela.
— Mas agora precisa?
— Agora eu preciso que nós dois parem de tratar certas coisas como invisíveis.
Ele fechou o computador.
— Acho que entendi.
— Entendeu a planilha.
Olhei para ele.
— O resto demora mais.
Naquela noite, Dona Helena pediu a Gustavo que marcasse um salão para ela.
Ele disse que estava trabalhando.
— Natália pode ligar.
Antes que eu respondesse, ele se corrigiu:
— Não. Eu ligo no intervalo amanhã.
Helena soltou um suspiro impaciente.
— Não entendo por que tudo ficou tão complicado.
Eu sabia que ela não estava falando apenas do salão.
Gustavo também.
— Não ficou complicado, mãe. Eu só estou cuidando das coisas que você precisa durante sua visita.
Ela o encarou.
— Sua esposa colocou isso na sua cabeça?
Ele respirou fundo.
— Não.
Depois completou:
— Eu deveria ter pensado nisso antes.
Helena se levantou e foi para o quarto.
Gustavo ficou parado no corredor.
Quando voltou para a sala, sentou ao meu lado.
— Ela vai ficar chateada comigo por um tempo.
— Provavelmente.
— Você parece satisfeita.
— Não estou.
E era verdade.
Eu não queria que ele humilhasse a mãe para compensar o que fizera com a minha.
Queria outra coisa.
— Se você começar a tratar sua mãe mal para provar que me entende, vai continuar sem entender nada.
Ele franziu o cenho.
— Então o que você quer?
— Que você trate as duas bem.
Gustavo ficou quieto.
Essa talvez fosse a parte mais difícil para ele compreender.
Não se tratava de devolver desprezo com desprezo.
Tratava-se de reconhecer que respeito não podia depender de sobrenome.
Mais tarde, antes de dormir, Gustavo me perguntou se eu achava que deveria ligar para minha mãe.
Virei o rosto.
— Para quê?
— Pedir desculpas.
— Só faça se souber pelo que está pedindo desculpas.
Ele não ligou naquela noite.
Pela manhã, porém, encontrei-o sentado sozinho na cozinha, olhando para o celular.
Ainda não tinha feito a ligação.
Mas, pela primeira vez, parecia entender que algumas coisas não se consertavam apenas dentro da nossa casa.
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