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LEITURA EM PARTESParte 2 de 10

Parte 2

— Foi a noiva — respondeu Augusto. — Bruna Almeida registrou a ocorrência pouco depois do horário previsto para o início da cerimônia. Disse que Rafael saiu do hotel onde estava se arrumando e não voltou.
Eu me endireitei no banco. — E a mãe dele? — Marta foi ouvida depois — continuou o delegado. — Disse que também não sabia onde o filho estava. Foi justamente por isso que a ligação que ela fez para você mudou a situação.
Meu estômago apertou, mas não de medo. Era irritação. Marta tinha afirmado aos policiais que não sabia onde Rafael estava e, menos de uma hora depois, falava comigo como alguém que conhecia até o estado físico dele.
— Ela mentiu para vocês? — perguntei. Augusto não respondeu imediatamente. — Ainda não sabemos. Uma pessoa pode receber uma informação nova depois de prestar depoimento. O problema é que, se foi isso que aconteceu, ela deveria ter informado a polícia.
O investigador mais jovem pediu que eu mostrasse o registro da ligação. O horário apareceu na tela: quatorze horas e trinta e sete minutos. A conversa durara pouco mais de três minutos. Ele fotografou o histórico e anotou o número.
Augusto tentou ligar para Marta. Chamou quatro vezes até cair na caixa postal. Tentou novamente. Nada. Pela primeira vez desde que tinham chegado ao hotel, percebi que a preocupação dos dois já não estava direcionada principalmente a mim.
No aeroporto, enquanto aguardávamos a liberação para o embarque, o celular do delegado tocou. Ele se afastou alguns passos, ouviu por quase dois minutos e voltou com a expressão mais fechada. — Encontraram Rafael.
Fiquei parada, com a mão sobre a alça da mala. — No hospital? — Augusto me encarou. — Sim.
A informação deveria ter me aliviado, mas causou o efeito contrário. — Então Marta sabia. — Sabia pelo menos antes de ligar para você — disse ele. — Rafael deu entrada num hospital particular da zona sul no início da tarde. A mãe dele chegou lá cerca de quarenta minutos depois.
— E não avisou ninguém? — perguntei. — Nem a noiva? Nem vocês? Augusto guardou o celular. — Isso é o que vamos esclarecer.
Durante o voo para São Paulo, eu quase não dormi. Não estava preocupada com Rafael da mesma forma que estaria alguns meses antes, mas também não era de pedra. Saber que alguém com quem eu tinha dividido tantos anos estava ferido produzia uma sensação estranha, uma mistura de distância, hábito e responsabilidade antiga tentando voltar ao lugar de onde eu a tinha expulsado.
Assim que desembarcamos, fui levada para uma unidade policial para formalizar meu depoimento. Horários de voo, reserva do hotel, registros de pagamento e câmeras do aeroporto confirmavam que eu tinha saído do Brasil horas depois de me despedir de Rafael no cartório. Minha presença na viagem deixava claro que eu não tinha acompanhado o que acontecera no dia do casamento.
Bruna também estava na delegacia. Eu a reconheci sem que ninguém precisasse apresentar. Vestia a mesma roupa clara que provavelmente usaria na cerimônia, mas estava sem maquiagem e segurava um casaco dobrado contra o peito como se precisasse de alguma coisa para manter as mãos ocupadas.
Quando nossos olhos se encontraram, ela não demonstrou hostilidade. Demonstrou cansaço. — Você sabia que ele ia desaparecer? — perguntou. — Não — respondi. — E até hoje à tarde eu achava que ele estava se casando com você.
Bruna fechou os olhos por um instante. — Ele saiu dizendo que precisava respirar. Depois desligou o celular. A mãe dele dizia que era nervosismo e que ele voltaria. Quando passou mais de uma hora, eu chamei a polícia.
Augusto entrou na sala antes que pudéssemos continuar. — Rafael está consciente. Sofreu um acidente depois de deixar o local da cerimônia. Os médicos dizem que o estado é estável, mas ele teve fraturas que exigem internação.
Olhei para Bruna. Ela ficou branca. — Então por que ninguém me avisou? — perguntou. Augusto não desviou os olhos dela. — Essa é uma pergunta que a senhora Marta terá de responder.
O investigador então olhou para mim. — Há mais uma coisa. Rafael foi informado de que você voltou ao Brasil por causa da investigação. Ele pediu para falar com você.
Minha primeira reação foi negar. Eu já tinha perdido a viagem, passado horas dando explicações e sido tratada como alguém potencialmente envolvido no desaparecimento de um homem do qual tinha me divorciado no dia anterior. Mas Augusto acrescentou, num tom cuidadoso: — Não é uma exigência policial. A decisão é sua.
Olhei para Bruna, depois para a porta da sala. Naquele momento entendi algo que deveria ter entendido muito antes: eu não precisava fazer nada apenas porque a família de Rafael esperava isso de mim. Se eu fosse ao hospital, seria por uma escolha minha e somente para esclarecer o que havia acontecido.
Levantei da cadeira. — Eu vou. Mas não para cuidar dele.
Augusto assentiu. — Então vamos deixar isso registrado exatamente assim.
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