
PARTE 2
Gustavo ficou parado diante de mim, como se ainda estivesse tentando entender por que eu não tinha feito aquilo que ele esperava. Talvez imaginasse que a mala fosse apenas uma ameaça, uma tentativa de fazê-lo pedir desculpas. Só que eu não queria uma frase bonita arrancada pela pressão; queria que ele entendesse que, a partir dali, as regras da nossa casa valeriam para os dois.
— Então o que você quer? — perguntou, já menos agressivo. Fechei a última gaveta e respondi que queria exatamente o que ele sempre dizia defender: justiça. Se minha mãe precisava respeitar o espaço dele quando nos visitava, a mãe dele também respeitaria o meu.
Gustavo cruzou os braços. — Minha mãe não vai fazer nada contra você. Eu o encarei por alguns segundos antes de responder que não estava acusando Dona Helena de coisa alguma antes mesmo de ela chegar. O problema naquele momento era ele, não ela.
Na manhã seguinte, sentei à mesa da sala com meu computador. Gustavo apareceu já vestido para trabalhar e parou quando viu uma planilha aberta na tela. Perguntou o que eu estava fazendo, e respondi que estava organizando as despesas da casa para o mês em que teríamos uma hóspede.
Ele soltou uma risada curta. — Você vai cobrar aluguel da minha mãe? Expliquei que não, porque aquilo seria absurdo, mas que eu também não bancaria sozinha compras maiores, refeições especiais, passeios e outras despesas decorrentes da estadia. Se ele queria receber a mãe durante trinta dias, deveria assumir a parte extra sem transformar isso em obrigação minha.
Mostrei também a divisão das tarefas. As compras habituais continuariam como sempre, mas eu não passaria a cozinhar três vezes por dia nem lavaria as roupas de Dona Helena simplesmente porque era a nora. Se ela precisasse de alguma coisa além da rotina da casa, Gustavo seria o primeiro responsável por ajudar.
— Você está transformando minha mãe numa conta de matemática. — Não, respondi. — Estou impedindo que eu vire funcionária da sua mãe só porque ela está hospedada aqui. Ele ficou calado porque sabia que havia uma diferença entre as duas coisas.
Quando Dona Helena chegou três dias depois, fui educada. Ajudei com a mala, preparei café e mostrei onde estavam toalhas, lençóis e tudo o que ela poderia precisar no quarto de hóspedes. Em nenhum momento fui fria ou hostil.
Ela parecia satisfeita com a recepção. — Ainda bem que vocês têm espaço. Um mês passa voando. Sorri e disse que esperava que ela se sentisse confortável, desde que todos nós mantivéssemos a rotina da casa.
No primeiro jantar, Dona Helena elogiou a comida. Gustavo pareceu relaxar, talvez convencido de que nossa discussão tinha terminado. Quando a mãe dele disse que gostaria de comer uma sopa específica no almoço do dia seguinte, porém, ele imediatamente olhou para mim.
Fingi não perceber. Helena repetiu que fazia tempo que não comia aquela sopa. Gustavo então perguntou: — Natália, você consegue fazer amanhã? Respondi que estaria trabalhando e que, se ele quisesse preparar para a mãe, a receita certamente poderia ser encontrada na internet.
O silêncio à mesa durou alguns segundos. Dona Helena olhou para o filho, depois para mim. Gustavo apertou os lábios, mas não discutiu na frente dela.
Naquela noite, antes de dormir, ele reclamou. Disse que eu poderia ter sido mais gentil. Perguntei qual parte tinha sido pouco gentil: eu ter recebido a mãe dele com educação ou eu não ter aceitado automaticamente cozinhar o que ela quisesse.
Ele suspirou. — Você vai ficar fazendo comparação com sua mãe o mês inteiro? Respondi que não precisava comparar coisa alguma. Bastava que ele se lembrasse de uma regra simples: a consideração que ele esperava para Dona Helena seria a mesma que eu passaria a exigir para Dona Lúcia.
No dia seguinte, quando fui pegar água, vi Gustavo na cozinha olhando uma receita de sopa no celular. Pela primeira vez desde que sua mãe tinha chegado, ele não estava esperando que eu resolvesse tudo por ele. Não era uma transformação, mas já era uma consequência.
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