
PARTE 7
A última semana de Dona Helena em nossa casa foi diferente das duas primeiras.
Ela ainda tinha hábitos que me incomodavam, e provavelmente eu também tinha os meus.
Mas alguma coisa havia mudado na forma como nos observávamos.
Não éramos mais duas mulheres disputando qual delas deveria ocupar o centro da vida de Gustavo.
Numa quarta-feira à tarde, cheguei e encontrei Helena preparando café.
— Fiz um pouco para você — disse.
— Obrigada.
Sentei à mesa.
Ela colocou uma xícara diante de mim.
— Gustavo contou que sua mãe gosta de cozinhar.
— Muito.
— Aqueles pãezinhos que ele jogou fora… eram dela?
Olhei para Helena.
— Eram.
Ela fechou os olhos por um instante.
— Eu teria ficado furiosa.
— Eu fiquei.
— Só não falou na hora?
— Falei depois.
Ela sorriu de leve.
— Com a mala.
Eu também sorri.
Gustavo havia contado.
— Com a mala.
Helena mexeu o café.
— Ele sempre foi teimoso.
— Eu também sou.
— Percebi.
Não havia maldade na frase.
Pela primeira vez, rimos juntas.
Naquela noite, Gustavo chegou e encontrou nós duas conversando na cozinha.
Ficou tão surpreso que Helena reclamou:
— Não faça essa cara. Eu e sua esposa não estamos planejando seu desaparecimento.
Ele riu.
Depois do jantar, Helena me ajudou a guardar alguns pratos.
Não porque eu tivesse pedido.
Nem porque considerasse aquilo obrigação de nora ou sogra.
Apenas porque estava ali.
No dia seguinte, minha mãe me ligou.
— Como estão as coisas?
Contei que Dona Helena voltaria para casa antes do fim do mês.
Minha mãe ficou preocupada.
— Você brigou com ela?
— Não.
— Natália…
— Mãe, não expulsei ninguém.
Ela riu.
Depois ficou séria.
— Gustavo me ligou.
— Eu sei.
— Ele pediu desculpas direito.
— Também sei.
Minha mãe hesitou.
— Você vai ficar bem com ele?
A pergunta era mais profunda do que parecia.
— Ainda estou decidindo que tipo de casamento quero daqui para frente.
— Não tome decisão por raiva.
— Não vou.
— Mas também não aceite coisa errada só porque alguém pediu desculpas.
Sorri.
Aquilo era exatamente minha mãe.
Gentil sem ser ingênua.
Quando desliguei, encontrei Gustavo no corredor.
— Era sua mãe?
— Sim.
— Ela está bem?
— Está.
Ele parou.
— Um dia eu gostaria de pedir desculpas pessoalmente.
— Talvez.
— Você acha que ela aceitaria?
— Minha mãe provavelmente aceitaria um café.
— Não perguntei se aceitaria café.
— Eu sei.
Ele entendeu que eu não lhe daria garantias.
Na sexta-feira, sentamos para conversar sobre o que aconteceria depois que Dona Helena fosse embora.
Gustavo perguntou se eu pretendia continuar com as divisões que havíamos criado.
— Sim.
Ele assentiu.
— Eu também.
— Mesmo sem plateia?
— Principalmente sem plateia.
Aquilo me fez sorrir.
Conversamos então sobre visitas familiares.
Decidimos que, dali em diante, qualquer estadia mais longa seria combinada pelos dois antes de ser confirmada.
A regra valeria para minha mãe, para a dele e para qualquer outro parente.
Nada de anunciar que alguém ficaria um mês depois de a decisão já estar tomada.
Gustavo reconheceu que tinha errado nisso também.
— Eu falei com minha mãe antes de falar com você.
— Eu sei.
— Achei que você não teria motivo para dizer não.
— Esse foi o problema.
Ele assentiu.
— Eu nem considerei que você precisava concordar.
Outra mudança concreta.
No sábado, Dona Helena fez as malas.
Gustavo levou a bagagem até o carro.
Antes de entrar, ela me abraçou.
Foi um abraço curto.
— Obrigada por me receber.
— De nada.
Ela me olhou.
— E… desculpe por algumas coisas.
Eu sabia exatamente quais.
— Tudo bem.
Depois acrescentei:
— Obrigada por dizer isso.
Ela entrou no carro.
Gustavo a levou à rodoviária.
Quando voltou, quase duas horas depois, a casa parecia estranhamente silenciosa.
Ele ficou no meio da sala.
— Vazia.
— Um pouco.
Sentou no sofá.
— Minha mãe disse que você é difícil.
Cruzei os braços.
— Que delicada.
Ele riu.
— Também disse que talvez eu precisasse de alguém difícil.
— Isso melhora um pouco.
Gustavo ficou sério.
— Natália, eu sei que as últimas semanas não apagam o que aconteceu.
— Não apagam.
— Mas quero fazer diferente.
— Então faça.
Não lhe dei uma promessa.
Também não ameacei ir embora.
Naquele momento, percebi que eu não precisava usar a separação como arma para ser ouvida.
Precisava apenas deixar claro o que aceitaria e o que não aceitaria.
Nos dias seguintes, observei.
Gustavo continuou fazendo sua parte.
Continuou pagando as despesas que tínhamos reorganizado.
Continuou tratando minha opinião sobre a casa como algo que precisava ser considerado, não apenas tolerado.
Uma semana depois, ele me perguntou:
— Posso convidar sua mãe para almoçar aqui no domingo?
Olhei para ele.
— Você quer?
— Quero.
— Então pergunte a ela.
— Eu queria perguntar a você primeiro.
A diferença estava justamente naquela frase.
Dessa vez, ele não tinha decidido antes de me consultar.
— Por mim, tudo bem.
Ele sorriu.
Pegou o celular.
Antes de ligar, porém, perguntou:
— Tem alguma coisa que ela gosta muito de comer?
— Peixe ao molho.
O sorriso dele desapareceu por um segundo.
Nós dois lembramos.
— Certo.
— Não precisa cozinhar.
— Eu sei.
Ele respirou fundo.
— Mas talvez eu queira.
No domingo, minha mãe chegaria novamente à nossa casa.
Não para testar Gustavo.
Nem para provar que eu tinha vencido.
Mas porque algumas mudanças só podiam ser consideradas reais quando sobreviviam ao momento em que ninguém mais estava brigando.
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