
Parte 5
O casamento do amigo de Caio aconteceu naquela noite.
Ele não voltou a me pedir para acompanhá-lo.
Eu soube pelas redes sociais que ele tinha ido sozinho porque uma foto do evento apareceu no perfil do noivo. Caio estava numa das mesas, sorrindo para a câmera de um jeito que eu conhecia bem: educado, controlado e muito distante de qualquer coisa que pudesse ser chamada de alegria.
Helena não estava na foto.
Não procurei saber se tinha comparecido.
Esse pequeno detalhe foi mais importante para mim do que parecia. Durante meses, eu teria ampliado a imagem, procurado reflexos, analisado cada mulher sentada ao redor da mesa.
Dessa vez, fechei o aplicativo.
Na segunda-feira, o advogado de Caio entrou em contato com o meu.
Marcamos uma reunião para organizar os próximos passos.
Caio apareceu pontualmente.
Eu esperava resistência quando começássemos a falar de patrimônio, mas ele parecia mais preocupado em entender o que eu pretendia fazer do que em discutir valores.
— Você quer ficar com a casa? — perguntou.
— Não.
Ele me olhou como se eu tivesse recusado alguma coisa absurda.
— Lara, não estou falando para você desistir do que for seu.
— Nem eu.
Meu advogado interveio apenas para lembrar que a divisão precisaria respeitar nosso regime patrimonial e os bens efetivamente sujeitos à partilha. Era exatamente por isso que eu tinha procurado orientação profissional.
— Eu não vou abrir mão do que for meu por direito — expliquei. — Mas também não quero transformar a casa num troféu.
Caio assentiu devagar.
Começamos a organizar documentos, contas e bens adquiridos durante o casamento. Algumas coisas eram claramente pessoais. Outras precisariam ser avaliadas com mais cuidado.
Não houve milagre jurídico.
Não houve uma assinatura capaz de resolver tudo em cinco minutos.
Havia papéis, conferências, números e decisões que precisavam ser tomadas.
Ainda assim, saí da reunião com a sensação de que tínhamos avançado mais em duas horas do que em meses de discussões.
No estacionamento, Caio caminhou ao meu lado.
— O projeto do filme não está mais sob minha supervisão direta.
Parei.
— Por quê está me contando isso?
— Porque provavelmente vai aparecer na imprensa em algum momento e não quero que você ache que fiz escondido.
— Você não precisa prestar contas de cada decisão profissional para mim.
— Eu sei.
— Então por quê?
Ele demorou.
— Porque eu devia ter estabelecido limites antes.
Não respondi imediatamente.
Caio continuou:
— Não estou dizendo que fiz isso para você voltar. O projeto continua com a empresa. Helena continua contratada. Só não existe motivo para eu acompanhar pessoalmente cada etapa.
— Entendi.
— É só isso?
— O que você quer que eu diga?
Ele abriu a boca e desistiu.
Era estranho vê-lo descobrir que ações corretas nem sempre produziam recompensa imediata.
Durante muito tempo, eu também tinha agido assim. Fazia coisas esperando que ele percebesse meu esforço, me escolhesse, me tranquilizasse. Quando a resposta não vinha, acumulava ressentimento.
Agora eu não queria repetir a mesma lógica ao contrário.
— Acho bom você ter percebido — falei. — Mas não vou fingir que uma mudança feita depois que eu saí de casa apaga o que aconteceu antes.
— Eu sei.
Dessa vez, pareceu realmente saber.
Naquela semana, voltei à antiga casa para buscar as últimas caixas.
Caio tinha separado alguns objetos que eu não lembrava de ter deixado para trás.
Uma manta.
Dois livros.
Uma caixa de fotografias.
Uma caneca rachada que Marina tinha me dado anos antes.
— Você ia jogar isso fora? — perguntou, segurando a caneca.
— Provavelmente.
— Você usa desde antes de a gente casar.
Sorri.
— Exatamente por isso ela já devia ter sido aposentada.
Ele soltou uma risada curta.
Foi a primeira vez em semanas que alguma coisa entre nós pareceu normal.
E talvez tenha sido justamente por isso que doeu.
Porque por alguns segundos pude enxergar a vida que tínhamos tido antes de tudo se desgastar.
Caio também percebeu.
O sorriso desapareceu.
— A gente não foi sempre ruim.
— Eu sei.
— Então por que parece que você só consegue lembrar da pior parte?
— Eu lembro das coisas boas.
— Não parece.
— Caio, lembrar que fomos felizes não me obriga a continuar num relacionamento que deixou de me fazer bem.
Ele abaixou a caixa.
— Você fala como se eu tivesse percebido tarde demais.
— Talvez tenha percebido.
— E não existe nada que eu possa fazer?
Respirei fundo.
— Existe.
Os olhos dele se fixaram em mim.
— O quê?
— Respeitar minha decisão sem transformar tudo numa disputa.
A esperança que tinha aparecido no rosto dele diminuiu.
Mas ele assentiu.
Antes de sair, coloquei a chave reserva da casa sobre o aparador.
Caio olhou para ela.
— Pode ficar com uma.
— Não preciso.
— Para qualquer emergência.
— Se houver alguma emergência, eu ligo.
Ele não insistiu.
Na sexta-feira, recebemos a primeira versão organizada do acordo.
Ainda não era o documento final.
Havia pontos para revisar e informações que precisavam ser confirmadas, mas já existia uma estrutura clara.
Meu advogado perguntou se eu queria pedir alguma medida adicional.
— Não — respondi. — Só quero que seja correto.
Caio ficou olhando para mim.
— Você realmente não quer me punir.
— Não.
— Depois de tudo?
— Divórcio não é punição.
Ele desviou o olhar.
— Para mim está começando a parecer.
— Porque agora existe uma consequência que você não consegue retirar depois de uma briga.
A frase ficou entre nós.
Caio pegou a caneta.
Revisou novamente a página diante dele.
Então colocou suas iniciais na minuta para confirmar que aqueles pontos poderiam continuar sendo negociados daquela forma.
Não era a assinatura final.
Mas, quando a tinta tocou o papel, vi a expressão dele mudar.
Até aquele momento, Caio ainda parecia acreditar que tudo aquilo poderia desaparecer se esperasse tempo suficiente.
Naquela tarde, pela primeira vez, ele percebeu que o processo estava avançando mesmo sem a permissão emocional dele.
E eu percebi outra coisa.
Já não precisava vê-lo sofrer para ter certeza de que estava tomando minha própria decisão.
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