Stories · Emotions · Life

LEITURA EM PARTESParte 4 de 10

Parte 4

Caio não tentou me impedir de ir.

Talvez porque ainda acreditasse que eu passaria dois ou três dias no apartamento novo, sentiria falta da casa e voltaria. Eu também não sabia como seria acordar sozinha depois de tantos anos acostumada à presença de outra pessoa do outro lado da cama.

Na primeira noite, dormi mal.

Não porque tivesse me arrependido.

O apartamento ainda tinha caixas empilhadas perto da parede e um silêncio diferente daquele da nossa casa. Lá, o silêncio era resultado de duas pessoas evitando uma à outra. Ali, era simplesmente ausência de ruído.

No domingo de manhã, Caio me mandou uma mensagem.

“Precisamos conversar sem brigar.”

Olhei para a tela durante alguns minutos.

Respondi apenas:

“Podemos conversar.”

Marcamos numa cafeteria perto do meu apartamento.

Caio chegou antes de mim.

Não estava usando terno, não tinha motorista esperando na porta e tampouco trouxe o tom autoritário que costumava usar quando queria encerrar uma discussão rapidamente.

Eu me sentei.

— O que você quer saber? — perguntei.

Ele apoiou os braços na mesa.

— Por que você decidiu que Helena é o motivo de tudo?

— Eu não decidi isso.

— Você fala dela o tempo inteiro.

— Porque ela fazia parte do problema. Não significa que fosse o problema inteiro.

Caio respirou fundo.

— Helena e eu namoramos na faculdade.

Eu já tinha ouvido o rumor.

Escutar aquilo diretamente dele, no entanto, produziu um desconforto diferente.

— Então era verdade.

— Essa parte, sim.

— E por que você nunca me contou?

— Porque acabou muitos anos antes de eu conhecer você. Quando começamos a trabalhar no mesmo projeto, achei que não fazia diferença.

— Começou a fazer quando a imprensa passou a chamar vocês de casal de novo.

— Eu sei.

— Sabe agora.

Caio aceitou a correção sem discutir.

Explicou que o Grupo Queiroz tinha entrado como investidor na produção de um filme em que Helena era protagonista. No dia do acidente, ele estava no set para uma reunião relacionada ao projeto e viu a queda acontecer.

— Foi horrível — disse. — Todo mundo começou a correr. Ela estava consciente por alguns minutos e depois piorou. Eu entrei na ambulância porque eu estava ali e porque a equipe estava completamente perdida.

— Eu consigo entender isso.

Ele pareceu surpreso.

— Consegue?

— Sim. O que eu não consigo entender é todo o resto.

— Que resto?

— Você nunca voltou para perguntar como eu me sentia vendo vocês dois nas manchetes. Nunca estabeleceu limites claros. E quando eu reclamava, sua resposta era me chamar de insegura.

Caio passou o polegar pela borda da xícara.

— Eu achei que, se eu sabia que não estava fazendo nada, isso deveria bastar.

— Para você.

— Sim.

— Mas você era casado comigo.

Ele ficou calado.

Eu continuei:

— Se não havia nada acontecendo, ótimo. Ainda assim, seu comportamento me deixou sozinha dentro do casamento.

Caio levantou os olhos.

— Não aconteceu nada entre mim e Helena depois que eu me casei com você.

Não havia documento, testemunha ou prova capaz de confirmar aquela frase.

Mas, naquele instante, percebi que também não precisava interrogá-lo.

— Eu acredito que você acredita que isso resolve tudo.

— Não foi o que eu disse.

— Então o que você está dizendo?

Ele demorou.

— Que eu não te traí.

— Talvez não.

Caio se inclinou para a frente.

— “Talvez”?

— Eu não vou passar os próximos meses investigando sua vida para descobrir exatamente onde termina amizade, onde começa apego e se em algum momento alguma linha foi cruzada.

— Lara…

— Estou falando sério. Eu passei tempo demais tentando transformar minha dor num processo criminal. Procurando uma prova que autorizasse o que eu sentia.

Ele não interrompeu.

— Você podia nunca ter beijado Helena — continuei. — Ainda assim, quando ela precisou, você apareceu. Quando eu liguei, você não atendeu. Quando eu reclamei, virou uma mulher ciumenta na sua versão da história. Quando brigávamos, você pedia divórcio.

— Você também mentiu no hospital.

— Sim.

Não desviei.

— Eu menti.

— E isso não importa?

— Importa. Foi errado. Eu vou assumir minha parte. Mas a minha mentira durou até uma enfermeira entrar no quarto. O que existia entre nós já estava ruim muito antes disso.

Caio recostou na cadeira.

Aquela foi a primeira conversa em muito tempo em que nenhum de nós tentou aumentar o volume da voz para vencer.

— Por que você mentiu? — perguntou.

Pensei antes de responder.

— Porque eu queria que você ficasse preocupado comigo.

Ele apertou os lábios.

— Isso é absurdo.

— Eu sei.

— Você podia simplesmente ter dito que precisava de mim.

— Eu disse várias vezes.

Ele ficou imóvel.

Aquilo pareceu atingi-lo mais do que qualquer acusação.

— Eu não percebi — disse.

— Eu sei.

— Isso não é uma desculpa.

— Também sei.

Ficamos alguns instantes olhando o movimento da rua do outro lado do vidro.

Caio foi o primeiro a voltar ao assunto do divórcio.

— Eu li o documento que seu advogado mandou.

— Certo.

— Quero que meu advogado veja também.

— É o correto.

— Não vou assinar algo sem entender.

— Eu nunca pedi isso.

Ele assentiu.

Havia uma mudança pequena, mas importante.

Pela primeira vez, ele não estava tratando meu pedido como um acesso de raiva.

Estava tratando como uma decisão.

Antes de irmos embora, Caio perguntou:

— Se não houve traição, isso muda alguma coisa?

Segurei minha bolsa.

— Muda a forma como eu vejo Helena.

Ele esperou o restante.

— Não muda a forma como eu vejo nosso casamento.

A expressão dele se fechou, mas não de raiva.

— Eu realmente achei que você nunca aceitaria quando eu falava em divórcio.

A frase me fez parar.

— Então por que falava?

Caio olhou para a mesa.

Demorou para responder.

— Porque nas brigas eu queria encerrar a conversa. Queria que você parasse. E… porque eu sabia que você sempre vinha atrás.

Não precisei dizer nada.

Ele mesmo percebeu o que tinha acabado de admitir.

— Você usava o divórcio para me fazer recuar — falei.

Caio fechou os olhos por um instante.

— Acho que sim.

Levantei.

Não senti satisfação por ouvir aquilo.

Só uma tristeza calma.

— Esse sempre foi o problema, Caio.

Ele ergueu o rosto.

— Você nunca quis realmente me perder.

Ajeitei a bolsa no ombro.

— Só achou que eu nunca teria coragem de ir embora.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

DESCUBRA MAIS

Histórias mais recentes

Comece sempre pela Parte 1