
Meu marido pediu o divórcio três vezes; quando aceitei e saí do nosso quarto, ele não suportou
Parte 1
Na nossa última briga, foi Caio Queiroz quem colocou a palavra “divórcio” entre nós.
E, dessa vez, eu aceitei.
A partir daquele dia, parei de gastar energia tentando entender cada gesto dele. As notícias e os comentários sobre Caio e Helena Duarte continuavam aparecendo nas redes sociais, mas eu simplesmente passava por eles. Não ampliava fotos, não lia comentários, não procurava explicações.
Eu estava cansada demais para continuar disputando atenção dentro do meu próprio casamento.
Depois de um longo período em que mal trocávamos palavras, Caio finalmente veio falar comigo por vontade própria.
Eu estava no sofá, assistindo a um programa de entretenimento e rindo tanto que minha barriga já começava a doer, quando ele parou diante de mim.
— Um amigo vai se casar no sábado — disse. — Quero que você vá comigo.
Demorei alguns segundos para tirar os olhos da televisão.
— Chama a Helena.
O sorriso que ainda restava no meu rosto desapareceu devagar quando percebi o silêncio que tomou conta da sala.
Caio ficou imóvel.
Sua expressão endureceu.
— Para com isso, Lara.
A voz dele ficou mais baixa.
— Você é minha esposa.
Olhei para a tela da televisão sem realmente enxergar o que estava passando.
Em outra época, ouvir aquelas palavras teria despertado alguma coisa em mim. Talvez esperança. Talvez raiva. Talvez a vontade desesperada de perguntar por que ele só se lembrava de que eu era sua esposa quando precisava que eu ocupasse esse lugar diante dos outros.
Mas, naquela noite, não senti nada disso.
Pensei com calma antes de levantar os olhos para ele.
— Caio, acho melhor a gente parar por aqui.
Ele franziu a testa.
Eu disse, sem elevar a voz:
— Vamos nos divorciar.
Caio ficou rígido.
Como se nunca tivesse imaginado que um dia eu pudesse repetir exatamente a decisão que ele mesmo havia colocado sobre a mesa.
Quando Caio voltou de uma viagem de trabalho, já tinham se passado quinze dias desde nossa última briga.
Ele entrou em casa puxando uma mala pequena.
Assim que nossos olhos se encontraram, nenhum dos dois disse nada.
Depois daquela discussão, parecia que qualquer conversa entre nós exigia um esforço que nenhum dos dois estava disposto a fazer. A casa, antes confortável, tinha adquirido uma espécie de silêncio pesado.
Caio passou por mim e seguiu até o quarto principal.
No corredor, o ruído das rodinhas da mala contra o piso pareceu alto demais.
Alguns minutos depois, ele voltou.
Estava com a testa franzida.
— Onde estão suas roupas?
Respondi com naturalidade:
— Levei tudo para o quarto de hóspedes.
Ele me encarou.
No início, eu tinha pensado em colocar as coisas dele no quarto de hóspedes e continuar usando o quarto principal.
Depois desisti.
A casa tinha sido comprada por Caio.
Se eu já havia concordado com o divórcio, insistir em agir como se ainda fôssemos um casal me pareceu sem sentido.
Ele continuava sendo o dono da casa.
Eu era quem estava de passagem.
— Ainda não consegui encontrar outro lugar — expliquei. — Por isso não me mudei de vez.
Fiz uma pausa.
— Se estiver te incomodando, amanhã mesmo eu saio.
Caio parou por um instante.
Os dedos que seguravam a alça da mala se contraíram quase imperceptivelmente.
— Não foi isso que eu quis dizer.
Sorri de leve.
— Então está tudo certo.
Passei por ele.
— Vou descansar. Você também devia dormir cedo.
Educados.
Distantes.
Como dois conhecidos obrigados a dividir o mesmo teto por alguns dias.
Não esperei que ele respondesse.
Entrei no quarto de hóspedes e fechei a porta.
Caio já havia falado em divórcio três vezes.
Nas duas primeiras, eu nunca havia levado a ameaça até o fim.
Eu chorava, discutia, perguntava se ele realmente queria destruir nosso casamento por causa de uma briga. No fim, a palavra desaparecia da conversa e nós seguíamos em frente como se ela nunca tivesse sido pronunciada.
Na terceira vez, porém, alguma coisa dentro de mim mudou.
Na verdade, desde aquela discussão eu já suspeitava que nosso casamento tivesse chegado ao limite.
E a discussão tinha começado porque eu menti para Caio.
Naquele dia, sofri um acidente de carro.
Por sorte, não tive nenhuma lesão grave.
Minha melhor amiga, Marina, ficou comigo durante todos os exames. Ela era médica naquele hospital e só sossegou depois que os resultados mostraram que eu estava bem.
Eu já estava me preparando para receber alta quando o grupo de mensagens dos colegas dela começou a ficar agitado.
Marina olhou para a tela.
Uma mensagem chamou sua atenção.
“Esse não é o Caio Queiroz, do Grupo Queiroz?”
Outra apareceu logo abaixo.
“Helena Duarte se machucou durante uma gravação com cabos. Está internada aqui. Caio Queiroz chegou com ela.”
Uma terceira mensagem surgiu.
“Meu Deus, foi grave?”
A resposta veio quase imediatamente.
“Parece que sim. Ele veio junto na ambulância. Helena ainda está na UTI.”
Em seguida:
“Então aqueles rumores sobre Helena e Caio são verdadeiros? Eu jurava que era invenção de página de fofoca.”
Outra pessoa respondeu:
“Uma amiga minha estudou com os dois na faculdade. Diz que eles namoraram naquela época.”
Marina levantou lentamente o rosto e me observou.
Eu não disse nada.
No grupo havia também um vídeo gravado no local do acidente de Helena.
A gravação mostrava parte da equipe da produção reunida enquanto ela era socorrida. Caio estava alguns metros adiante, com o rosto tão fechado que ninguém parecia disposto a se aproximar.
Ele não precisava gritar para demonstrar raiva.
A voz dele saiu fria.
— Eu investi uma fortuna nessa produção e foi isso que vocês conseguiram entregar?
O diretor, César, parecia pálido.
Caio continuou:
— Você me garantiu que os protocolos de segurança seriam seguidos. Foi assim que uma pessoa acabou ferida?
César enxugou a testa.
— Caio, houve uma falha da equipe. A responsabilidade é nossa.
Ele abaixou a cabeça.
— Desculpa.
O vídeo terminava ali.
Marina virou o celular para baixo.
— Lara, quando você sofreu o acidente, ligou para ele?
Eu tinha ligado.
Caio não atendera.
Marina ficou vermelha de raiva quando contei.
— Me dá seu celular.
— Marina…
— Me dá.
Antes que eu conseguisse impedir, ela pegou o aparelho e saiu do quarto.
Eu não sabia exatamente o que ela tinha dito a Caio.
Só sei que, cerca de meia hora depois, ele apareceu no hospital.
Caio atravessou o corredor com passos longos e apressados. A camisa estava ligeiramente amassada, havia uma fina camada de suor na testa, e sua expressão continuava tensa.
Assim que o viu, Marina lançou um olhar rápido para mim.
— Aproveita — sussurrou. — Fica um pouco frágil. Deixa esse homem lembrar que também tem uma esposa.
Antes que eu pudesse responder, ela saiu.
A porta se fechou.
Ficamos apenas Caio e eu.
Eu não esperava que Marina realmente ligasse para ele.
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