
Parte 9
Ficamos alguns instantes em silêncio depois da resposta.
Eu poderia ter perguntado o conteúdo daquela conversa apagada.
Não perguntei.
O que importava não era mais a frase exata que Caio tinha escrito para Lívia. Era a decisão de apagar porque sabia que eu teria o direito de me sentir traída se visse.
— E depois disso? — perguntei.
Ele olhou para as próprias mãos.
— Ficou mais fácil repetir.
A honestidade era feia.
Talvez por isso finalmente parecesse verdade.
— No começo eu pensava antes de esconder. Depois virou rotina. Eu saía, conversava com ela, chegava em casa e separava as duas coisas na minha cabeça.
— Como se uma não tivesse relação com a outra.
— Sim.
— E quando olhava para mim?
Ele respirou fundo.
— Eu sentia culpa. Mas transformava a culpa em irritação.
Aquilo fazia sentido de uma forma dolorosa.
Nos últimos meses, Caio tinha se tornado menos paciente em pequenas discussões. Nada grande o bastante para me alarmar. Comentários sobre horários. Respostas secas. Impaciência quando eu perguntava se ele estava cansado.
Na época eu atribuía tudo ao trabalho.
— Então era mais fácil ficar irritado comigo do que admitir o que estava fazendo.
— Era.
Caio esfregou os olhos.
— Eu comecei a procurar defeitos no nosso casamento porque precisava justificar o que estava fazendo fora dele.
Encostei as costas no sofá.
Aquela era provavelmente a última peça de que eu precisava.
Não para decidir.
A decisão já estava tomada.
Mas para compreender como uma relação aparentemente estável tinha se partido sem que eu percebesse.
— Você sabe qual foi a pior coisa? — perguntei.
— O quê?
— Não foi o beijo.
Ele me olhou.
— Foi você voltar para casa e continuar me deixando viver numa realidade que só existia porque eu não tinha acesso a todas as informações.
Caio fechou os olhos.
— Eu sei.
— Não, agora você sabe. Na época, você escolheu não pensar nisso.
Ele assentiu.
Eu não precisava mais vencer a conversa.
Precisava encerrá-la.
— Tem alguma coisa que você queira me perguntar?
Caio demorou.
— Em algum momento você quase decidiu ficar?
Pensei antes de responder.
— Sim.
Ele pareceu surpreso.
— Quando?
— Nos primeiros dias.
— Antes de eu admitir tudo?
— Sim.
— Por quê?
— Porque cinco anos pesam. Porque eu amava você. Porque ir embora era assustador. Porque parte de mim queria uma explicação que transformasse aquilo num erro isolado.
Respirei fundo.
— Só que, quanto mais você falava, mais eu percebia que não tinha sido um momento. Tinha sido uma sequência de escolhas.
Caio abaixou a cabeça.
— Se eu tivesse contado no começo…
— Talvez fosse diferente.
Ele levantou os olhos.
— Talvez?
— Não vou inventar uma versão alternativa da nossa vida. Ela não existe.
Ele assentiu.
— Justo.
Conversamos durante quase duas horas.
Não descobri nenhum segredo novo.
E isso me trouxe uma paz inesperada.
Tudo que precisava ser compreendido já estava ali.
Caio tinha se sentido carente, não falou comigo, reencontrou Lívia, gostou de ser necessário para ela, permitiu que a proximidade crescesse, mentiu sobre nosso casamento, escondeu encontros, beijou-a e continuou levando para casa uma versão editada de si mesmo.
Lívia sabia que ele era casado e aceitara se envolver, embora tivesse acreditado na narrativa de que nosso casamento já estava essencialmente acabado.
Helena suspeitara de algo, mas não tinha prova.
Augusto percebera o comportamento do filho apenas parcialmente.
Eu não tinha sido a única pessoa incapaz de enxergar a situação inteira.
Caio também tinha passado meses evitando olhar para ela.
No fim da conversa, ele se levantou.
— Quero pedir uma coisa.
Meu corpo ficou tenso.
Ele percebeu.
— Não é para você voltar.
Relaxei um pouco.
— Então diga.
— Quando isso terminar legalmente, eu gostaria que você me dissesse pessoalmente. Não pelo advogado.
Observei seu rosto.
— Posso fazer isso.
— Obrigado.
Helena e Augusto voltaram pouco depois.
Tomamos café juntos.
A cena seria estranha para qualquer pessoa de fora.
Uma mulher prestes a se divorciar sentada com o marido e os sogros numa mesa cheia de pão, café e bolo.
Mas ninguém fingia normalidade.
Aquilo era outra coisa.
Era despedida.
Quando me levantei para ir embora, Augusto me abraçou.
— O aniversário ficou sem presente naquele dia.
Eu ri, surpresa.
Tínhamos esquecido completamente a razão pela qual eu e Helena estávamos no shopping.
— Ficou.
— Ainda bem.
— Por quê?
— Porque depois de tudo isso eu descobri que não preciso de mais nada em casa.
Helena bateu de leve no braço dele.
— Não acredite. Ele estava olhando uma vitrola semana passada.
Augusto protestou.
Nós rimos.
Foi um riso curto.
Mas verdadeiro.
Na porta, Helena me segurou por um instante.
— Está pronta?
Eu sabia o que ela perguntava.
— Estou.
Na semana seguinte, o acordo entrou em sua fase final.
Fizemos pequenos ajustes.
Confirmamos valores.
Assinamos documentos necessários.
Os profissionais envolvidos cuidaram da parte técnica, mas nenhuma decisão importante foi tomada sem que eu entendesse o que significava.
Caio também colaborou.
Em certo momento, um dos advogados perguntou se havia alguma possibilidade de reconciliação e se queríamos mais tempo.
Olhei para Caio.
Ele olhou para mim.
E, pela primeira vez, respondeu antes de mim.
— Não. A decisão da Ana está tomada. Eu vou respeitar.
Senti algo se acomodar dentro do peito.
Talvez respeito tardio não salvasse o casamento.
Mas ainda podia impedir que o fim fosse mais cruel do que precisava ser.
Saí daquela reunião sabendo que faltava pouco.
Naquela noite, encontrei a caixa das nossas fotografias enquanto organizava o armário.
Sentei no chão.
Olhei uma por uma.
Nosso casamento.
Uma viagem ao litoral.
Um Natal na casa dos pais dele.
Um almoço de domingo.
Caio dormindo no sofá.
Eu segurando um bolo torto no nosso primeiro aniversário.
Não rasguei nenhuma.
Também não coloquei de volta no armário principal.
Guardei tudo numa caixa menor e coloquei no alto de uma prateleira.
Aquelas imagens não precisavam ser destruídas para que eu pudesse seguir.
Elas pertenciam a uma vida que existiu.
Só não pertenciam mais ao meu futuro.
Dois dias depois, recebi a confirmação de que a última etapa do divórcio estava marcada.
Olhei a data por alguns segundos.
Então mandei uma mensagem para Caio.
“Depois que terminar, quero conversar pessoalmente como você pediu.”
Ele respondeu quase imediatamente.
“Obrigado.”
Não havia coração.
Não havia pedido.
Não havia promessa.
Apenas aquela palavra.
E eu percebi que o fim que durante semanas pareceu uma queda estava, finalmente, se transformando numa escolha.
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