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LEITURA EM PARTESParte 3 de 10

Parte 3

Na manhã seguinte, cheguei ao escritório antes das oito.

Passei quase meia hora sozinha na sala de reuniões, olhando pela janela enquanto organizava a ordem das coisas que precisava contar. Não queria transformar o passado numa justificativa, muito menos parecer alguém tentando usar uma negociação empresarial para acertar uma dívida pessoal.

Quando Bastos entrou, fechei a porta.

— O senhor perguntou se existe um conflito de interesse. Existe.

Contei que Renato era meu ex-marido. Expliquei que Lívia havia trabalhado conosco, que o divórcio fora cercado por uma acusação de traição e que, depois da separação, eu perdera participação na empresa e o controle sobre uma tecnologia de cadeia fria criada pelo meu pai.

Não contei como uma vítima pedindo proteção.

Contei como uma gerente informando um risco.

Bastos ouviu sem interromper.

Quando terminei, cruzou os braços.

— Você tem alguma disputa judicial aberta com ele?

— Não.

— Pretende abrir alguma?

— Até ontem eu não sabia. Hoje, pretendo pelo menos verificar a situação da patente.

Ele assentiu devagar.

— Nesse caso, você não participa da decisão comercial final. Continua na parte técnica porque ninguém da nossa equipe conhece o projeto tão bem quanto você, mas preço e assinatura passam por mim e pelo financeiro.

Aquilo não me ofendeu.

Pelo contrário.

Era exatamente o que eu teria recomendado se estivesse no lugar dele.

— Concordo.

— E outra coisa — acrescentou. — Se Renato tentar transformar isso em assunto pessoal, a reunião acaba.

Saí da sala um pouco mais leve.

A primeira mudança daquele dia não foi contra Renato.

Foi em mim.

Pela primeira vez desde o divórcio, eu tinha contado a verdade antes que alguém descobrisse uma versão distorcida dela.

Às nove, Helena me mandou uma mensagem pedindo para conversar durante o almoço.

Não aceitei imediatamente.

Perguntei se o assunto tinha relação com informações confidenciais da Horizonte.

“Tem relação com o passado. Não vou retirar documento da empresa nem mandar nada que eu não possa mandar.”

A resposta me tranquilizou.

Marcamos num café movimentado, perto do centro.

Helena já estava sentada quando cheguei.

Ela parecia mais cansada do que seis anos antes. O cabelo tinha alguns fios grisalhos e os óculos, antes de armação fina, agora eram maiores. Ainda assim, o jeito de olhar ao redor antes de falar permanecia o mesmo.

— Eu fiquei com medo de você achar que eu estava armando alguma coisa — disse.

— Por que me procurou justamente agora?

— Porque vi seu nome no material da Vértice.

Ela segurou a xícara com as duas mãos.

— E porque reconheci o nome do projeto técnico que Renato está tentando impor no contrato.

Meu corpo ficou atento.

— Você sabe de onde veio?

— Sei o que os registros internos dizem. E sei o que eu via naquela época.

Helena foi cuidadosa.

Disse que não levaria arquivos da empresa, não fotografaria documentos atuais e não quebraria sigilo profissional. Mas podia me contar fatos que havia presenciado pessoalmente.

Depois do divórcio, o material técnico relacionado à patente do meu pai passou a circular internamente como se tivesse sido desenvolvido pela própria Horizonte.

— Quem ordenou isso?

— Renato.

— Lívia participou?

Helena hesitou.

— Da parte contábil, sim. Da origem da decisão, eu não sei.

Era uma resposta frustrante.

Mas era uma resposta honesta.

— E a noite do hotel?

Helena desviou os olhos para a mesa.

— Eu nunca soube exatamente o que aconteceu naquele quarto.

— Então por que me mandou a abotoadura?

— Porque ela apareceu numa caixa de despesas que chegou ao financeiro dias depois.

Franzi a testa.

Helena explicou que, naquela época, alguns recibos ligados à viagem tinham sido apresentados para reembolso. Entre os papéis havia uma pequena sacola do hotel. A abotoadura estava dentro.

— Eu reconheci porque Renato usava aquele par quase todo dia. Quando fui perguntar, Lívia mandou jogar tudo fora.

— E você ficou com ela.

— Fiquei.

— Havia recibo do fotógrafo?

— Eu não vi.

— Algum pagamento estranho?

— Havia despesas que não combinavam com uma viagem normal, mas eu não posso afirmar para que serviam.

Era exatamente o tipo de cuidado que eu precisava ouvir.

Nada de transformar suspeita em certeza.

Nenhuma prova milagrosa.

Somente uma trilha.

Depois do almoço, liguei para uma advogada especializada em propriedade intelectual indicada pelo jurídico da própria Vértice. Expliquei que a consulta seria particular e que minha empresa não estava envolvida na disputa.

Enviei apenas documentos que já estavam legalmente comigo: cópias antigas do registro da patente, papéis do inventário do meu pai e registros públicos que qualquer pessoa podia consultar no INPI.

Ela pediu algumas horas.

No fim da tarde, retornou.

— Marina, eu preciso ser prudente. Seis anos mudam bastante o cenário, e eu ainda não vi a documentação completa da transferência. Mas existe uma diferença importante entre alguém usar uma tecnologia, alguém registrar uma alteração e alguém provar que recebeu validamente todos os direitos sobre ela.

— O que isso significa na prática?

— Significa que você não deve prometer para si mesma que vai recuperar tudo. Mas também não deve assumir que não tem mais direito nenhum.

Abri no computador a consulta pública que ela me orientou a verificar.

A sequência histórica era confusa.

A patente original estava vinculada ao nome do meu pai e, depois, havia referências à empresa que Renato e eu administrávamos juntos.

Mais adiante, aparecia a Horizonte.

Não havia uma linha simples dizendo “Renato roubou”.

A vida real raramente era tão conveniente.

Mas havia pontos suficientes para justificar uma análise formal.

Antes de sair do escritório, fiz duas coisas.

Primeiro, encaminhei ao compliance da Vértice uma declaração de conflito de interesse, registrando por escrito tudo o que havia contado a Bastos.

Depois, pedi que a equipe técnica retirasse do rascunho do contrato qualquer obrigação que pudesse nos forçar a reconhecer, sem análise, a titularidade exclusiva da Horizonte sobre aquele protocolo.

Às seis e meia, Bastos apareceu na minha porta.

— A Horizonte ligou.

— Algum problema?

— Renato não gostou da alteração.

Fechei o notebook.

— Não me surpreende.

Bastos soltou um pequeno suspiro.

— Ele disse que, sem aquela cláusula, talvez não haja contrato.

— Então talvez não haja.

O diretor me estudou em silêncio.

— Tem certeza?

Eu tinha.

Não porque quisesse destruir Renato.

Mas porque, finalmente, eu estava aprendendo a diferença entre vingança e limite.

Na manhã seguinte, a reunião técnica começou com o jurídico da Horizonte visivelmente tenso.

Renato não me cumprimentou.

Lívia entrou alguns minutos depois e se sentou à esquerda dele.

Dessa vez, a pulseira não estava em seu pulso.

O chefe do jurídico abriu a reunião.

— Recebemos a nova versão da proposta da Vértice. Antes de avançar, precisamos entender por que a cláusula de propriedade tecnológica foi removvida.

Bastos apontou para mim.

— Marina pode explicar o aspecto técnico. A decisão contratual é minha.

Eu abri o documento.

— A Vértice pode seguir parâmetros operacionais fornecidos pelo cliente. O que não podemos fazer é reconhecer previamente direitos exclusivos sobre uma metodologia cuja cadeia de titularidade não foi apresentada.

Renato endureceu o maxilar.

— Você está trazendo assuntos pessoais para a negociação.

— Não. Justamente o contrário. Eu declarei meu conflito de interesse e me retirei da decisão comercial.

O chefe do jurídico olhou para Renato.

Aquilo foi pequeno.

Mas mudou o ar da sala.

Até então, ele parecia acreditar que aquela era apenas uma disputa entre um fornecedor e um cliente.

Agora sabia que havia algo que Renato não tinha contado.

— Que conflito? — perguntou.

Renato respondeu rápido demais.

— Um assunto antigo e irrelevante.

Eu não disse nada.

Bastos também não.

O silêncio obrigou Renato a escolher.

Ele poderia explicar.

Ou poderia parecer estar escondendo.

Por fim, o jurídico fechou a pasta.

— Antes de avançarmos, a Horizonte vai fazer uma revisão interna da titularidade desse protocolo.

Foi a primeira consequência concreta.

Não era uma vitória.

Era apenas uma porta que deixara de ficar trancada.

E, para mim, já bastava.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

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