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LEITURA EM PARTESParte 3 de 10

Parte 3

Rafael estava num quarto individual, com uma das pernas imobilizada e hematomas visíveis no braço esquerdo. Quando entrei, ele tentou se erguer, mas fez uma careta de dor antes de desistir.

Marta estava perto da janela.

Assim que me viu, caminhou na minha direção.

— Finalmente. Eu sabia que você viria.

Levantei a mão antes que ela pudesse tocar em mim.

— Não vim porque a senhora mandou. Vim porque Rafael pediu para falar comigo e porque ainda há uma investigação acontecendo.

A expressão dela mudou.

— Lívia, agora não é hora para orgulho.

— Não é orgulho.

Olhei diretamente para ela.

— É limite.

Rafael fechou os olhos por um momento.

— Mãe, deixa a gente conversar.

— Você precisa de alguém aqui!

— Eu tenho médicos, enfermeiros e você.

A voz dele estava fraca, mas firme.

— Deixa a Lívia em paz.

Marta abriu a boca, porém Rafael repetiu:

— Por favor.

Ela saiu contrariada.

Eu permaneci perto da porta.

— Pode falar.

Rafael respirou fundo.

— Eu não desapareci porque alguém me sequestrou. Eu saí.

— Isso a polícia já sabe.

— Não sabe por quê.

Fiquei quieta.

Ele passou a mão pelo rosto.

— Faltavam uns quarenta minutos para a cerimônia. Todo mundo estava correndo. Minha mãe reclamava da decoração, Bruna estava nervosa, os convidados já tinham começado a chegar…

Ele parou.

— E eu olhei para aquilo e percebi que não queria entrar.

Minha sobrancelha se ergueu.

— Então você simplesmente fugiu?

— Eu pedi alguns minutos.

— E desligou o celular.

— Sim.

— Com trezentas pessoas esperando por você.

Rafael abaixou os olhos.

— Eu sei como isso parece.

— Não precisa me explicar como parece. Só precisa explicar o que aconteceu.

Ele respirou devagar.

— Eu saí andando. Não tinha plano. Só queria parar de ouvir todo mundo dizendo o que eu deveria fazer. Minha mãe dizendo para sorrir. O cerimonial dizendo onde ficar. Pessoas me tratando como se eu estivesse vivendo o melhor dia da minha vida.

A ironia daquela frase quase me fez rir, mas não havia graça.

— E então?

— Atravessei uma avenida sem prestar atenção. Uma moto me atingiu de lado. Bati no chão e apaguei.

Olhei para a perna imobilizada.

— Você estava sem documentos?

— Minha carteira ficou no quarto onde eu estava me arrumando. O celular quebrou na queda. Quando acordei direito, já estava no hospital.

— E como sua mãe te encontrou?

— Quando consegui lembrar o número dela, pedi para ligarem.

Isso explicava parte da história.

Não explicava o restante.

— Então ela chegou aqui e decidiu não avisar a polícia.

Rafael ficou em silêncio.

— Foi isso?

— Eu perguntei por que ela tinha chamado a polícia. Ela disse que não tinha chamado, que tinha sido a Bruna.

— Isso é verdade.

— Depois ela falou que resolveria tudo.

Soltei uma risada curta, sem humor.

— “Resolver tudo” significou me ligar no Uruguai e mandar que eu voltasse para cuidar de você.

Ele fechou os olhos novamente.

— Ela fez o quê?

Pela primeira vez desde que entrei, percebi surpresa verdadeira no rosto dele.

— Você não sabia?

— Não.

Peguei o celular e mostrei o registro da ligação.

— Ela disse que você não conseguia sair da cama e que eu tinha obrigação de voltar.

Rafael olhou fixamente para a tela.

— Eu não pedi isso.

— Eu imaginei.

O quarto ficou em silêncio.

Durante anos, eu teria preenchido aquele silêncio. Perguntaria se ele estava com dor, ajeitaria o travesseiro, chamaria a enfermeira, verificaria o soro, procuraria alguma coisa que pudesse fazer.

Dessa vez, fiquei parada.

Rafael percebeu.

— Lívia…

— Não.

Ele franziu a testa.

— Eu ainda nem falei.

— Eu sei. Mas preciso deixar isso claro antes.

Aproximei-me apenas o suficiente para não precisar falar alto.

— Eu sinto muito pelo acidente. De verdade. Mas isso não muda o que aconteceu ontem. Nós estamos divorciados.

— Eu sei.

— E eu não vou voltar para a função que sua mãe decidiu que ainda é minha.

Rafael apertou os lábios.

— Eu não quero isso.

— Ótimo.

A porta se abriu.

Bruna entrou acompanhada por uma enfermeira, que logo saiu. Ela parou ao me ver.

A tensão foi instantânea.

— Eu posso voltar depois — falei.

— Não.

Bruna manteve os olhos em Rafael.

— Eu quero entender agora.

Ele passou a mão pelos cabelos.

— Bruna…

— Você me deixou esperando num hotel cheio de gente.

A voz dela não era alta.

Talvez por isso doesse mais.

— Sua família dizia que você voltaria. Depois a polícia começou a procurar você. E agora descubro que você estava internado enquanto sua mãe sabia.

Rafael tentou explicar:

— Eu não planejei o acidente.

— O acidente, não.

Ela apertou o casaco contra o peito.

— Mas sair foi escolha sua.

Ele não respondeu.

Bruna olhou para mim.

— Foi por causa dela?

Eu poderia ter me ofendido.

Em vez disso, apenas disse:

— Não me coloque no meio de uma decisão que eu desconhecia.

Rafael ergueu a cabeça.

— Não foi por causa da Lívia.

Bruna continuou olhando para ele.

— Então por quê?

Ele demorou alguns segundos.

— Porque eu percebi que estava entrando em outro casamento sem estar pronto.

A frase caiu pesada no quarto.

Bruna ficou imóvel.

— Você teve meses para perceber isso.

— Eu sei.

— Mas percebeu quarenta minutos antes?

— Eu fui covarde.

Marta reapareceu na porta.

— Rafael, você está sedado, não sabe o que está dizendo.

Ele virou o rosto para a mãe.

— Sei perfeitamente.

— Não faça isso agora!

— A senhora já fez coisa demais por hoje.

Bruna desviou os olhos.

Quando voltou a falar, sua voz estava trêmula.

— Eu não vou discutir com um homem numa cama de hospital.

Ela tirou do dedo o anel que usava e colocou sobre a mesa.

— Quando você conseguir andar, vai poder começar resolvendo o que deixou para trás.

Rafael não tentou impedi-la.

Bruna saiu.

Marta foi atrás, indignada.

Eu permaneci por mais alguns segundos.

— Era isso que você queria me dizer?

Rafael olhou para o anel sobre a mesa.

— Também queria pedir desculpas por você ter sido arrastada para isso.

— Aceito o pedido de desculpas.

Ele me encarou.

— Só isso?

— O que mais você esperava?

Rafael pareceu perceber a resposta antes de falar.

— Nada.

Assenti.

Já estava me virando para ir embora quando ele disse:

— Lívia.

Parei.

— Minha mãe sabia onde eu estava antes de ligar para você.

Voltei o rosto.

— Eu sei.

— Não. Você não entendeu.

Ele respirou fundo.

— Ela também já sabia que a polícia estava me procurando.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

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