
PARTE 5
Gustavo demorou dois dias para ligar para minha mãe.
Não contei isso a ela antes, nem tentei pressioná-lo.
Na quarta-feira, cheguei do trabalho e encontrei-o na varanda falando baixo ao telefone.
Quando percebeu minha presença, não encerrou a chamada.
— Dona Lúcia, eu queria pedir desculpas pela forma como agi quando a senhora esteve aqui.
Parei perto da porta.
Não conseguia ouvir a resposta da minha mãe.
Gustavo continuou.
— Eu fui grosseiro em várias situações. Na época achei que eram coisas pequenas, mas percebi que deixei a senhora desconfortável dentro da nossa casa.
Houve uma pausa.
— Não, a Natália não está me obrigando a ligar.
Quase ri.
Era exatamente o tipo de pergunta que minha mãe faria.
Ele ouviu mais alguns segundos.
— Eu entendo.
Outra pausa.
— Obrigado por me ouvir.
Quando desligou, ficou alguns segundos olhando para a tela.
— Ela disse que não precisava pedir desculpas.
— É o jeito dela.
— Mas precisava.
Concordei.
— E o que mais ela disse?
Gustavo hesitou.
— Que ficou triste porque achava que estava atrapalhando você.
Aquilo me atingiu com mais força do que eu esperava.
Durante a visita, minha mãe tinha tentado esconder o desconforto para não causar conflito.
Agora eu entendia até onde isso havia chegado.
— Ela achou que você queria que ela fosse embora mais cedo — Gustavo acrescentou.
Sentei no sofá.
— Eu não sabia.
— Eu também não.
Olhei para ele.
— Você não perguntou.
Ele assentiu.
Dessa vez não tentou se defender.
Naquela noite, Dona Helena percebeu que estávamos mais silenciosos.
— Aconteceu alguma coisa?
Gustavo respondeu.
— Liguei para a mãe da Natália.
Helena levantou as sobrancelhas.
— Para quê?
— Pedi desculpas.
A reação dela foi imediata.
— Gustavo!
Ele não recuou.
— Eu tratei mal a Dona Lúcia.
— Tratou mal como? Você não xingou, não expulsou, não fez nada.
Ele olhou para a mãe.
— Não precisa expulsar alguém para fazer a pessoa se sentir indesejada.
Fiquei quieta.
Helena olhou para mim, como se procurasse minha influência naquela frase.
— Natália, vocês estão fazendo uma tempestade por causa de dez dias.
Respondi com calma.
— Para mim não é sobre dez dias.
— Então é sobre o quê?
— Sobre o tipo de casamento que eu quero ter.
Ela pareceu incomodada.
— Casamento precisa de tolerância.
— Concordo.
— Então às vezes você precisa deixar certas coisas passarem.
— Também concordo.
Fiz uma pausa.
— Mas tolerância não pode funcionar sempre para o lado mais confortável.
Gustavo permaneceu em silêncio.
Dessa vez, porém, seu silêncio não parecia concordância com a mãe.
Parecia reflexão.
Nos dias seguintes, comecei a observar pequenas mudanças.
Ele passou a organizar a própria roupa com mais frequência.
Parou de deixar xícaras na mesa esperando que eu recolhesse.
Quando Dona Helena pedia alguma coisa diretamente a mim, ele não assumia automaticamente que eu resolveria.
Nenhuma dessas atitudes era extraordinária.
Talvez justamente por isso significassem tanto.
Durante anos, eu havia me acostumado a achar normais dezenas de pequenos serviços que ninguém percebia até eu parar de fazê-los.
Na sexta-feira, Gustavo abriu novamente a planilha.
— Quero ajustar algumas despesas.
Sentamos juntos.
Ele sugeriu uma divisão mais clara das contas fixas e das compras.
Depois perguntou:
— E as tarefas?
— O que tem elas?
— Podemos organizar também.
Sorri de lado.
— Vai criar uma planilha para lavar banheiro?
Ele riu pela primeira vez em vários dias.
— Se precisar.
Não fizemos uma tabela rígida.
Apenas dividimos responsabilidades.
Ele ficaria responsável por algumas tarefas que antes simplesmente acabavam sobrando para mim.
Eu manteria outras.
Não era romântico.
Era melhor.
Era concreto.
Dona Helena notou.
No sábado, enquanto Gustavo passava aspirador na sala, ela apareceu no corredor.
— Meu filho, por que você está fazendo isso?
Ele desligou o aparelho.
— Porque hoje sou eu.
— Natália não pode?
Ele respirou fundo.
— Pode.
Olhou para mim, depois para ela.
— Mas não precisa fazer tudo.
Helena ficou séria.
— Na minha época, ninguém fazia tanta conta.
Gustavo sorriu sem ironia.
— Talvez devesse ter feito.
Ela voltou para o quarto.
Mais tarde, encontrei-a sozinha na cozinha.
— Você conseguiu o que queria — disse.
— O quê?
— Meu filho mudou.
Pensei antes de responder.
— Eu não quero que ele mude por minha causa.
— Então por quê?
— Porque percebeu que algumas coisas que fazia eram injustas.
Helena apertou os lábios.
— Você vai acabar afastando meu filho da família.
A frase me fez entender algo.
Para ela, toda autonomia de Gustavo parecia uma perda.
— Dona Helena, eu nunca pedi que ele se afastasse da senhora.
— Mas agora ele me responde.
— Discordar não é abandonar.
Ela não gostou.
— Você ainda não é mãe.
Não respondi à provocação.
— Talvez eu nunca pense igual à senhora sobre isso.
Ela saiu.
Naquela noite, contei a Gustavo.
Ele ficou preocupado.
— Minha mãe acha que você está me afastando dela?
— Foi o que disse.
— Isso não faz sentido.
— Para ela talvez faça.
Ele ficou pensativo.
— Eu sempre deixei muita coisa passar.
— Porque era mais fácil.
— Sim.
A resposta veio rápida.
Nenhuma justificativa.
— Talvez ela tenha se acostumado.
Eu não precisei dizer mais.
Na manhã seguinte, Gustavo chamou a mãe para tomar café na varanda.
Eu não acompanhei.
A conversa durou quase uma hora.
Quando entraram, Helena estava séria, mas não parecia furiosa.
Gustavo também.
Mais tarde perguntei o que haviam falado.
— Eu disse que ela continua sendo minha mãe, mas que isso não significa que eu precise concordar com tudo.
— E ela?
— Disse que depois que homem casa, esquece quem criou.
Sorri sem humor.
— Clássico.
Ele riu.
Depois ficou sério.
— Mas eu disse que respeitar minha esposa não significa esquecer minha mãe.
Fiquei olhando para ele.
A mudança não estava completa.
Talvez nunca estivesse.
Mas pela primeira vez ele tinha colocado em palavras aquilo que eu tentava explicar desde o começo.
E não porque eu estava ao lado mandando.
Porque finalmente começava a enxergar sozinho.
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