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LEITURA EM PARTESParte 8 de 10

Parte 8

A audiência seria realizada na semana seguinte.

Até lá, eu tinha outra tarefa: voltar a treinar.

A primeira vez que entrei novamente num simulador, minhas mãos estavam mais tensas do que eu gostaria de admitir.

Não era medo de voar.

Era medo de errar qualquer detalhe e oferecer às pessoas uma nova razão para duvidarem de mim.

O instrutor percebeu.

— Você está tentando voar como se estivesse sendo julgada a cada segundo.

Olhei para ele.

— Talvez eu esteja acostumada com isso agora.

— Aqui, não.

Ele apontou para os instrumentos.

— Aqui você vai cometer erro, corrigir erro, discutir decisão e repetir procedimento. É para isso que o simulador existe.

Aquilo me atingiu de um jeito inesperado.

Durante semanas, qualquer falha possível parecera ameaçar minha identidade inteira.

Ali, fui lembrada de que profissionais não são pessoas perfeitas. São pessoas treinadas para reconhecer risco, seguir procedimento e corrigir o que precisa ser corrigido.

Voltei ao exercício.

No fim da sessão, o instrutor fechou a prancheta.

— Seu desempenho operacional está dentro do esperado. O que você precisa recuperar agora é confiança sem transformar confiança em pressa.

Assenti.

Era uma frase sobre pilotagem.

Mas servia para o resto.

Enquanto eu avançava no processo de retorno, Caio tentava negociar a forma como sua saída seria tratada.

Ele queria que a empresa descrevesse o caso como “conflito pessoal com impacto profissional”.

A companhia se recusou.

O que ele fizera não era apenas uma discussão de casamento.

Havia adulteração de bebida antes de uma operação aérea, denúncia falsa e manipulação de evidência interna.

A responsabilidade disciplinar precisava refletir fatos, não eufemismos.

Caio me procurou por meio dos canais do divórcio.

A mensagem era simples: queria uma conversa para “encerrar tudo de maneira civilizada”.

Eu concordei apenas porque a reunião aconteceria em ambiente formal e com representantes presentes.

Quando entrou na sala, parecia mais cansado.

Por um segundo, vi o homem com quem eu tinha celebrado aniversários, feito planos e reclamado de contas, trânsito e móveis que nunca chegavam no prazo.

Foi doloroso perceber que essas lembranças continuavam existindo.

O fato de alguém ter feito algo imperdoável não apaga automaticamente tudo o que veio antes.

Mas também não transforma o imperdoável em aceitável.

Caio sentou diante de mim.

— Eu não quero brigar por dinheiro.

— Nem eu.

— Não quero arrastar isso por anos.

— Nem eu.

Ele respirou fundo.

— Então podemos resolver.

— Podemos resolver o divórcio.

— E o resto?

— O resto não depende só de mim.

Ele sabia do que eu falava.

A apuração interna seguia uma lógica própria. O boletim de ocorrência e qualquer consequência decorrente dele também não eram moeda de troca numa separação.

Caio inclinou o corpo para a frente.

— Se você disser que não quer prosseguir…

— Não.

— Você nem me deixou terminar.

— Porque sei o que vai pedir.

— Minha vida já acabou.

— Não.

Ele me olhou com raiva.

— Você acha que não?

— Acho que você está enfrentando consequências.

— Fácil falar quando você está prestes a recuperar tudo.

A frase quase me fez rir.

— Recuperar tudo?

Minha voz saiu baixa.

— Você acha que uma nota da empresa apaga os vídeos? Que qualquer correção apaga minha mãe me perguntando se eu era alcoólatra? Que voltar ao simulador significa voltar ao dia anterior ao café?

Caio ficou quieto.

— Eu não vou recuperar tudo — continuei. — Vou construir alguma coisa depois disso.

Ele desviou os olhos.

— Eu não queria que fosse tão longe.

— Mas foi você quem decidiu até onde estava disposto a ir antes de eu ter chance de reagir.

— Eu queria você em casa.

— Você podia ter ido embora se não suportava minha profissão.

— Eu queria nossa família.

— Você queria controle.

Caio levantou a cabeça.

— Não fala como se eu fosse um monstro.

— Eu não preciso chamar você de nada.

Essa foi uma das frases mais libertadoras que disse durante todo o processo.

— Eu não preciso decidir que tipo de pessoa você é. Só preciso decidir o que faço diante do que você fez.

A reunião terminou sem acordo sobre qualquer interferência nos processos externos.

Sobre o divórcio, avançamos.

Sobre minha vida, a decisão já estava tomada.

No dia seguinte, recebi autorização para a última etapa antes da volta ao serviço ativo.

Marina me encontrou no centro de treinamento.

— Então está quase lá?

— Quase.

Ela sorriu.

— Não vou falar “eu sabia”, porque seria insuportável.

— Seria mesmo.

Rimos.

Foi a primeira risada leve que tive em semanas.

Na saída, encontrei um dos funcionários da segurança que estivera presente no dia da apreensão das garrafas.

Ele pediu desculpas pelo vazamento da foto, embora não tivesse sido o responsável.

— Aquilo não deveria ter saído do processo.

— Eu sei.

— A pessoa que repassou foi identificada e tratada internamente. Não fazia parte do plano do seu marido. Foi uma violação separada.

A informação fechou uma dúvida importante.

Nem tudo precisava fazer parte de uma grande conspiração.

Uma pessoa havia criado a armação.

Outra, por irresponsabilidade, ajudara a ampliar o dano.

As consequências se somaram, mas não nasceram do mesmo motivo.

Essa distinção importava para mim.

Eu não queria transformar cada erro ao redor numa extensão de Caio.

Naquela noite, recebi a confirmação da audiência disciplinar.

No mesmo e-mail havia outro comunicado.

Se eu concluísse a etapa final de avaliação no dia seguinte, poderia ser considerada apta para retornar à escala depois do prazo técnico necessário.

Li a frase devagar.

Durante semanas, tudo parecia depender das decisões de outras pessoas.

Agora, uma parte da minha vida voltava para minhas mãos.

Mas antes de entrar novamente numa cabine, eu ainda queria concluir uma coisa.

Eu queria olhar para Caio uma última vez diante da empresa e dizer aquilo que ele sempre tentara impedir:

que não havia amor capaz de transformar controle em cuidado.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

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