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LEITURA EM PARTESParte 8 de 10

PARTE 8

Minha mãe chegou pouco antes do meio-dia.

Diferente da visita anterior, trouxe apenas uma bolsa pequena.

— Vim almoçar, não me mudar — brincou quando abri a porta.

Eu a abracei.

Gustavo apareceu logo atrás.

Por alguns segundos, os dois ficaram sem saber exatamente como agir.

Então ele tomou a iniciativa.

— Dona Lúcia, obrigado por vir.

Minha mãe sorriu.

— Obrigada pelo convite.

Não houve abraço dramático.

Não houve choro.

Foi melhor assim.

As coisas importantes raramente precisavam parecer uma cena de televisão.

Na cozinha, Gustavo estava terminando o peixe.

Minha mãe ergueu as sobrancelhas.

— Foi você que fez?

— Tentei.

— Então ainda temos tempo de pedir comida.

Ele riu.

O clima ficou mais leve.

Durante o almoço, Gustavo não ficou procurando defeitos.

Também não exagerou nos elogios para compensar o passado.

Comeu normalmente.

Minha mãe provou o peixe.

— Está bom.

— Só bom?

Ela fez a mesma expressão séria que ele costumava fazer.

— Talvez esteja um pouco forte.

Gustavo arregalou os olhos.

Então percebeu que ela estava brincando.

Todos rimos.

Eu não me lembrava da última vez em que os três tinham dividido uma mesa sem que eu estivesse observando cada gesto.

Depois do almoço, minha mãe se levantou para recolher os pratos.

Gustavo foi mais rápido.

— Deixa, Dona Lúcia.

— Eu ajudo.

— A senhora é visita hoje.

Ela olhou para mim.

Eu não disse nada.

Gustavo levou a louça.

Minha mãe me acompanhou até a varanda.

— Ele mudou.

— Algumas coisas.

— E você?

A pergunta me pegou de surpresa.

— Como assim?

— Você também mudou.

Pensei.

Talvez ela tivesse razão.

Antes, eu acumulava incômodos durante semanas para evitar conflito.

Depois explodia quando já estava no limite.

Agora estava aprendendo a falar mais cedo.

— Acho que sim.

Minha mãe segurou minha mão.

— Só não faça sua vida virar uma fiscalização.

— Não quero.

— Se ele fizer o certo, deixe ser certo.

Olhei para a cozinha.

Gustavo lavava os pratos.

— Estou tentando.

Quando voltamos para a sala, ele pediu para conversar com minha mãe por alguns minutos.

Eu pensei em sair.

Minha mãe disse:

— Você pode ficar.

Gustavo respirou fundo.

— Eu queria pedir desculpas olhando para a senhora.

Ela ficou quieta.

— Naquela visita, eu fiz a senhora se sentir como se estivesse atrapalhando. Reclamei da comida, do barulho, da televisão… e joguei fora o que a senhora preparou.

Minha mãe baixou os olhos.

— Os pãezinhos estavam ruins?

Gustavo ficou vermelho.

— Eu nem provei.

Ela o encarou.

— Então foi pior.

— Foi.

Ele não tentou se justificar.

— Eu estava irritado com a mudança de rotina e agi como se a culpa fosse sua.

Minha mãe assentiu.

— Eu percebi.

— Desculpa.

Ela ficou alguns segundos em silêncio.

— Eu aceito.

Gustavo respirou.

— Obrigado.

— Mas não faça isso de novo.

Ele sorriu sem graça.

— Não pretendo.

Minha mãe olhou para mim.

— Porque da próxima vez sua esposa talvez use uma mala maior.

Eu comecei a rir.

Gustavo também.

A tensão que existia desde a primeira visita finalmente se dissolveu um pouco.

Quando minha mãe foi embora, Gustavo ficou na porta até ela entrar no carro.

Depois fechou e se virou para mim.

— Acho que ela ainda não gosta muito de mim.

— Minha mãe não convida qualquer pessoa para brincar assim.

— Então tenho esperança.

Naquela noite, abrimos novamente a planilha.

Não por causa de nossas mães.

Por nós.

Percebemos que a divisão financeira ainda podia melhorar.

Decidimos criar uma conta conjunta apenas para despesas da casa, enquanto cada um manteria sua conta pessoal.

A contribuição seria proporcional ao que cada um ganhava.

As despesas pessoais continuariam individuais.

Era uma solução simples.

Mais importante, porém, foi a conversa que veio depois.

— Eu quero saber se você ainda pensa em ir embora — disse Gustavo.

Olhei para ele.

— Eu nunca planejei sair naquela noite.

— Eu sei.

— Mas pensei seriamente se queria continuar vivendo daquele jeito.

Ele baixou os olhos.

— E agora?

— Agora quero ver se o que mudou continua quando tudo voltar ao normal.

— Justo.

Nenhum pedido para que eu esquecesse.

Nenhum discurso prometendo perfeição.

Nas semanas seguintes, a rotina voltou.

Trabalho, contas, cansaço, supermercado, roupa para lavar.

Era justamente ali que as promessas costumavam desaparecer.

Gustavo, porém, continuou.

Nem sempre fazia tudo no dia certo.

Às vezes esquecia alguma tarefa.

Eu também.

Mas agora, quando eu dizia que algo me incomodava, ele não respondia automaticamente que eu estava exagerando.

E eu também parei de guardar uma lista silenciosa de irritações até explodir.

Certa noite, ele chegou cansado e deixou sapatos, mochila e casaco espalhados.

Eu olhei.

— Gustavo.

Ele acompanhou meu olhar.

— Foi mal.

Pegou tudo.

Só isso.

Nenhuma briga.

Nenhum sermão.

Percebi como uma relação podia mudar quando duas pessoas paravam de tratar cada correção como uma disputa de poder.

Dona Helena também passou a ligar com frequência.

Às vezes falava comigo.

Nossa relação não se transformou em amizade íntima.

Não precisava.

Havia respeito.

Um mês depois, ela perguntou a Gustavo se poderia vir passar três dias conosco para uma consulta que faria na cidade.

Ele respondeu:

— Vou conversar com a Natália e te aviso.

Quando ele me contou, eu sorri.

— Claro que pode.

Ele me olhou.

— Tem certeza?

— Tenho.

Dessa vez, eu não precisava abrir uma mala.

Ele já tinha entendido que nossa casa só funcionaria quando nenhuma família tivesse direitos superiores à outra.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

 

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