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LEITURA EM PARTESParte 1 de 10

Meu marido me entregou um café antes do voo — dez minutos depois, o bafômetro acusou álcool e meu armário virou prova contra mim

Parte 1

— Hoje é nosso aniversário de casamento. Não vai trabalhar de estômago vazio.

Caio colocou o copo de café na minha mão poucos minutos antes do embarque.

Eu estava uniformizada, com a mala de piloto ao lado da cadeira e a cabeça já no voo que faria naquela manhã. Tomei dois goles quase sem prestar atenção. Dez minutos depois, enquanto caminhava pelo corredor reservado às tripulações, uma funcionária da segurança operacional bloqueou minha passagem.

— Comandante Helena, recebemos uma denúncia de que a senhora consumiu álcool. Precisamos fazer o teste.

Pensei que tivesse ouvido errado.

O bafômetro apitou.

Positivo.

A funcionária repetiu o procedimento.

O aparelho apitou de novo.

Positivo.

Olhei para o visor sem conseguir associar aquele número a mim. Então coloquei a mala de piloto no chão.

— Acionem a tripulação reserva. Eu não vou operar este voo.

A notícia chegou ao portão de embarque antes que eu tivesse tempo de entender o que estava acontecendo.

Passageiros começaram a reclamar. Alguém filmava de longe. Uma mulher gritava que mais de cem pessoas haviam colocado a vida nas minhas mãos. Um homem exigia saber como uma comandante podia aparecer para trabalhar depois de beber.

Caio surgiu no corredor quase correndo.

Antes que eu pudesse falar, ele me abraçou diante de todos.

— Helena, não esconde mais isso.

Meu corpo inteiro enrijeceu.

— O quê?

Ele apertou meus ombros e falou num tom suficientemente alto para quem estava filmando ouvir:

— Eu vou ajudar você a parar de beber.

O vídeo se espalhou em questão de minutos.

“Comandante é impedida de voar após teste de álcool; marido chora e promete ajudá-la.”

Aquilo bastou.

Ninguém mostrava que eu mesma havia pedido imediatamente a substituição da tripulação. Ninguém mostrava que eu não discutira com a segurança. Ninguém parecia interessado em saber de onde aquele álcool tinha vindo.

Eu estava prestes a afastar Caio quando alguns comentários no vídeo que circulava nos celulares ao nosso redor chamaram minha atenção.

“Não tente se explicar agora.”

“Primeiro, preserve o copo de café.”

“Tem alguém esperando você admitir que bebeu por vontade própria.”

Meu olhar foi direto para a mesa da sala de descanso.

O copo tinha desaparecido.

O funcionário da limpeza acabara de sair do prédio empurrando o carrinho de lixo.

Desci as escadas correndo.

— Pare!

Ele virou assustado.

Caio veio logo atrás e segurou meu braço.

— Helena, é só um copo de papel. Vai fazer o exame de sangue primeiro.

Arranquei meu braço da mão dele.

— Ninguém toca naquele lixo.

O chefe de operações chegou com dois funcionários da segurança.

Apontei para o saco que estava por cima.

— Meu copo está aí dentro.

Ele me encarou.

— Tem certeza?

— Absoluta.

O chefe fez um gesto para a equipe.

— Filmagem contínua. Chamem duas testemunhas antes de abrir.

O saco foi isolado ali mesmo.

O funcionário da limpeza explicou que havia recolhido quatro copos da sala de descanso e não tinha despejado o conteúdo em nenhum outro recipiente.

Usando luvas, a equipe recolheu tudo e levou o saco lacrado.

Caio soltou um suspiro impaciente.

— Helena, quanto mais você insistir nisso, maior a confusão vai ficar.

Virei para ele.

— O bafômetro acusou álcool duas vezes. A confusão já é grande.

Fui para a coleta de sangue acompanhada pela segurança.

O chefe de operações caminhava alguns passos à frente.

— A tripulação reserva já chegou. O voo vai sair com cerca de quarenta minutos de atraso.

Parei por um instante.

— E os passageiros?

— A companhia vai cuidar deles. Agora você precisa colaborar com a investigação.

No fim do corredor, Marina apareceu já uniformizada. Ela seria minha copilota naquele voo, mas havia sido deslocada para assumir com o comandante reserva.

— Helena, me pediram para substituir você.

Entreguei a documentação do voo.

— Há previsão de tempestade antes da chegada. Evitem a célula mais ao sul.

Os olhos dela ficaram vermelhos.

— Você está pensando nisso agora?

— O avião está nas suas mãos.

Segurei o olhar dela.

— Leva todo mundo em segurança.

Marina me abraçou rapidamente.

— Eu vou. E vou explicar para quem precisar que você não tentou voar depois do teste.

Depois da coleta de sangue, meu celular começou a vibrar sem parar.

No grupo das tripulações, alguém havia compartilhado um vídeo do bafômetro.

A gravação começava exatamente no momento em que o aparelho apitava.

Não mostrava minha decisão de sair do voo.

Os comentários vinham em sequência.

“Uma pessoa dessas ainda pode ser comandante?”

“Se ninguém tivesse denunciado, ela teria decolado.”

“Mais de cem vidas quase ficaram nas mãos de uma alcoólatra.”

Um passageiro publicou a foto da remarcação da passagem.

“Minha mãe está fazendo uma cirurgia em outro estado. Estavam esperando eu chegar para assinar documentos. Por causa de uma piloto que resolveu beber antes de trabalhar, talvez eu nem consiga vê-la a tempo.”

Meus dedos ficaram gelados.

Caio tirou o celular da minha mão.

— Para de ler isso.

— Me devolve.

— Você não está em condições de ficar vendo essas coisas.

Ergui os olhos.

— Quem vazou o vídeo do teste?

— Tinha um monte de gente ali. Como eu vou saber?

Ele colocou o aparelho sobre a mesa.

— Helena, escuta o que eu estou dizendo. Fala que ontem era nosso aniversário, que você tomou alguma coisa à noite e que ainda havia álcool no seu organismo de manhã.

Fiquei imóvel.

— Eu não bebi ontem.

— No máximo vão afastar você dos voos por um tempo.

— Eu disse que não bebi.

Ele apertou a mandíbula.

— Então diga que foram só alguns goles.

— O café foi você que me entregou.

O rosto de Caio mudou.

— Está desconfiando de mim?

— Estou fazendo uma pergunta.

— Era café normal.

Ele sustentou meu olhar.

— Se você não acredita, espera o resultado da análise.

Outro comentário apareceu entre centenas de mensagens na publicação.

“O copo pode evitar que coloquem toda a culpa em você.”

Logo abaixo, alguém escreveu:

“Mas quem preparou isso não contou apenas com o café.”

A porta se abriu.

O chefe de operações entrou.

— Helena Duarte, enquanto a investigação estiver em andamento, todas as suas atividades de voo ficam suspensas.

Tirei meu crachá e entreguei a ele.

— Eu aceito.

— A amostra de sangue e o café serão encaminhados para análise independente.

— Certo.

Ele não saiu.

Em vez disso, abriu uma cópia da denúncia.

— Há outra acusação. A pessoa afirma que você vem escondendo bebidas no seu armário há algum tempo.

Caio respondeu antes de mim.

— Isso é impossível.

O chefe voltou os olhos para mim.

— Pelas normas internas, precisamos verificar.

Levantei.

— Eu vou acompanhar. E quero todo o procedimento registrado pela segurança.

— Será.

Fomos imediatamente.

Duas funcionárias aguardavam diante do vestiário feminino.

Digitei minha senha e abri o armário.

Uniformes, boné e camisas reservas estavam exatamente onde eu os havia deixado.

O chefe retirou cada peça diante das câmeras.

Quando ergueu um dos meus sapatos de piloto, ouvimos um pequeno ruído.

Ele virou o calçado.

Três garrafinhas de bebida caíram no chão.

Uma estava vazia.

Duas permaneciam lacradas.

Caio deu meio passo para trás.

— Helena…

Olhou para mim como se também estivesse descobrindo aquilo.

— Desde quando você traz bebida para o trabalho?

Não respondi.

Eu só conseguia olhar para as três garrafas.

Naquela manhã, quando troquei de sapatos, não havia absolutamente nada dentro deles.

A equipe fotografou tudo antes de recolher as garrafas em embalagens próprias.

Apontei para o calçado.

— Quando eu cheguei hoje, ele estava vazio.

Caio franziu a testa.

— Helena, será que você não esqueceu?

— Eu não esqueci.

— Você anda dormindo mal. Às vezes faz alguma coisa e no dia seguinte nem lembra.

Virei devagar para ele.

— Quando foi que eu bebi?

Ele hesitou.

— Em casa.

— Que dia?

— Precisamos mesmo discutir isso agora?

O chefe de operações o interrompeu.

— Familiares devem aguardar do lado de fora.

Caio não se moveu.

— Eu sou marido dela.

— E também é funcionário da companhia. Durante a apuração, o senhor não pode permanecer aqui.

Caio lançou um último olhar para mim.

— Eu espero lá fora.

Quando a porta se fechou, o chefe colocou a denúncia sobre a mesa.

O texto era preciso demais.

“Helena Duarte comparece repetidamente ao trabalho após consumir álcool.”

“As bebidas ficam escondidas dentro do sapato esquerdo, no armário número três do vestiário feminino.”

Até o lado do sapato estava correto.

Devolvi o documento.

— Quem escreveu isso sabia exatamente onde procurar.

— O original está preservado.

— Quem teve acesso?

— Segurança operacional e eu.

Olhei para as cinco pessoas que estavam naquela sala.

— E a busca acabou de acontecer diante de nós.

Ele assentiu.

— Vamos apurar qualquer vazamento.

O celular dele tocou quase imediatamente.

A fotografia das três garrafas já estava na internet.

Elas apareciam ao lado do meu uniforme.

A legenda dizia:

“Comandante mantinha álcool escondido no armário e trabalhava alcoolizada com frequência.”

Os comentários explodiram.

“Ela disse que não tinha nada no sapato. A bebida entrou sozinha?”

“Quem bebe sempre diz que não bebe.”

“Revisem todos os voos que essa mulher já fez.”

“Deveria perder a licença para sempre.”

Até fotografias antigas começaram a circular.

Em uma delas, feita depois de um jantar com colegas, eu segurava um copo de água mineral.

A imagem havia sido cortada de forma que só aparecesse o copo transparente.

O chefe de operações ficou sério.

— Vou descobrir quem vazou a fotografia da apreensão.

Meu celular vibrou novamente.

Caio tinha publicado uma nota.

“Helena sofre de insônia há bastante tempo e, ocasionalmente, recorre ao álcool para conseguir dormir.”

“Por medo de prejudicar a carreira dela, eu não comuniquei a situação à empresa.”

“Felizmente, hoje nenhum acidente aconteceu.”

“Assumo minha parcela de responsabilidade e peço que parem de atacá-la.”

As respostas transformavam Caio em vítima.

“Como um homem desses ainda não pediu o divórcio?”

“Ele escondeu o problema da esposa para protegê-la e agora vai pagar junto.”

“Moça, pelo menos não destrua a vida desse homem também.”

Empurrei a porta e saí.

Caio continuava no corredor.

— Quem autorizou você a publicar isso?

— Estou tentando ajudar você.

— Desde quando eu bebo para dormir?

Ele baixou a voz.

— Primeiro precisamos fazer a opinião pública se acalmar.

— Acalmar com uma mentira?

— Se você admitir que estava sob pressão e exagerou algumas vezes, ninguém vai continuar investigando o café.

Fixei os olhos nele.

— Por que você está com tanto medo de investigarem aquele café?

A expressão dele se alterou.

— Porque estou com medo de você destruir a nossa vida por causa disso.

Meu celular tocou.

Era minha mãe.

Assim que atendi, ouvi o choro dela.

— Helena, pelo amor de Deus, me diz a verdade. Você está bebendo?

— Não.

— O Caio ligou para nós agora há pouco.

Meu estômago se contraiu.

— O que ele disse?

— Disse que, há quase um ano, você está cada vez mais irritada… e que, à noite, se não bebesse, não conseguia dormir.

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