
Parte 8
Renato recusou a declaração por quatro dias.
Durante esses quatro dias, eu não insisti.
Minha advogada negociou os outros pontos.
A Horizonte concordou em reconhecer formalmente minha participação na origem da tecnologia.
Também aceitou revisar a cadeia de titularidade e estabelecer uma licença provisória enquanto a questão definitiva era resolvida.
Havia valores envolvidos.
Eu deixei que os profissionais discutissem.
Meu interesse já não era transformar cada centavo numa medida de sofrimento.
Enquanto isso, o processo comercial com a Vértice avançou de maneira independente.
Sem Renato na comissão de decisão, a equipe de compras comparou nossa proposta com a de outros fornecedores.
Perdemos uma rota.
Ganhamos outra.
Revisamos preços.
Reduzimos uma penalidade.
Aceitamos uma exigência de redundância adicional.
Era uma negociação comum.
E justamente por isso eu me senti estranhamente feliz.
Nada estava sendo entregue a mim como compensação.
Se a Vértice fechasse o contrato, seria porque a proposta funcionava.
Na sexta-feira, o compliance da Horizonte pediu uma reunião comigo.
Minha advogada participou.
A profissional explicou que a análise interna havia encontrado inconsistências em despesas antigas relacionadas à viagem em que aconteceu o episódio do hotel.
Não havia registros suficientes para reconstruir cada detalhe.
Parte dos documentos obedecia aos prazos normais de retenção e já não existia.
Mas alguns lançamentos históricos estavam vinculados à área administrada por Lívia.
— Isso prova alguma coisa sobre o que aconteceu no quarto? — perguntei.
— Não.
A resposta direta me agradou.
— O que prova?
— Que houve despesas relacionadas àquela viagem que foram classificadas de forma inadequada. Estamos verificando quem autorizou e por quê.
— Renato?
— Ainda estamos apurando.
Saí sem euforia.
Seis anos antes, eu teria transformado qualquer irregularidade na confirmação de tudo.
Agora, não.
Uma despesa errada era uma despesa errada.
Nada mais.
Naquela noite, Helena me telefonou.
— Lívia pediu demissão.
Fiquei quieta.
— Você sabia?
— Não.
— Parece que ela não quis esperar o fim da revisão.
— Isso também não prova culpa.
Helena soltou um suspiro.
— Você realmente mudou.
— Você já disse isso.
— Porque continua me surpreendendo.
No sábado, recebi um e-mail de Lívia.
Pensei em ignorar.
Depois encaminhei à advogada antes de responder.
O texto era curto.
“Quero falar. Sem Renato.”
Aceitei, com uma condição: minha advogada saberia onde estaríamos e eu não trataria de acordo jurídico.
Encontramo-nos num restaurante tranquilo no início da tarde.
Lívia chegou sem maquiagem.
Parecia exausta.
— Eu pedi demissão — disse assim que se sentou.
— Soube.
— Renato acha que eu fiz isso porque estou com medo.
— E fez por quê?
Ela riu baixinho.
— Talvez porque eu esteja cansada de viver dentro de uma história que começou com uma mentira.
Meu corpo ficou rígido.
Lívia olhou para as próprias mãos.
— Eu sabia que você iria ao hotel naquela noite.
Não interrompi.
— Renato já desconfiava de você. Eu alimentei isso.
— Por quê?
— Porque eu queria que ele se separasse.
A honestidade sem enfeite me deixou mais fria do que qualquer desculpa.
— Você já estava grávida?
— Eu descobri poucos dias antes.
— E ele sabia?
— Não.
A informação coincidia com o que Renato havia dito.
— Continue.
Ela respirou profundamente.
— Eu disse a Renato que você estava se encontrando com aquele cliente. Disse que seria melhor ter provas.
— O fotógrafo.
— Foi ideia minha.
— Renato disse que foi ele quem contratou.
— Porque fui eu quem convenceu.
As duas coisas podiam ser verdade ao mesmo tempo.
— E o quarto?
— Renato tinha feito a reserva para você.
— Eu sei.
— Eu consegui entrar antes.
Minha garganta apertou.
— Como?
Lívia fechou os olhos.
— Naquela época eu tinha acesso a reservas corporativas e pagamentos da empresa.
— O paletó?
Ela demorou.
— Coloquei no quarto.
A resposta veio baixa.
Meu peito ficou pesado.
— O que havia no meu copo?
Lívia ficou imóvel.
Eu não repeti a pergunta.
Depois de um longo tempo, ela falou:
— Eu coloquei uma substância para deixar você sonolenta.
Não perguntou se eu queria detalhes.
Não deu.
Eu também não pedi.
Meu corpo inteiro parecia ter ficado distante.
— Renato sabia?
— Não antes.
— Depois?
Lívia me encarou.
— Quando chegou, percebeu que você não estava normal.
— E mesmo assim tirou as conclusões que queria.
— Sim.
Minha mão apertou o guardanapo.
— E o fotógrafo?
— Já estava lá.
— O cliente?
— Você tinha uma reunião real com ele. Eu sabia disso. O plano era fazer parecer outra coisa.
A palavra “plano” tirou de mim qualquer dúvida que ainda restava sobre a intenção dela.
— Por que a abotoadura de Renato estava no quarto?
Lívia levou alguns segundos.
— Ele tinha entrado lá mais cedo para deixar alguns documentos da viagem. Deve ter caído.
Então aquela peça nunca fora a resposta.
Era só mais uma peça do cenário.
— Você entende o que fez?
Ela assentiu.
— Hoje, sim.
— Não. Você entende que eu passei seis anos achando que talvez estivesse ficando louca? Que eu revia aquela noite tentando encontrar um erro meu?
Os olhos dela ficaram molhados.
— Eu sinto muito.
— Não diga isso como se resolvesse.
— Eu sei que não resolve.
— E a pulseira?
Lívia baixou a cabeça.
— Peguei depois que você saiu da casa.
— Por quê?
— Porque eu achei bonita.
A simplicidade daquela resposta me revoltou mais do que se ela tivesse inventado uma justificativa.
— Era presente da minha mãe.
— Eu sei.
— Sabia e usou por seis anos.
— Sim.
Ficamos em silêncio.
Lívia chorava discretamente.
Eu não.
Não naquele momento.
— Vai contar isso formalmente? — perguntei.
— Se for chamada, vou.
— Sem mudar?
— Sem mudar.
Levantei.
— Então faça isso.
Ela também se levantou.
— Marina…
— Não.
Minha voz não foi alta.
— Não peça para eu te perdoar. Não agora.
Saí.
No carro, fiquei alguns minutos sem ligar o motor.
Não havia satisfação.
Nenhuma sensação de triunfo.
A verdade não parecia uma arma.
Parecia uma porta aberta para um quarto onde o ar estava preso havia seis anos.
Liguei para minha advogada.
Contei tudo.
Ela ouviu e perguntou:
— Você quer formalizar alguma medida em relação ao que ela admitiu?
Olhei pela janela.
— Quero saber minhas opções. Todas. Depois eu decido.
Era diferente de seis anos antes.
Dessa vez, ninguém decidiria por mim.
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