
Parte 2
— Mãe, você alguma vez me viu beber para dormir? — perguntei. Do outro lado, o choro dela cessou por um instante. — Não. Mas ele falou com tanta certeza que eu fiquei assustada.
Fechei os olhos. Caio não estava reagindo a uma crise; estava construindo uma versão dos fatos antes que eu pudesse me defender. — Não repita o que ele disse para ninguém como se fosse verdade. Se perguntarem, fale apenas do que você viu com os próprios olhos.
Minha mãe respirou fundo. — Seu pai está aqui comigo. Nós dois sabemos que, quando você está escalada, você nem aceita vinho no jantar. Eu só… achei que pudesse existir alguma coisa que você escondesse da gente.
Aquela frase doeu, mas não pela dúvida dela. Doeu porque Caio havia conseguido o que queria: introduzir uma história falsa dentro da minha própria família. — Eu não escondi isso de vocês porque isso nunca existiu.
Desliguei e me virei. Caio continuava a poucos metros, observando cada movimento meu. — Você ligou para os meus pais antes de eu falar com eles.
— Eu achei que eles precisavam saber.
— Saber uma mentira?
Ele passou a mão pelo rosto. — Helena, para de usar essa palavra. Estou tentando impedir que isso destrua você.
— Você acabou de dizer publicamente que eu tenho um problema com álcool. Isso já destrói minha reputação se eu ficar calada.
— E se você continuar brigando, vai ser pior.
O chefe de operações se aproximou antes que eu respondesse. Pedi a ele que preservasse formalmente as imagens das áreas comuns, os registros de acesso aos corredores, os horários da denúncia e tudo relacionado à coleta dos objetos do armário. Ele me olhou por alguns segundos e assentiu. — Isso já faz parte do procedimento. Mas vou registrar seu pedido.
Caio deu uma risada curta, sem humor. — Agora você vai transformar isso numa investigação contra todo mundo?
— Não. Eu quero que investiguem exatamente o que aconteceu.
— E se o resultado não for o que você quer?
— Eu não quero um resultado. Quero fatos.
Pela primeira vez desde o teste, ele não respondeu imediatamente. Foi só um intervalo curto, mas percebi alguma coisa diferente. Não era tristeza. Era cálculo.
A empresa me orientou a não falar com a imprensa enquanto a apuração estava aberta. Aceitei. Também pedi, por escrito, que qualquer declaração feita em meu nome fosse aprovada por mim. Eu não permitiria que outra pessoa criasse uma versão da minha vida e chamasse aquilo de proteção.
Caio tentou se aproximar novamente quando saímos da área operacional. — Vamos para casa. Você precisa descansar.
— Eu não vou com você.
— Helena…
— Vou ficar com os meus pais.
O rosto dele endureceu. — Você está fazendo isso por causa de um café?
— Não. Estou fazendo isso porque meu marido contou para minha família, para meus colegas e para milhares de desconhecidos que eu sou alcoólatra sem nunca ter me visto bêbada.
Ele baixou a voz. — Se você sair de casa agora, todo mundo vai entender que nosso casamento está em crise.
— Nosso casamento está em crise.
A resposta pareceu atingi-lo com mais força do que qualquer acusação. Ele segurou meu braço, não com violência, mas com firmeza demais. — Você não pode tomar decisões desse tamanho nesse estado.
Afastei a mão dele. — Foi exatamente o que você acabou de fazer por mim.
Marina me mandou mensagem pouco depois do pouso. O voo tinha chegado em segurança. Eu deveria ter sentido alívio, mas a primeira coisa que pensei foi na forma como minha cadeira na cabine havia sido ocupada por outra pessoa enquanto minha imagem circulava como a de uma criminosa.
Não culpei Marina. Nem a empresa por ter me retirado do voo. Se eu estivesse no lugar deles e um comandante apresentasse resultado positivo, faria a mesma coisa. O que eu não aceitava era a história construída em torno daquele resultado.
No fim da tarde, o chefe de operações ligou. O tom dele estava mais cauteloso do que antes. — Helena, ainda não tenho os resultados laboratoriais. Mas há um dado que você precisa saber.
Sentei na cama do quarto em que dormira na adolescência. — Qual?
— A denúncia não foi feita depois do seu teste.
Meu corpo ficou imóvel.
— Que horas ela foi registrada?
— Antes de você chegar ao corredor da segurança. Antes do primeiro bafômetro.
Olhei pela janela, sem realmente enxergar a rua.
A denúncia não podia ter sido uma reação ao meu teste positivo.
Alguém já sabia o que encontrariam no meu corpo e no meu armário antes que qualquer outra pessoa soubesse.
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