
Parte 7
Dois dias antes da data prevista para formalizarmos o divórcio, Caio pediu para me encontrar mais uma vez.
A mensagem não trazia drama.
“Quero te fazer uma pergunta antes de assinarmos. Se você não quiser, eu respeito.”
Fiquei olhando para aquelas palavras.
Meses antes, ele teria aparecido sem avisar.
Ou teria exigido uma conversa.
A mudança era evidente.
Mas continuava não apagando o passado.
Aceitei.
Nos encontramos na mesma cafeteria onde ele havia contado sobre Helena.
Caio chegou com um envelope contendo alguns documentos que ainda precisavam da minha conferência. Colocou-o sobre a mesa, mas não começou por ali.
— Eu conversei com meu advogado — disse. — Está tudo certo da minha parte.
— Da minha também.
— Então não vou usar os documentos como desculpa.
Assenti.
Ele respirou fundo.
— Minha pergunta é simples. Você tem certeza de que não quer tentar mais uma vez?
Eu tinha imaginado que aquela pergunta viria.
Mesmo assim, ouvi-la me apertou o peito.
Caio continuou antes que eu respondesse.
— Não estou dizendo para você voltar hoje. Nem para fingir que nada aconteceu. Eu só preciso saber se existe alguma possibilidade.
— O que seria “tentar”, para você?
Ele pensou.
— Terapia. Tempo. Morar separados se precisar. Recomeçar devagar.
— E Helena?
— Nosso contato ficou limitado ao necessário por causa do projeto. Não estou falando isso como moeda de troca. Eu devia ter feito antes.
— E o divórcio nas brigas?
— Nunca mais.
Sorri sem alegria.
— Você não pode prometer que nunca mais vai fazer alguma coisa só porque está com medo de me perder.
— Posso prometer que entendi por que fazia.
— Entendeu?
Caio ficou sério.
— Porque eu era covarde.
Esperei.
— Eu usava a palavra mais pesada que existia entre nós para encerrar discussões que eu não queria enfrentar. Sabia que você tinha medo de perder o casamento e usava esse medo para recuperar controle.
A resposta foi dura.
Principalmente porque não tentou aliviar a responsabilidade.
— Tem mais — acrescentou.
— O quê?
— Eu gostava de saber que Helena recorria a mim.
Ele já havia admitido algo parecido, mas dessa vez foi mais fundo.
— Quando ela voltou a aparecer na minha vida por causa do trabalho, eu gostei da sensação de ainda ser importante para alguém daquela época. Não porque quisesse trocar você por ela. Mas porque alimentava meu ego.
— E quando eu reclamava…
— Eu chamava de ciúme porque era mais fácil do que admitir que eu estava gostando daquela atenção.
Encostei as costas na cadeira.
Não era uma traição cinematográfica.
Talvez por isso doesse de um jeito tão real.
— Você contou isso para ela?
— Disse que nossa proximidade profissional precisava ter limites mais claros. Ela concordou.
— Só isso?
— Só.
— Ela nunca disse que vocês voltariam?
— Não.
— Nunca houve beijo?
— Não.
— Nunca tiveram um relacionamento enquanto éramos casados?
— Não.
Observei o rosto dele.
Eu queria acreditar.
E percebi que acreditava.
Não porque tivesse provas.
Mas porque, naquele ponto, Caio já não tinha nada a ganhar inventando uma versão mais confortável. Mesmo que algum detalhe continuasse desconhecido, a minha decisão já não dependia de transformá-lo num adúltero.
— Eu acredito em você — falei.
Ele ficou imóvel.
A esperança apareceu imediatamente em seus olhos.
— Então…
— Não muda minha decisão.
Foi como se eu tivesse fechado uma porta no exato momento em que ele pensava que estava se abrindo.
— Lara…
— Escuta.
Ele se calou.
— Eu não estou me divorciando porque descobri uma traição. Estou me divorciando porque não quero voltar para a dinâmica que nós construímos.
— Mas eu estou dizendo que posso mudar.
— Eu sei.
— Então por que não tentar?
Olhei para minhas mãos.
— Porque eu passei muito tempo tentando enquanto você acreditava que eu nunca iria embora.
Caio permaneceu em silêncio.
— Se eu ficar agora porque você finalmente percebeu o risco, vou passar meses me perguntando se a mudança é real ou apenas medo. E você vai passar meses esperando que cada esforço seu seja recompensado com minha volta.
— Isso não precisa acontecer.
— Talvez não.
Levantei os olhos.
— Mas eu não quero descobrir às custas da minha paz.
Ele demorou muito para responder.
Quando falou, sua voz estava baixa.
— Então acabou mesmo.
— Nosso casamento, sim.
A frase doeu.
Mas não me destruiu.
Caio olhou pela janela.
— Eu odiava quando você dizia que eu não escutava.
— Eu sei.
— E agora percebo que passei muito tempo ouvindo só o suficiente para responder.
Não havia nada a acrescentar.
Peguei o envelope sobre a mesa.
Dentro estavam cópias de documentos e alguns ajustes finais que eu precisava confirmar.
— Vou revisar hoje.
— Está bem.
Levantei.
Caio também.
Antes de sairmos, ele perguntou:
— Posso pedir uma última coisa?
Esperei.
— Quando formos assinar, não quero transformar aquilo em outra briga.
— Eu também não.
— Se eu ficar abalado…
— Você pode ficar.
— E se eu precisar de alguns minutos?
— Pode pedir.
Ele assentiu.
— Obrigado.
Foi estranho agradecer por uma gentileza tão básica.
Mas talvez aquele fosse o sinal mais claro de como nossa relação tinha funcionado por tempo demais.
Naquela noite, revisei cada página.
Conferi nomes.
Datas.
Informações patrimoniais.
Os pontos que nossos advogados tinham organizado.
Não havia armadilha.
Não havia surpresa.
Ao final, mandei uma mensagem simples:
“Da minha parte, está certo.”
Caio respondeu quase meia hora depois.
“Da minha também.”
Coloquei o celular sobre a mesa.
Eu tinha acabado de tomar a decisão que ele mais queria que eu reconsiderasse.
E, pela primeira vez desde o acidente, não senti raiva.
Senti tristeza.
Mas tristeza não era dúvida.
Na manhã seguinte, guardei meus documentos numa pasta e deixei tudo pronto.
A assinatura aconteceria em dois dias.
Eu sabia que poderia chorar.
Sabia que talvez Caio também chorasse.
Mas já não precisava usar a dor como argumento para voltar atrás.
A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇














