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LEITURA EM PARTESParte 4 de 10

Parte 4

O corredor de serviço não dava acesso direto ao interior do vestiário feminino.

Aquilo precisava ficar claro.

O registro não mostrava Caio abrindo meu armário. Não mostrava as garrafas sendo colocadas dentro do sapato. Não provava, sozinho, que ele tinha cometido qualquer adulteração.

Mas colocava Caio num lugar onde ele jamais havia mencionado ter estado.

— Ele foi chamado para explicar? — perguntei.

— Vai ser — respondeu o chefe de operações. — Primeiro estamos fechando a sequência de horários.

A câmera do corredor mostrava Caio entrando pela porta de serviço e saindo alguns minutos depois. O ângulo não alcançava a entrada interna do vestiário, mas mostrava que ele estivera naquela área.

Quando finalmente foi ouvido, disse que tinha ido procurar por mim.

A justificativa entrou no relatório.

O problema era que, naquele horário, eu ainda estava na sala de descanso.

Ele sabia disso.

Tínhamos nos visto poucos minutos antes.

O chefe não fez comentários diante de mim. Apenas registrou a inconsistência.

Eu também não comemorei.

Quanto mais a investigação avançava, menos aquilo parecia uma vitória. Cada detalhe que aproximava Caio da montagem contra mim aproximava também meu marido de uma imagem que eu não queria reconhecer.

Naquela tarde, pedi que ele retirasse a publicação em que afirmava que eu dependia de álcool para dormir.

Ele se recusou.

— Se eu apagar agora, todo mundo vai dizer que fui pressionado.

— Porque foi mentira.

— Você está obcecada em provar que eu menti.

— Você falou uma coisa falsa sobre mim para milhares de pessoas.

— Eu estava tentando criar uma explicação menos grave.

Fiquei olhando para ele.

— Menos grave para quem?

Caio passou a mão pelos cabelos.

— Você prefere que pensem que alguém sabotou uma comandante dentro de uma companhia aérea? Tem ideia do tamanho disso?

— Eu prefiro que pensem a verdade, seja ela qual for.

— A verdade nem sempre ajuda.

— Essa frase diz mais sobre você do que sobre mim.

Ele bateu a palma da mão na mesa.

Não foi um gesto violento o bastante para chamar atenção das pessoas ao redor, mas foi a primeira vez que vi a frustração escapar do controle dele.

— Você sempre faz isso.

— Isso o quê?

— Age como se tudo pudesse ser resolvido com procedimento, regra, relatório, cadeia de evidência.

Eu demorei um instante para responder.

— Estamos falando da minha carreira de comandante. Claro que quero procedimento.

Ele riu sem humor.

— E é justamente esse o problema. Para você, tudo é trabalho.

A frase abriu uma porta que ele próprio pareceu se arrepender de ter aberto.

— Então chegamos ao motivo verdadeiro?

Ele desviou.

— Não foi isso que eu disse.

— Mas foi a primeira coisa sincera que você disse desde ontem.

Levantei.

— Não me procure fora das reuniões da investigação.

— Helena.

— E não fale com os meus pais outra vez sobre minha saúde, meu comportamento ou meu trabalho.

— Eu sou seu marido.

— Por enquanto.

Ele ficou imóvel.

Eu também senti o peso daquilo.

Não tinha saído de casa planejando colocar meu casamento em dúvida. Até dois dias antes, eu achava que nossa maior dificuldade era a distância criada pelas escalas, os aniversários comemorados em horários estranhos e o cansaço acumulado.

Agora eu não sabia se o homem com quem eu dividia a vida havia colocado álcool no meu café.

Era impossível voltar para casa e agir como se isso fosse uma discussão comum de casal.

Formalizei a separação de residência e mantive meus pertences essenciais na casa dos meus pais. Não pedi divórcio naquele dia. Eu ainda precisava de clareza para tomar essa decisão sem agir apenas por choque.

Enquanto isso, a companhia identificou outro problema.

A fotografia do meu armário publicada na internet não tinha sido feita por um passageiro ou por alguém do lado de fora.

Era a própria imagem produzida durante a coleta interna.

Isso significava que alguém com acesso ao material da investigação a havia repassado.

O número de pessoas possíveis era pequeno.

Caio não estava nessa lista inicial.

Pelo menos não diretamente.

Quando ouvi isso, perguntei:

— Então existe outra pessoa envolvida?

O chefe balançou a cabeça.

— Não podemos afirmar. A imagem pode ter sido encaminhada de um funcionário para outro sem que todos soubessem para que seria usada. Estamos rastreando a circulação do arquivo dentro dos aparelhos corporativos.

Era a resposta responsável.

Eu a aceitei.

Não precisava transformar qualquer falha em conspiração.

Naquela noite, minha mãe me mostrou o histórico de chamadas.

Caio havia telefonado para ela onze minutos depois que eu entrara para o exame de sangue.

Onze minutos.

Antes da busca no armário.

Antes de as garrafas serem encontradas.

Mesmo assim, já tinha falado que eu vinha bebendo havia meses.

— Ele parecia preocupado — minha mãe disse. — Falou que você negaria porque tinha medo de perder o emprego.

— E você acreditou?

Ela abaixou os olhos.

— Por alguns minutos, sim.

Eu respirei devagar.

— Não estou brava com você.

— Eu estou comigo.

Sentei ao lado dela.

— Não deveria estar. Ele contou uma história usando detalhes que pareciam íntimos. Era natural você achar que um marido saberia coisas que os pais não sabem.

Minha mãe me olhou.

— E ele sabia?

— Essa é a questão. Talvez ele soubesse exatamente o que aconteceria antes de todo mundo.

No dia seguinte, Caio foi temporariamente afastado das funções administrativas ligadas à operação enquanto a companhia investigava a interferência no processo e o uso do crachá no corredor restrito.

Ele ligou para mim logo após receber a comunicação.

Eu não atendi.

Mandou uma mensagem:

“Olha o que você está fazendo comigo.”

Dessa vez eu respondi.

“Eu não coloquei seu crachá naquele corredor.”

Ele visualizou.

Nenhuma resposta.

Pouco depois, o chefe de operações me chamou para uma reunião.

A equipe havia recuperado a sequência completa das câmeras externas.

Caio aparecia entrando no corredor com uma pequena sacola opaca na mão.

Quando saiu, estava sem ela.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

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