
Dois dias após o divórcio, meu ex sumiu no dia do casamento — mas a mãe dele dizia que ele estava internado
Parte 1
— Lívia? É a mãe do Rafael. Você… pode falar agora?
Eu estava deitada numa suíte de frente para o mar em Punta del Este, uma daquelas acomodações que eu jamais teria reservado durante o casamento porque sempre existia uma despesa “mais importante” esperando.
A diária passava de R$ 8 mil.
O alto-falante ao lado da cama reproduzia ruído branco, as cortinas estavam abertas e o Atlântico brilhava do outro lado da varanda. Virei de lado, coloquei a ligação no viva-voz e deixei o celular sobre os lençóis impecavelmente brancos.
— Se tem alguma coisa para dizer, diga logo. Estou viajando e queria descansar.
A respiração do outro lado ficou pesada quase imediatamente.
— Viajando? Como assim viajando? Compre a passagem mais próxima e volte agora! O Rafael foi internado!
Franzi a testa e me sentei na cama.
Rafael Nogueira.
Meu ex-marido.
Às nove e meia da manhã do dia anterior, nós dois tínhamos saído de um cartório em São Paulo oficialmente divorciados. O patrimônio já estava dividido, os documentos assinados e, pela primeira vez em muito tempo, não havia mais nada pendente entre nós.
— Ele foi internado? — perguntei. — Hoje não era o grande dia dele? A festa do novo casamento?
Fiz uma pausa curta.
— Então peça para a mulher com quem ele ia se casar hoje cuidar dele. Não sou mais responsável por isso.
— Não é hora para esse tipo de comentário! — Marta elevou a voz. — Ele não consegue nem sair da cama. Precisa de alguém do lado dele o tempo todo. Você tem que voltar.
A expressão “você tem que” fez algo dentro de mim endurecer.
Nem o divórcio tinha sido suficiente para aquela mulher entender que eu não fazia mais parte da família.
— Dona Marta, acho que a senhora está nervosa demais e esqueceu o que aconteceu ontem. Eu e Rafael nos divorciamos. Tudo foi resolvido. Nós não temos mais qualquer vínculo conjugal.
Ela tentou me interromper, mas continuei:
— Se ele está no hospital, existem familiares, médicos e a mulher com quem pretendia se casar hoje. Eu não sou mais a esposa dele.
— Lívia…
— Não vou voltar para ser cuidadora do Rafael.
Minha voz saiu mais fria do que eu esperava.
— Estou ocupada. Tchau.
Desliguei antes que ela pudesse aumentar ainda mais o tom.
Joguei o celular sobre o criado-mudo e estava prestes a pegar uma máscara facial quando a campainha da suíte tocou.
Três toques longos.
Dois curtos.
Não era o som educado de alguém da limpeza ou do serviço de quarto. Havia urgência naquele ritmo.
Calcei os chinelos, atravessei a sala e olhei pelo olho mágico.
Meu corpo inteiro ficou tenso.
Do lado de fora estavam três pessoas.
Reconheci o gerente brasileiro do hotel, que tinha me recebido algumas horas antes. Ao lado dele havia dois policiais brasileiros que, segundo ele explicaria depois, estavam trabalhando em cooperação com as autoridades locais.
Abri a porta apenas o suficiente para aparecer no vão.
— Pois não?
O gerente recuou discretamente.
O policial mais velho deu um passo à frente. Tinha o rosto quadrado, a expressão fechada e um olhar tão atento que parecia registrar até a maneira como eu segurava a porta.
Ele mostrou a identificação.
— Polícia Civil de São Paulo. A senhora é Lívia Moreira?
Observei o documento por um instante.
— Sou.
Meus dedos apertaram a lateral da porta.
— O que aconteceu?
O investigador mais jovem segurava um equipamento de registro. Falou num tom neutro:
— Recebemos uma ocorrência e precisamos confirmar algumas informações com a senhora. Podemos conversar lá dentro?
Abri mais a porta.
— Entrem.
Enquanto eles passavam, um pensamento incômodo atravessou minha cabeça.
Será que havia acontecido alguma coisa com a aquisição empresarial de aproximadamente R$ 15 milhões em que eu tinha trabalhado no mês anterior?
Mas aquilo não fazia sentido.
Antes de pedir demissão, eu tinha conferido o relatório financeiro, as auditorias, as aprovações e todos os documentos necessários.
Apontei para o sofá próximo à janela panorâmica.
— Podem sentar.
Eu me acomodei numa poltrona em frente, ajustando o robe para cobrir melhor as pernas.
O policial mais velho não se sentou imediatamente.
Seus olhos percorreram a suíte e pararam por alguns segundos nas duas malas grandes, ainda meio abertas, junto à parede.
— A senhora chegou há pouco tempo?
— Fiz check-in por volta das duas e meia da tarde. Minha intenção era ficar quinze dias.
— Sozinha?
— Sim.
Só então ele se sentou.
Retirou um pequeno caderno da pasta.
— Dona Lívia, a senhora conhece Rafael Nogueira?
Minha mão, que segurava um copo com gelo, parou no ar.
As pedras bateram umas nas outras com um som seco.
— Conheço. Desde ontem de manhã, ele é meu ex-marido.
O investigador mais jovem levantou a cabeça imediatamente.
— Ex-marido?
— Sim. Finalizamos o divórcio ontem, por volta das nove e meia. O patrimônio já estava dividido. Não há nada em disputa.
O homem mais velho anotou alguma coisa e então tornou a me encarar.
O olhar dele havia mudado.
— A senhora sabia que Rafael pretendia se casar novamente hoje?
— Sabia. Ontem, depois de sairmos do cartório, ele comentou.
— Disse com quem seria? Onde aconteceria a cerimônia? Que horas?
Balancei a cabeça.
— Não perguntei.
Coloquei o copo sobre a mesa.
— Nosso casamento tinha acabado oficialmente. Não havia razão para eu investigar o casamento seguinte.
O policial encostou a tampa da caneta na mesa.
— Dona Lívia, recebemos uma denúncia hoje.
Fez uma pausa.
— Rafael Nogueira está desaparecido.
Por alguns segundos, achei que tinha escutado errado.
— Desaparecido?
Dez minutos antes, Marta tinha acabado de me dizer outra coisa.
Rafael estava internado.
Não conseguia levantar da cama.
Precisava de alguém ao lado dele.
Hospitalizado e desaparecido não eram duas versões ligeiramente diferentes da mesma história.
Eram situações completamente incompatíveis.
— Sim — continuou o policial. — A família não consegue entrar em contato com ele. Havia uma recepção preparada para cerca de trezentas pessoas, mas o noivo não apareceu. A mulher com quem ele iria se casar também não sabe onde ele está.
Minha cabeça começou a trabalhar depressa.
Se Marta tinha telefonado exigindo que eu voltasse para cuidar de Rafael, então ela sabia, ou pelo menos acreditava saber, onde ele estava.
Por que a polícia estava procurando um homem que a própria mãe dizia estar internado?
— Tem alguma coisa errada — falei.
Os dois policiais me observaram.
— O quê? — perguntou o mais velho.
— Dez minutos antes de vocês chegarem, minha ex-sogra me ligou.
As mãos dos dois pararam praticamente ao mesmo tempo.
— Ela ligou para a senhora?
— Ligou.
— O que exatamente ela disse?
A postura dele ficou mais rígida.
— Tente lembrar as palavras.
Eu não precisei pensar muito.
— Disse que Rafael tinha sido internado e não conseguia sair da cama. Mandou que eu comprasse uma passagem e voltasse para cuidar dele.
O policial mais jovem franziu a testa.
— Ela falou o hospital?
— Não.
— O setor? O nome de algum médico?
— Nada.
Respirei fundo.
— Achei que fosse algum tipo de chantagem emocional. Nós nos divorciamos ontem. Por isso desliguei.
O homem mais velho olhou para o colega.
A tensão entre os dois se tornou evidente.
— Quando foi a última vez que a senhora viu Rafael pessoalmente?
— Ontem, pouco depois das dez da manhã, na saída do cartório. Ele chamou um carro por aplicativo e foi embora.
— Depois disso, houve alguma ligação, mensagem ou contato por qualquer meio?
— Não.
— Nenhum?
— Nenhum. Nossa divisão patrimonial estava resolvida. Não havia motivo.
O investigador mais jovem se inclinou um pouco para a frente.
— Por que vocês se divorciaram?
A pergunta me incomodou.
— Isso é realmente relevante?
— Pode ser.
Fiquei séria.
— Então vou deixar uma coisa clara. Não houve traição, violência doméstica nem disputa por dinheiro. O casamento terminou porque nós dois chegamos à conclusão de que não fazia mais sentido continuar juntos.
Pelo menos, da minha parte, não existia nada que pudesse ser transformado numa história policial.
O homem mais velho levantou a mão, interrompendo o colega antes que viesse outra pergunta.
— Não estamos fazendo um julgamento sobre a sua vida pessoal. Estamos reconstruindo as últimas horas conhecidas de Rafael.
Ele fechou parcialmente o caderno.
— Como a senhora foi uma das pessoas próximas que esteve com ele pouco antes do desaparecimento, precisamos descartar conflito afetivo, vingança ou qualquer outra hipótese semelhante.
Soltei o ar devagar.
— Entendo.
Meu desconforto não desapareceu, mas a lógica da investigação fazia sentido.
— O que mais vocês precisam?
— O telefone de Marta Nogueira.
Peguei o celular, abri a agenda e li o número.
O policial anotou.
Em seguida, ficou de pé.
— Por enquanto, é isso.
Ele guardou o caderno.
— Mas precisamos que a senhora retorne a São Paulo para prestar depoimento formal e ficar disponível enquanto algumas informações são verificadas. Vamos organizar isso com as autoridades locais e com o consulado.
Olhei para as malas.
A viagem que eu tinha planejado durante meses estava acabando antes mesmo de começar.
Eu tinha pago mais de R$ 20 mil antecipadamente entre hospedagem, passagens e reservas.
Menos de um dia depois de chegar, teria que voltar.
Horas mais tarde, encolhida no banco traseiro do carro que nos levava ao aeroporto, observei as árvores da estrada passarem depressa pela janela.
A tranquilidade que eu sentira quando desembarquei parecia pertencer a outra pessoa.
— Delegado…
O investigador mais velho tinha se apresentado como Augusto durante o trajeto.
Ele virou levemente a cabeça.
— Diga.
— Quem registrou o desaparecimento do Rafael?
O motorista permaneceu em silêncio.
— Foi a mãe dele? Ou a mulher com quem ele ia se casar?
Augusto se virou pela metade no banco da frente e me encarou.
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