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LEITURA EM PARTESParte 9 de 10

Parte 9

Seguimos para a formalização acompanhados pelos advogados.

O procedimento não tinha nada da dramaticidade que eu imaginara quando, anos antes, pensava na possibilidade de um casamento terminar.

Não havia uma sala fria cheia de pessoas julgando nossas escolhas.

Havia documentos.

Conferências.

Assinaturas que precisavam ser feitas na ordem correta.

E duas pessoas tentando manter a compostura.

Enquanto aguardávamos nossa vez, Caio ficou sentado a duas cadeiras de distância.

Entre nós havia uma mesa pequena com algumas revistas.

Ninguém tocou nelas.

Depois de alguns minutos, ele colocou uma caixa de papelão aos meus pés.

— Encontrei mais algumas coisas suas.

Olhei.

— O quê?

— Um carregador antigo, dois livros e umas fotos que estavam numa gaveta do escritório.

— Podia ter jogado o carregador fora.

— Eu pensei nisso.

— E por que não jogou?

Ele deu um sorriso fraco.

— Porque ultimamente estou com medo de decidir qualquer coisa por você.

A resposta me pegou desprevenida.

Abri a caixa.

Os livros eram meus.

As fotografias também.

No fundo havia uma chave.

Reconheci imediatamente.

— Essa não é minha.

— É.

— Eu devolvi todas.

— Essa era a chave antiga que ficava no seu chaveiro antes de trocarmos a fechadura há dois anos. Encontrei numa caixa.

Peguei o pequeno objeto.

— Então realmente não serve para nada.

— Não.

Ele quase sorriu.

Coloquei a chave de volta.

Não havia símbolo secreto.

Nenhum convite para retornar.

Era simplesmente uma chave que já não abria porta alguma.

Talvez fosse apropriado.

— Caio.

— Oi.

— Sobre ontem… obrigada por não mencionar meu nome na nota.

— Era o mínimo.

— Eu sei. Mesmo assim, obrigada.

Ele assentiu.

— Helena também decidiu se afastar de qualquer aparição que gere esse tipo de especulação enquanto o projeto estiver em andamento.

— Certo.

— Não estou te contando para tentar mudar sua decisão.

— Eu sei.

A frase saiu sem amargura.

Caio olhou para as próprias mãos.

— Acho que uma das coisas que mais me incomodam é perceber como várias soluções eram simples.

— Algumas eram.

— Eu podia ter esclarecido tudo.

— Podia.

— Podia ter te explicado a relação profissional desde o início.

— Sim.

— Podia ter parado de usar divórcio nas brigas.

— Isso teria ajudado bastante.

Ele soltou o ar pelo nariz.

— Você não vai facilitar para mim, né?

— Não estou tentando dificultar.

— Eu sei.

Ficamos em silêncio.

Depois Caio perguntou:

— Você se arrepende da mentira no hospital?

— Sim.

— Ainda?

— Ainda.

— Mesmo depois de tudo?

— Uma coisa não apaga a outra.

Ele levantou os olhos.

— Eu gosto dessa resposta.

— Por quê?

— Porque durante muito tempo eu usei seu erro para não olhar para os meus.

A frase me fez pensar em quantas discussões tínhamos transformado numa competição de culpa.

Eu apontava Helena.

Ele apontava minha insegurança.

Eu falava das ausências.

Ele falava da mentira.

No fim, ninguém precisava entender o outro.

Bastava provar que também tinha sido ferido.

— Eu também fiz isso — admiti.

— Com o quê?

— Usei o vídeo de Helena como confirmação de tudo que eu já temia. Depois disso, qualquer coisa que você fizesse parecia prova.

— Até quando não era?

— Talvez.

Caio ficou pensativo.

— Então nós dois erramos.

— Sim.

— Mas você ainda quer ir embora.

— Sim.

Ele respirou fundo.

— É difícil aceitar.

— Eu sei.

— Parte de mim ainda pensa que, se não houve traição, a gente deveria conseguir consertar.

— E parte de mim pensava que eu precisava provar uma traição para ter direito de sair.

— E agora?

Olhei para ele.

— Agora acho que um casamento pode terminar sem que um dos dois precise ser transformado num monstro.

Caio abaixou o rosto.

— Isso torna melhor?

— Não.

— Para mim também não.

Uma funcionária apareceu na porta e chamou nossos nomes.

Meu corpo inteiro ficou tenso.

Caio se levantou.

Eu também.

Antes de entrarmos, ele me tocou de leve no braço.

Não segurou.

Não tentou me impedir.

Apenas pediu:

— Um minuto.

Os advogados seguiram alguns passos à frente e nos deram espaço.

Caio falou baixo:

— Eu sei que prometi não transformar isso numa briga.

— E não transformou.

— Mas preciso perguntar uma última vez.

Meu peito apertou.

— Pergunta.

— Se eu assinar hoje, é realmente isso que você quer?

Não havia ameaça na voz dele.

Nem chantagem.

Só medo.

E talvez tenha sido justamente isso que tornou minha resposta tão difícil.

— É.

Caio fechou os olhos.

Quando voltou a abri-los, havia lágrimas contidas, mas ele não tentou escondê-las com raiva.

— Não porque eu não tenha amado você — continuei. — E não porque tudo entre nós tenha sido ruim.

Ele escutou.

— Eu quero o divórcio porque não quero voltar para uma relação em que nós dois precisávamos nos ferir para sermos ouvidos.

— Eu poderia fazer diferente.

— Eu espero que faça.

— Com você.

Balancei a cabeça.

— Não posso prometer isso.

O silêncio entre nós durou alguns segundos.

Então Caio assentiu.

— Tudo bem.

Não era a mesma frase que eu havia dito quando ele pediu o divórcio.

A minha tinha sido uma rendição cansada.

A dele, agora, parecia aceitação.

Entramos.

Os documentos estavam sobre a mesa.

O responsável pelo procedimento confirmou nossos dados e explicou os passos restantes.

Peguei a caneta.

Assinei onde era necessário.

Depois ela passou para Caio.

Ele segurou a caneta.

Olhou para o documento.

Olhou para mim.

E, naquele instante, ficou claro que não existia mais discussão para vencer.

Só havia uma escolha a fazer.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

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