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LEITURA EM PARTESParte 7 de 10

Parte 7

A decisão veio numa terça-feira comum.

Não depois de uma briga.

Não depois de uma nova descoberta.

Não depois de uma ligação inesperada.

Eu estava no supermercado escolhendo tomates quando percebi que fazia quase um mês que vivia longe de Caio e, pela primeira vez em muitos anos, minha vida não parecia suspensa.

Doeu admitir.

Mas também libertou.

Naquela noite, sentei à mesa da cozinha com papel e caneta.

Escrevi duas perguntas.

“Eu consigo perdoar?”

“Mesmo que consiga, quero reconstruir?”

A primeira resposta talvez ainda levasse tempo.

A segunda apareceu imediatamente.

Não.

Fechei os olhos.

Eu não queria punir Caio.

Não queria vê-lo destruído.

Não queria que Lívia sofresse.

Não queria transformar cinco anos de casamento numa mentira completa.

Tínhamos vivido coisas verdadeiras.

Tínhamos sido felizes em muitos momentos.

Mas o fato de uma história ter tido partes boas não obrigava ninguém a permanecer depois que sua base tinha mudado.

No dia seguinte, liguei para minha advogada.

— Quero iniciar o processo de divórcio.

Ela não comemorou.

Não me apressou.

Apenas perguntou:

— Você está segura dessa decisão?

— Estou.

Passamos a conversar sobre os próximos passos de forma prática. Como não tínhamos filhos, havia menos questões pessoais a organizar, mas ainda existiam bens, despesas e responsabilidades comuns.

Ela explicou que um acordo seria o caminho menos desgastante se ambos colaborassem.

Eu aceitei tentar.

Depois liguei para Caio.

— Preciso falar com você hoje.

Ele percebeu pela minha voz.

— Você decidiu.

— Sim.

Nos encontramos no apartamento onde tínhamos morado juntos.

Quando entrei, tive uma sensação estranha.

Não era mais “nossa casa”.

Era um espaço cheio de objetos que ainda precisavam encontrar novos donos.

Caio estava na sala.

Parecia mais magro.

— Você vai pedir o divórcio.

Não fiz suspense.

— Vou.

Ele abaixou a cabeça.

— Não tem mais nada que eu possa fazer?

— Tem muita coisa que você pode fazer.

Ele levantou os olhos.

— Pode entender por que fez isso. Pode aprender a não tratar suas carências como justificativa para ferir outras pessoas. Pode parar de mentir quando a verdade ameaça sua imagem.

Minha voz estava calma.

— Mas você precisa fazer essas coisas por você, não como preço para me recuperar.

Caio sentou.

— Eu posso mudar.

— Acredito que pode.

Ele pareceu surpreso.

— Então por quê?

— Porque eu não preciso permanecer para provar que sua mudança é real.

O silêncio que veio depois foi pesado, mas diferente dos anteriores.

Não havia mais negociação escondida dentro dele.

Caio passou as mãos pelo rosto.

— Eu achei que você nunca iria embora.

Aquilo me atingiu.

— Eu sei.

Ele olhou para mim.

— Acho que esse foi parte do problema.

— Também acho.

Sentamos em lados opostos da sala e começamos a conversar sobre questões concretas.

Quem permaneceria temporariamente no apartamento.

Como dividiríamos móveis.

Quais despesas precisavam ser mantidas até a formalização.

Quais documentos seriam enviados aos advogados.

Nenhuma decisão aconteceu em cinco minutos.

Nenhum papel resolveu nossa vida numa assinatura.

Mas cada item discutido transformava algo abstrato em real.

Meu casamento estava acabando.

E eu estava participando conscientemente do fim.

Em determinado momento, Caio apontou para uma caixa perto da estante.

— Suas coisas estão ali.

Abri.

Livros.

Fotografias.

Alguns objetos pessoais.

No fundo estava o conjunto de chá que eu e Helena tínhamos ido ver no shopping naquele dia.

Eu ainda nem chegara a comprar.

Caio tinha comprado depois.

Olhei para ele.

— Por quê?

— Não sei.

Ele deu um sorriso triste.

— Acho que tentei consertar tudo comprando as coisas certas.

Fechei a caixa.

— Fique com ele.

— Eu comprei para você.

— Foi comprado depois que tudo aconteceu. Não é uma lembrança que eu quero carregar.

Caio não insistiu.

Quando saí do apartamento, Helena me esperava no térreo.

Eu não tinha pedido.

Ela apenas apareceu.

— Ele ligou para você? — perguntei.

— Não.

— Então como sabia?

— Não sabia.

Apontou para uma cafeteria do outro lado da rua.

— Eu estava ali. Pensei que talvez você quisesse companhia depois.

Sorri, apesar de tudo.

Caminhamos juntas.

— Eu pedi o divórcio.

Helena diminuiu o passo.

Por alguns segundos, seus olhos ficaram úmidos.

Ela era mãe.

Eu nunca esqueci disso.

— Está decidida?

— Sim.

Ela assentiu.

— Então eu respeito.

— A senhora está triste?

— Muito.

— Comigo?

Helena me olhou quase ofendida.

— Ana, não transforme minha tristeza em culpa sua.

Segurou minha mão.

— Eu estou triste porque uma família que eu amava mudou. Mas foi meu filho quem tomou as decisões que nos trouxeram até aqui.

Engoli o nó na garganta.

— Eu não quero perder vocês.

— Então não nos perca.

— Mas não vai ser estranho?

— Vai.

Helena sorriu.

— Coisas verdadeiras às vezes são estranhas.

Naquela noite, Caio contou aos pais sobre o divórcio.

Augusto não tentou impedi-lo.

Também não me telefonou para convencer que eu reconsiderasse.

Mandou apenas uma mensagem:

“Respeito sua decisão. Você continua sendo alguém muito importante para nós.”

Eu chorei.

Dessa vez não de desespero.

Chorei pelo luto de algo que não podia continuar da mesma forma.

Nos dias seguintes, Caio começou a colaborar com o processo.

Não sem dor.

Não sem algumas tentativas de conversar novamente.

Mas, pouco a pouco, ele parou de perguntar o que poderia fazer para me convencer a voltar.

Começou a perguntar o que precisava fazer para encerrar as coisas corretamente.

Essa mudança não salvou nosso casamento.

Mas devolveu alguma dignidade ao fim dele.

Duas semanas depois, estávamos revisando a primeira proposta de acordo quando Caio me disse:

— A Lívia me procurou.

Levantei os olhos.

— E?

— Disse que não quer mais contato.

— Certo.

Ele respirou.

— Ela disse que nós dois usamos um ao outro para evitar olhar para os próprios problemas.

Fiquei alguns segundos em silêncio.

— Talvez ela tenha razão.

Caio assentiu.

Depois colocou o documento de volta sobre a mesa.

Pela primeira vez, percebi que ele não estava tentando me provocar ciúme, pena ou esperança.

Estava apenas aceitando que as consequências já tinham começado.

E agora não havia como voltar para o momento anterior ao shopping.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

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