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LEITURA EM PARTESParte 1 de 10

Encontrei meu marido de mãos dadas com outra mulher — e minha sogra disse: “Deixa comigo”
Parte 1

— Mãe… aquele homem ali não é o Caio?

No instante em que terminei a pergunta, tive vontade de recolher as palavras.

Ao lado da fonte no centro do Shopping Iguatemi, eu conhecia aquele perfil melhor do que qualquer outro.

O casaco de cashmere cinza-escuro que ele usava tinha sido meu presente de aniversário para ele no mês anterior. Eu mesma escolhera, depois de quase uma hora comparando modelos.

Caio estava inclinado na direção de uma mulher e sorria enquanto dizia alguma coisa. Ela segurava o braço dele com intimidade, o rosto erguido, os olhos apertados de tanto rir.

Meus passos pararam.

Uma das sacolas escapou da minha mão e caiu sobre o piso de mármore com um baque abafado.

— Fica firme.

A voz de Helena, minha sogra, foi tão baixa que somente eu pude ouvir.

Ela continuou com o braço preso ao meu, sem sequer se virar de imediato para olhar os dois. Apenas apertou um pouco mais minha mão.

— Não faça nada agora. Deixa comigo.

Eu conhecia Helena havia cinco anos.

Também fazia cinco anos que tinha me casado com o filho dela.

Nunca, em todo aquele tempo, eu a ouvira falar daquele jeito. Não havia pressa, descontrole nem indignação na voz. Havia uma firmeza tranquila, quase assustadora, de quem já tinha tomado uma decisão antes de todo mundo perceber que existia uma decisão a ser tomada.

Antes que eu conseguisse reagir, ela me conduziu na direção da fonte.

Helena caminhava sem acelerar.

O salto dela tocava o mármore num ritmo regular, constante.

— Caio.

Ela chamou o filho exatamente como faria na sala de casa para pedir que ele servisse mais café.

Nem alto demais, nem baixo demais.

Caio se virou.

Eu vi claramente o sorriso ainda preso ao rosto dele.

Nos dois segundos seguintes, sua expressão passou de surpresa para susto e, depois, para uma preocupação forçada que eu conhecia bem demais para confundir com naturalidade.

— Mãe? Ana? O que vocês estão fazendo aqui?

Os olhos dele se fixaram em mim.

Por um instante, desviaram.

Logo depois, Caio recompôs a expressão.

A mulher continuou segurando o braço dele.

Não pareceu constrangida. Pelo contrário. Olhou para mim e para Helena com um sorriso leve, quase curioso.

Era jovem, talvez vinte e cinco ou vinte e seis anos. Usava um suéter bege e tinha os cabelos presos num rabo baixo e frouxo.

A aparência era delicada.

Quase dócil.

— Ela é… — Caio começou.

Helena não permitiu que terminasse.

Virou-se para a mulher com um sorriso educado.

— Prazer. Sou a mãe do Caio. E esta é Ana, esposa dele.

A palavra “esposa” atravessou o espaço entre nós com uma precisão quase cirúrgica.

— Eu e minha nora viemos escolher o presente de aniversário do pai dele. Não imaginávamos encontrar o Caio aqui. Que coincidência.

Helena não perguntou quem era aquela mulher.

Não exigiu explicações.

Não levantou a voz.

Ficou diante deles como uma parede que ninguém conseguia empurrar.

Vi o pomo de Adão de Caio se mover.

Ele tentou afastar discretamente o braço, mas a mulher se agarrou ainda mais a ele.

Então inclinou um pouco a cabeça na minha direção.

— Oi.

Só aquilo.

Meus dedos se fecharam.

As unhas afundaram na palma da minha mão, e a dor me ajudou a permanecer consciente.

Helena acariciou o dorso da minha mão.

— Ana, você não tinha dito que queria ver aquele conjunto de chá? Vamos dar outra olhada.

Depois encarou o filho.

— Caio, venha jantar em casa hoje. Seu pai precisa conversar com você.

Eu não olhei novamente para ele.

Helena me conduziu para longe.

Consegui acompanhar seus passos por alguns metros, embora minhas pernas parecessem incapazes de sustentar meu peso.

Minha cabeça zumbia.

Mesmo assim, ouvi quando ela falou perto do meu ouvido:

— Saída leste. Vamos embora daqui primeiro.

Entramos num táxi.

Assim que a porta fechou, percebi que meu corpo inteiro tremia.

Helena colocou as sacolas entre nós, ajeitou a barra do casaco e falou com a mesma serenidade de quem comentava sobre o tempo.

— Aquela mulher se chama Lívia. Estudou com o Caio no ensino médio. Divorciou-se dois anos atrás.

Abri a boca, mas nenhuma pergunta saiu imediatamente.

Como ela sabia?

— Rua das Acácias, por favor — Helena disse ao motorista.

Só então se virou para mim.

Seu olhar caiu sobre minha mão.

— Pare de apertar.

Olhei para baixo.

Pequenos pontos de sangue surgiam onde minhas unhas haviam marcado a pele.

Ela tirou um lenço da bolsa e me entregou.

— Limpe.

Passei o papel pela palma sem sentir direito o movimento.

— Mãe… vocês já sabiam?

Durante alguns segundos, ouvi apenas o barulho do trânsito.

Helena olhou pela janela.

— Ana, saber de alguma coisa e ver com os próprios olhos são coisas diferentes. E ver com os próprios olhos e conseguir falar sobre aquilo também são coisas diferentes.

Encostei a cabeça no banco e fechei os olhos.

São Paulo nunca tinha me parecido tão fria.

Quando chegamos à casa dos pais de Caio, Augusto estava sentado na sala lendo jornal.

Assim que entramos, ele tirou os óculos e observou Helena por alguns segundos. Não perguntou o que tinha acontecido.

Talvez não precisasse.

— O jantar vai ter as coisas que vocês duas gostam.

Helena tirou o casaco e pendurou perto da porta. Deu alguns passos em direção à cozinha, mas se virou para mim.

— Ana, suba e descanse um pouco. Quando estiver pronto, eu chamo você.

Assenti.

Subi devagar.

Ao passar pelo corredor do segundo andar, parei diante do escritório.

A porta não estava completamente fechada.

Ouvi a voz baixa de Augusto.

— Você realmente pretende continuar deixando isso acontecer?

Helena soltou uma risada curta, sem humor.

— Deixando?

Houve uma pausa.

— Primeiro eu preciso deixar nosso filho acreditar que ninguém está prestando atenção. Só assim ele vai mostrar até onde pretende ir.

— E você não tem medo de machucar a Ana?

A resposta veio imediatamente.

— Quem está machucando a Ana é o meu filho, não eu. O que posso fazer é permitir que ela enxergue aquilo que precisa enxergar.

O silêncio durou alguns instantes.

Depois Helena continuou:

— Hoje ela ainda estava hesitando. Eu percebi. Se ela mesma não entender o que quer fazer, qualquer coisa que eu faça no lugar dela será inútil.

Fiquei parada no corredor, segurando a lateral da porta.

Durante cinco anos eu acreditara conhecer cada pessoa daquela família.

Augusto era gentil, quieto, de poucas palavras.

Helena era educada, cuidadosa e sempre preocupada em preservar a dignidade de todos.

Caio era bonito, ambicioso e responsável.

E eu sempre tinha considerado nosso casamento tranquilo.

Talvez pouco emocionante em alguns momentos.

Mas sólido.

Naquele dia, percebi que a pessoa daquela casa que eu menos compreendia era justamente minha sogra, aquela mulher que quase sempre sorria e raramente dizia mais do que o necessário.

Caio não apareceu para o jantar.

Augusto terminou o prato e pousou os talheres.

— Liguei para ele. Disse que precisava trabalhar até mais tarde.

Olhou para Helena, depois para mim.

Suspirou.

— Ana, coma mais um pouco. Não fique pensando em trabalho agora.

Assenti e levei um pedaço de carne à boca.

Não senti gosto algum.

Helena serviu mais sopa para o marido e comentou como quem se lembrava de um detalhe sem importância:

— Faz algum tempo que a cabeça do Caio não está mais dentro da própria casa. Na semana passada, enquanto você estava viajando, Ana, ele chegou depois da meia-noite todos os dias.

Minha mão parou.

Na semana anterior eu realmente estivera três dias em Curitiba a trabalho.

Quando voltei, Caio tinha me esperado na porta com um buquê.

Dissera que estava com saudade.

Parecera tão natural.

Tão atencioso.

Eu passara o caminho inteiro falando da viagem e jamais perguntara onde ele estivera durante aqueles três dias.

— Mãe…

Apoiei os talheres.

— Desde quando você sabe?

Helena não respondeu diretamente.

Terminou de mastigar, passou o guardanapo no canto dos lábios e somente então falou:

— Quando você entrou nesta família, eu pensei que tinha muita sorte por ganhar uma nora como você.

Seus olhos encontraram os meus.

— Você sempre foi sincera com o Caio.

Senti meus olhos arderem.

— Mas sinceridade, sozinha, não sustenta uma relação. Você também precisa saber o que deve preservar, o que precisa proteger e, principalmente, quais coisas nunca deve entregar nas mãos de outra pessoa se isso significa perder a si mesma.

Baixei o rosto.

A voz dela ficou mais suave.

— Durma aqui hoje.

Ela fez uma pequena pausa.

— Eu já falei com o Caio. Amanhã ele vem e conversa direito com você.

Helena estendeu a mão por cima da mesa.

— Você não precisa ter medo.

Apertou meus dedos.

— Eu estou aqui.

Naquela noite, deitada no quarto de hóspedes, fiquei olhando para o teto durante horas.

Não consegui dormir.

Já estava quase amanhecendo quando ouvi a porta do andar de baixo se abrir.

Depois vieram passos na direção do escritório.

Pouco tempo depois, a voz de Augusto se elevou.

Eu não conseguia entender tudo.

Mas ouvi claramente:

— Fazer essa confusão toda não foi suficiente? Agora você quer trazer o problema para dentro desta casa?

Uma porta bateu.

Sentei-me na cama, coloquei um casaco e caminhei até o alto da escada.

A porta do escritório estava aberta.

A luz se espalhava pelo corredor.

Caio estava parado diante dela, de costas para mim. Os ombros subiam e desciam num ritmo mais rápido que o normal.

Quando falou, havia um cansaço irritado na voz que eu nunca tinha ouvido antes.

— Pai, afinal, o que foi que eu fiz de tão errado?

Augusto não respondeu.

Caio passou a mão pelo cabelo.

— Eu só queria que a Lívia ficasse aqui dois dias. Ela cria o filho sozinha e não pode voltar para casa…

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