
Parte 6
Depois daquela reunião, Caio me pediu uma conversa que não envolvesse advogados.
Aceitei com uma condição simples: não voltaríamos a discutir quem estava “ganhando” ou “perdendo” com o divórcio.
Ele concordou.
Encontramo-nos num parque no fim da tarde, longe da casa antiga e do meu apartamento. O movimento de pessoas ao redor tornava impossível transformar aquilo numa cena dramática.
Caminhamos lado a lado durante alguns minutos.
Foi Caio quem começou.
— Quero voltar ao hospital.
Eu sabia exatamente do que ele estava falando.
— Tudo bem.
— Você disse naquela reunião que assumia sua parte. Eu também preciso assumir a minha.
Parei perto de um banco.
Caio continuou:
— Quando descobri que você tinha mentido sobre precisar ficar em observação, eu fiquei com muita raiva.
— Eu lembro.
— Na minha cabeça, você tinha usado o acidente para me tirar da UTI onde Helena estava.
— Eu não pedi para Marina ligar.
— Eu sei disso agora.
— Você também sabia que eu tinha ligado antes de ver qualquer notícia.
— Eu não quis pensar nisso.
A honestidade da resposta me surpreendeu.
Sentamos.
— Eu estava nervoso por causa do acidente no set — explicou. — Tinha gente chorando, a produção inteira parou, e eu me sentia responsável porque a empresa estava envolvida. Quando cheguei ao seu quarto e descobri a mentira, descarreguei tudo em você.
— Você também achava que eu estava com ciúme.
— Eu achava.
— Eu estava.
Caio me olhou.
— Só que não era só isso.
— Eu sei.
Respirei.
— Eu queria que você se preocupasse comigo. Quando Marina falou para eu parecer mais frágil, eu aceitei a ideia porque queria sentir que, por alguns minutos, eu vinha primeiro.
— Você já tinha sofrido um acidente. Não precisava inventar nada.
— Eu sei.
— Então por que não disse a verdade?
Pensei antes de responder.
— Porque a verdade era pouco dramática. Eu estava bem. E naquele momento, na minha cabeça, estar bem significava que eu perderia você de novo para uma situação mais urgente.
Caio passou as mãos pelo rosto.
— Isso é muito errado.
— É.
— E muito triste.
Dessa vez, não senti necessidade de me defender.
— Também é.
Ficamos em silêncio enquanto algumas pessoas passavam correndo pela pista.
— Eu sinto muito por ter mentido — falei. — Não porque isso causou nossa separação. Nossa separação não começou ali. Mas porque eu fiz uma coisa que não quero repetir em nenhuma relação.
Caio assentiu.
— Obrigado por dizer isso.
— Não transforma você em certo.
— Eu sei.
Ele apoiou os antebraços nas pernas.
— Eu também sinto muito por ter usado o divórcio durante nossas brigas.
Aquela frase tinha mais peso do que qualquer pedido genérico de desculpas.
— Eu achava que era só uma palavra — continuou. — Uma maneira de acabar com a discussão. Quando você começava a perguntar sobre Helena, eu ficava irritado, dizia que se você não confiava em mim talvez fosse melhor separar e você recuava.
— Funcionava.
— Sim.
— Por isso você continuou.
Caio demorou a responder.
— Sim.
A clareza daquela admissão doeu menos do que eu imaginava.
Talvez porque eu já soubesse.
Apenas nunca tinha ouvido dele.
— Sobre Helena — disse —, eu não vou tentar convencer você de que não existia nenhum sentimento.
Virei o rosto.
Caio escolheu as palavras com cuidado.
— Nós tivemos uma história. Quando voltamos a trabalhar próximos, eu senti carinho, preocupação e uma familiaridade antiga. Eu tratei tudo isso como se fosse inofensivo porque eu não estava tendo um caso com ela.
— E agora?
— Agora eu entendo que “não estar tendo um caso” era um padrão baixo demais para avaliar meu comportamento como marido.
Eu não esperava aquela frase.
— Você queria alguma coisa com ela?
— Não planejava ficar com ela.
— Não foi o que perguntei.
Ele ficou alguns segundos pensando.
— Eu gostava de ser importante para ela.
Aquilo soou mais verdadeiro do que uma negação absoluta.
— Ela me procurava para resolver problemas. Eu estava acostumado a ser a pessoa que podia resolver tudo. Acho que não percebi quanto espaço isso ocupava.
— Ou não quis perceber.
— Talvez.
Não havia uma revelação explosiva.
Nenhum romance secreto confirmado.
Nenhuma confissão capaz de transformar meses de dúvidas numa resposta simples.
Havia algo mais comum e, de certa forma, mais doloroso: um homem que tinha permitido que uma relação antiga ocupasse um espaço inadequado porque gostava de se sentir necessário.
— Eu podia mudar isso — disse ele.
— Pode.
— Ainda posso.
— Pode.
Caio me encarou.
— Mas você não está dizendo que volta.
— Não.
— Por quê?
— Porque sua mudança não cria uma dívida em mim.
Ele franziu a testa.
— Não entendi.
— Se você aprender a colocar limites, ótimo. Se parar de usar divórcio como ameaça, melhor ainda. Se entender por que precisava se sentir indispensável para outras pessoas, isso pode fazer bem para você.
Respirei.
— Mas eu não sou obrigada a continuar casada apenas para recompensar seu amadurecimento.
Caio desviou o olhar.
Foi difícil vê-lo absorver aquilo.
Também foi difícil dizer.
Nos dias seguintes, os advogados terminaram de revisar os principais pontos da separação. Havia ajustes, documentos faltantes e detalhes patrimoniais que precisavam ser confirmados, mas nenhum de nós começou uma disputa desnecessária.
Caio pediu alguns dias para ler a versão final.
Não para impedir.
Para entender.
Eu concordei.
Durante esse período, ele não apareceu no meu apartamento.
Não ligou de madrugada.
Não mandou mensagens usando lembranças antigas para me fazer sentir culpada.
O silêncio dele, dessa vez, não era punição.
Era respeito.
E foi justamente isso que tornou tudo mais doloroso.
Porque eu comecei a enxergar com clareza o homem que talvez ele pudesse ter sido dentro do casamento se tivesse levado meus limites a sério antes.
Numa quinta-feira, meu advogado ligou.
— Lara, os documentos estão praticamente prontos. Se as duas partes mantiverem o acordo, podemos marcar a formalização.
Olhei ao redor do apartamento.
As caixas já tinham desaparecido.
Meus livros estavam na estante.
A caneca rachada tinha ido para o lixo.
— Pode marcar.
Quando desliguei, fiquei alguns minutos em silêncio.
Não estava mais tentando fugir de Caio.
Também não estava tentando fazê-lo se arrepender.
Eu estava apenas seguindo em frente.
E, naquela noite, soube que a próxima decisão seria a mais difícil justamente porque já não seria tomada no meio da raiva.
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