
PARTE 3
Gustavo nunca tinha sido incapaz de fazer tarefas de casa. Ele apenas havia se acostumado a tratá-las como coisas que apareciam prontas. Naquele sábado, porém, passou quase uma hora procurando ingredientes, cortando legumes e perguntando à mãe se a sopa precisava de mais sal.
Dona Helena acompanhava tudo da mesa da cozinha.
— Meu filho, deixe isso. Natália faz melhor.
Gustavo olhou para mim.
Eu estava sentada no sofá respondendo mensagens do trabalho.
— Eu estou ocupada — disse, sem levantar a voz.
Helena franziu a testa.
— No sábado?
— Às vezes preciso adiantar coisas.
Ela não insistiu naquele momento.
Gustavo continuou.
A sopa ficou mais grossa do que deveria e um pouco salgada, mas Helena comeu duas tigelas.
— Está ótima — afirmou.
Eu quase sorri.
Quando minha mãe preparava algo, Gustavo parecia procurar defeitos. Agora que ele mesmo tinha trabalhado quase uma hora, percebia perfeitamente o valor de um elogio.
Depois do almoço, Dona Helena levou a louça até a pia e voltou para a sala.
Gustavo fez o mesmo.
Eu deixei meu prato junto aos outros e comecei a guardar algumas coisas.
Poucos minutos depois, ele apareceu atrás de mim.
— Você não vai lavar?
— Hoje é sua vez.
Ele pareceu surpreso.
— E minha mãe?
— É sua convidada.
A frase não tinha provocação.
Era apenas coerência.
Gustavo ficou alguns segundos olhando para a pia cheia.
Depois arregaçou as mangas.
Helena, entretanto, não gostou.
— Natália, meu filho trabalhou a semana inteira. Você não acha que ele merece descansar?
Fechei o armário que estava organizando.
— Eu também trabalhei a semana inteira.
Ela ficou sem resposta por um instante.
— Mas mulher costuma ter mais jeito para essas coisas.
Respirei fundo.
Não queria transformar cada comentário em uma guerra.
— Algumas mulheres têm. Alguns homens também. Gustavo consegue lavar pratos perfeitamente.
Ele ouviu tudo, mas não disse nada.
À noite, quando ficamos sozinhos, perguntei por que havia permanecido calado.
— Eu não queria criar clima.
— Quando sua mãe fez um comentário sobre mim, você não quis criar clima. Quando minha mãe fazia qualquer coisa que incomodava você, não parecia ter essa preocupação.
Ele passou a mão pelo rosto.
— Natália…
— Não estou pedindo que você brigue com sua mãe. Estou pedindo que não use o silêncio para concordar com qualquer coisa que me coloque numa posição inferior.
Gustavo sentou na beirada da cama.
Pela primeira vez, não tentou dizer que eu estava exagerando.
— Eu não tinha percebido desse jeito.
— Porque normalmente é conveniente não perceber.
A resposta o incomodou.
Mas ele não discutiu.
Nos dias seguintes, Dona Helena começou a ocupar cada vez mais espaço na rotina. Mudava os canais da televisão, reorganizava pequenos objetos da cozinha e comentava sobre a forma como eu guardava mantimentos.
Nada disso, isoladamente, seria grave.
O problema surgiu quando ela começou a agir como se tivesse autoridade para decidir.
— Esse armário ficaria melhor se os copos estivessem aqui.
— Prefiro deixar como está — respondi.
— Mas assim é muito mais organizado.
— Para você.
Helena me lançou um olhar demorado.
No dia seguinte, encontrei os copos exatamente onde ela havia sugerido.
Chamei Gustavo.
— Você mudou?
— Minha mãe organizou.
Peguei os copos e os coloquei novamente no lugar habitual.
— Então explique a ela que não quero que reorganize a cozinha.
Ele suspirou.
— Isso é realmente tão importante?
Eu o encarei.
— Para você, provavelmente não. Porque não é você que vai procurar as coisas depois.
Ele percebeu a contradição.
Naquela noite, falou com a mãe.
Eu estava no corredor e ouvi apenas parte da conversa.
— Mãe, deixa as coisas onde estavam. A Natália usa mais a cozinha durante a semana.
Helena respondeu algo mais baixo.
Gustavo repetiu:
— Não é questão de quem está certo. É a casa dela também.
Aquela frase me fez parar.
Era praticamente a mesma que eu havia dito a ele alguns dias antes.
No dia seguinte, Helena apareceu enquanto eu tomava café.
— Parece que agora preciso pedir autorização para mexer em qualquer coisa.
Coloquei a xícara na mesa.
— Não precisa pedir autorização para viver aqui. Só precisa lembrar que está hospedada na casa de duas pessoas que já têm uma rotina.
Ela cruzou os braços.
— Quando você for mãe de um filho homem, talvez entenda.
— Talvez.
Eu não queria entrar naquela disputa.
Helena, entretanto, continuou:
— Mãe sempre acha que ninguém cuida do filho tão bem quanto ela.
Olhei para ela.
— Minha mãe provavelmente sente a mesma coisa por mim.
Ela ficou em silêncio.
Gustavo entrou na cozinha naquele momento e percebeu o ambiente.
— O que aconteceu?
— Nada — respondi.
Helena também disse que nada havia acontecido.
Mas alguma coisa tinha mudado.
Até aquele momento, Gustavo parecia acreditar que estabelecer limites para a mãe dele era uma agressão.
Agora começava a perceber que limites podiam ser apenas uma forma de convivência.
Naquela noite, ele mesmo lavou a louça sem que eu precisasse lembrar.
Não agradeci como se fosse um favor.
Era simplesmente a parte dele.
Na manhã seguinte, Helena comentou que gostaria de ir a um shopping mais distante para comprar algumas coisas.
— Natália pode levar você — disse Gustavo, distraído, enquanto amarrava os sapatos.
Levantei os olhos.
Ele percebeu imediatamente.
— Quer dizer… eu posso levar no sábado, mãe.
Helena olhou de um para o outro.
A expressão dela mostrou claramente que começava a entender que havia regras novas naquela casa.
E, pela primeira vez, Gustavo estava aprendendo a respeitá-las antes que eu precisasse exigir.
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