
PARTE 9
A segunda visita de Dona Helena foi quase irreconhecível comparada à primeira.
Ela chegou com uma mala pequena.
— Três dias — avisou ao entrar. — Nem um a mais.
— Temos testemunhas — respondi.
Ela riu.
Gustavo levou a mala para o quarto de hóspedes.
Na primeira noite, Helena perguntou onde poderia colocar algumas coisas na cozinha.
Não mexeu em nada antes de perguntar.
Parecia um detalhe mínimo.
Eu sabia que não era.
— Pode deixar aqui — respondi.
No jantar, ela comentou que no dia seguinte precisaria sair cedo.
Gustavo disse:
— Eu levo você.
— Você trabalha.
— Entro um pouco mais tarde.
Helena olhou para mim.
— E a Natália?
Antes, aquela pergunta teria significado que a nora deveria assumir.
Agora parecia apenas curiosidade.
— Tenho reunião cedo — respondi.
— Então Gustavo me leva.
Simples.
No segundo dia, cheguei tarde.
Encontrei os dois fazendo jantar.
Dona Helena picava legumes enquanto Gustavo mexia uma panela.
— Não se anime — ela disse ao me ver. — Seu marido continua cozinhando mal.
— Estou melhorando — ele protestou.
— Melhorou de péssimo para duvidoso.
Sentei à mesa rindo.
A atmosfera era tão diferente que, por alguns minutos, pensei no quanto tudo poderia ter sido mais simples desde o início.
Não precisava haver uma vítima em cada relação.
Não precisava haver uma mãe superior e outra inferior.
Não precisava haver um marido defendendo uma mulher contra a outra.
Precisava apenas haver limites.
Depois que Helena foi dormir, Gustavo sentou ao meu lado.
— Você está pensando.
— Sempre.
— Perigoso.
Bati de leve em seu braço.
— Estava pensando que nada disso precisava ter sido tão difícil.
Ele sabia do que eu falava.
— Eu tornei difícil.
— Nós dois deixamos chegar longe demais.
Ele me olhou.
— Não divide minha parte comigo.
A frase me surpreendeu.
— Como assim?
— Você tentou falar antes. Eu que não quis ouvir.
Fiquei em silêncio.
Meses antes, Gustavo teria aceitado qualquer oportunidade de distribuir culpa.
Agora parecia entender que assumir responsabilidade não significava se diminuir.
— Eu também preciso aprender a falar antes de acumular — disse.
— Isso sim é sua parte.
Concordei.
Dona Helena voltou para casa no terceiro dia.
Na despedida, abraçou o filho e depois me abraçou.
— Da próxima vez fico dois dias.
— Está aprendendo rápido.
— Não abuse.
Rimos.
Depois que ela saiu, Gustavo fechou a porta.
— Melhor?
— Muito.
— Quer colocar nota?
— Não transforme casamento em avaliação de desempenho.
— Você que começou com planilha.
— Planilha financeira.
Ele riu.
Mas havia ainda uma conversa que tínhamos evitado.
Naquela noite, sentei com ele.
— Gustavo, eu quero falar sobre uma coisa.
Ele desligou a televisão.
— Fala.
— Aquela noite da mala.
Seu rosto ficou sério.
— Certo.
— Quando você disse que, se eu saísse pela porta, nosso casamento acabaria…
Ele baixou o olhar.
Eu continuei.
— Isso também não pode acontecer de novo.
— Eu sei.
— Não quero viver numa relação em que separação seja usada para assustar o outro durante uma briga.
— Concordo.
— Nem por você nem por mim.
Ele assentiu.
— Eu estava com raiva.
— Raiva explica. Não torna certo.
— Eu sei.
Ele ficou quieto por alguns segundos.
— Eu pensei que, se ameaçasse perder o casamento, você recuaria.
— E recuei.
— Não.
Ele olhou para mim.
— Você guardou as roupas porque já tinha decidido ficar.
Era verdade.
— Mesmo assim, você tentou usar medo para me controlar.
— Tentei.
A palavra saiu pesada.
— Desculpa.
Assenti.
— Essa é uma das coisas que eu precisava ouvir.
— Tem mais?
— Tem.
Sorri de leve.
— Sempre tem.
Ele se ajeitou no sofá.
Conversamos por quase duas horas.
Falamos sobre dinheiro, visitas, tarefas, decisões grandes e pequenas.
Estabelecemos uma regra que parecia óbvia, mas nunca tínhamos realmente praticado: decisões que afetassem profundamente os dois seriam tomadas pelos dois.
Nem ele convidaria alguém para ficar um mês sem falar comigo.
Nem eu assumiria compromissos que mudassem nossa rotina sem consultá-lo.
Se um familiar desrespeitasse um de nós, o outro não fingiria que não viu apenas para evitar desconforto.
Nenhuma regra resolvia tudo.
Mas elas deixavam claro o tipo de parceria que queríamos construir.
Algumas semanas depois, minha mãe nos convidou para almoçar.
Gustavo aceitou imediatamente.
Quando chegamos, havia peixe ao molho na mesa.
Ele olhou para mim.
Eu vi a lembrança passar pelo rosto dele.
Minha mãe serviu.
— Pode falar se não gostar.
Gustavo provou.
— Está ótimo.
Ela estreitou os olhos.
— Verdade?
— Verdade.
— Não precisa puxar meu saco.
Todos rimos.
Depois do almoço, minha mãe apareceu com uma travessa de pãezinhos.
— Fiz para vocês levarem.
Gustavo recebeu a travessa com as duas mãos.
— Obrigado.
No carro, colocou-a cuidadosamente no banco de trás.
Eu observei.
— Vai jogar fora?
Ele fez uma careta.
— Vou esconder de você para comer tudo sozinho.
Eu ri.
Parecia uma brincadeira pequena.
Mas, para mim, fechava uma ferida.
Naquela noite, aquecemos alguns pãezinhos.
Gustavo comeu três.
— Sua mãe cozinha muito bem.
— Eu sempre soube.
Ele ficou quieto.
— Eu também sabia.
Olhei para ele.
— Só estava decidido a implicar com tudo naquela época.
— Por quê?
Ele pensou.
— Porque me incomodava sentir que minha rotina não estava sob meu controle.
— E decidiu controlar todo mundo.
— Mais ou menos.
— Bastante.
Ele sorriu.
Depois segurou minha mão.
— Ainda bem que você abriu aquela mala.
Olhei para nossos dedos.
— Ainda bem que eu não precisei fechá-la para ir embora.
Nos meses seguintes, não viramos um casal perfeito.
Continuamos discutindo.
Às vezes eu me irritava.
Às vezes ele se fechava.
Mas havia uma diferença fundamental.
As discussões passaram a servir para resolver algo.
Não apenas para descobrir quem conseguiria cansar o outro primeiro.
E quando o fim daquele ano se aproximou, nossas mães fizeram uma sugestão que teria parecido impossível poucos meses antes.
Queriam passar o almoço de Ano-Novo juntas conosco.
Gustavo olhou para mim.
Eu olhei para ele.
Dessa vez ninguém decidiu sozinho.
— O que você acha? — perguntou.
Sorri.
— Acho que podemos tentar.
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