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LEITURA EM PARTESParte 1 de 10

Parte 1

— Senhor, a senhora Marina embarcou para Toronto hoje cedo. É melhor o senhor vir para casa.

Quando Henrique Ferraz voltou à mansão no dia seguinte, decidido a pedir desculpas pelo que havia acontecido na festa, foi assim que o administrador da casa o recebeu.

Mas, até poucas horas antes, Henrique ainda não tinha entendido que um único empurrão havia partido ao meio tudo o que Marina tentara preservar durante três anos.

— Marina, eu juro que não fiz de propósito. Só esbarrei no vaso sem querer…

A voz de Isadora Ferraz tremia como se ela estivesse prestes a chorar.

A jovem permanecia escondida atrás do irmão, apertando com força a manga do paletó dele, enquanto dezenas de convidados observavam a cena no salão iluminado.

Marina não disse nada.

Aos pés dela, os pedaços de porcelana azul estavam espalhados sobre o mármore.

Aquele não era apenas um objeto caro.

Era parte do enxoval que sua avó lhe deixara e a única lembrança que Marina havia trazido da casa onde crescera, no interior de Minas Gerais, quando se mudou definitivamente para São Paulo depois de entrar para a família Ferraz.

Ela ainda tentava organizar as palavras quando Henrique se virou para ela.

O rosto dele estava frio.

— Já chega.

Ele não precisou elevar a voz.

O salão inteiro pareceu se calar ao mesmo tempo.

— É só um vaso, Marina. Quebrou, acabou. Você precisa mesmo deixar a Isadora desse jeito na frente de tanta gente?

Os lábios de Marina se entreabriram.

Ela queria dizer que não era “só um vaso”.

Queria explicar que sua avó guardara aquela peça durante décadas. Que ela conhecia cada pequeno desenho azul pintado na porcelana. Que, depois da morte da avó, aquele objeto passara a representar uma casa que já não existia mais.

Mas Marina não teve tempo.

Henrique ergueu a mão e a empurrou.

Não foi um golpe violento.

Talvez, na cabeça dele, tivesse sido apenas um gesto para afastá-la.

Só que Marina estava de salto alto e o piso de mármore era liso.

Ela perdeu o equilíbrio.

Seu corpo foi para trás e as costas atingiram com força a lateral de uma mesa. A toalha veio junto, derrubando taças, pratos e talheres com um estrondo que cortou o silêncio.

Vinho tinto escorreu pela borda e respingou sobre o vestido branco de Marina.

As manchas vermelhas se espalharam pelo tecido.

Por um instante, pareciam sangue.

— Henrique!

Alguém gritou perto deles.

O próprio Henrique ficou imóvel.

O susto atravessou seu rosto por um segundo. Ele claramente não esperava que Marina caísse.

Mas a expressão desapareceu depressa.

Isadora colocou a cabeça para fora do abrigo formado pelas costas do irmão.

Um brilho rápido passou pelos olhos dela.

Quase satisfação.

Logo depois, o rosto tornou a assumir uma expressão frágil.

— Henrique, não fica bravo com a Marina. A culpa foi minha…

— Não tem nada a ver com você.

Henrique segurou o pulso da irmã.

— Vamos. Eu levo você para casa.

E foi exatamente isso que fez.

Ele atravessou o salão com Isadora ao lado, passando pelos convidados que cochichavam, sem olhar uma única vez para trás.

Marina continuou sentada no chão.

Os funcionários correram para ajudá-la.

Uma garçonete ofereceu guardanapos.

Outro funcionário perguntou se ela precisava ir ao hospital.

Marina balançou a cabeça.

Apoiou a mão na mesa e se levantou devagar.

A pele de um dos joelhos estava raspada. A ardência era intensa.

Ainda assim, não era ali que mais doía.

A pior dor se espalhava lentamente pelo peito.

Não tinha vindo como um choque.

Era mais parecida com uma lâmina sem fio pressionada contra o mesmo lugar, uma vez após outra, até que já não fosse possível ignorar o ferimento.

Marina e Henrique estavam casados havia três anos.

Três anos antes, ela ainda era uma jovem fotógrafa recém-formada em Artes Visuais.

Trabalhava em um pequeno estúdio, ganhava pouco mais de R$ 3 mil por mês e alugava um apartamento minúsculo na periferia de São Paulo.

Naquele verão, fora contratada para fotografar um evento beneficente.

Por acaso, sua lente capturara Henrique de perfil.

Marina só descobriu depois que a mãe dele tinha visto aquela fotografia.

A mulher gostara tanto da imagem que pediu para encontrarem a fotógrafa e a convidassem para fazer um ensaio da família.

Marina aceitou.

A mansão dos Ferraz era enorme.

Tão grande que, quando entrou pela primeira vez, sentiu que havia atravessado uma porta para um mundo ao qual jamais pertencera.

A mãe de Henrique, porém, recebeu-a com tanta delicadeza que a sensação de desconforto diminuiu.

A mulher segurou suas mãos, elogiou as fotografias e passou boa parte da tarde conversando com ela.

— Suas fotos têm sentimento — disse. — Hoje em dia é difícil encontrar gente jovem tão dedicada e tão sincera no que faz.

Marina ficou quase constrangida com tantos elogios.

Naquele momento, não poderia imaginar o quanto aquela visita mudaria sua vida.

Henrique não estava em casa.

Quando terminou o trabalho, Marina guardou o equipamento e foi embora.

Alguns dias depois, a mãe dele telefonou.

Disse que gostaria de agradecê-la com um almoço.

Marina aceitou outra vez.

No início, havia apenas as duas à mesa.

Estavam na metade da refeição quando Henrique apareceu.

Vestia uma camisa cinza-escura, com as mangas dobradas até os antebraços, e parecia ter acabado de sair do escritório.

Assim que viu Marina, ele parou por um breve instante.

Talvez não esperasse que a fotógrafa de quem a mãe falava fosse tão jovem.

— Esta é Marina Alves, a moça de quem falei — apresentou a mãe. — Foi ela quem fez aquelas fotos.

Henrique assentiu.

Sentou-se diante dela.

Não disse quase nada.

Aquele almoço foi tão silencioso que Marina mal teve coragem de levantar os olhos.

Para ela, Henrique parecia pertencer a uma realidade distante.

Bonito, reservado, dono de uma carreira consolidada e acostumado a ambientes que ela só conhecia por trabalhos de fotografia.

Parecia inalcançável.

Por isso, Marina quase achou que tivesse entendido errado quando, cerca de um mês depois, a mãe dele voltou a procurá-la.

Dessa vez, a mulher foi direta.

— Você aceitaria sair com meu filho?

Marina ficou sem reação.

Chegou a rir, acreditando que fosse uma brincadeira.

Mas a mãe de Henrique continuou séria.

— Ele é muito fechado. Nunca soube lidar bem com relacionamentos. Mas eu percebi que ficou interessado em você.

Marina nunca descobriu exatamente como aquela mulher chegara a essa conclusão.

O que sabia era que ela mesma já havia se interessado por Henrique.

Não era difícil.

Ele era atraente, maduro, bem-sucedido e tinha uma presença difícil de ignorar.

Marina aceitou.

O namoro, no entanto, foi muito mais tranquilo do que ela imaginara.

Henrique trabalhava demais.

Encontrarem-se duas vezes por semana já era considerado muito.

Os encontros também não tinham nada de extraordinário.

Jantavam.

Iam ao cinema.

Em alguns fins de semana, viajavam para alguma cidade próxima.

Henrique falava pouco, mas prestava atenção.

Lembrava o que Marina gostava de comer.

Sabia o que ela não suportava.

Quando a temperatura caía, mandava uma mensagem lembrando-a de levar um casaco.

Para Marina, aquilo bastava.

Ela nunca sonhara com grandes demonstrações.

Tudo o que desejava era um lar tranquilo.

Seis meses depois, eles se casaram.

O casamento foi grandioso.

A família Ferraz reservou um dos hotéis mais caros de São Paulo, e só a decoração floral custou mais de R$ 200 mil.

Marina vestiu um vestido feito sob medida e caminhou sobre um corredor coberto de pétalas, vendo Henrique esperá-la no outro extremo.

Naquele instante, teve certeza de que era a mulher mais feliz do mundo.

O que ela ainda não sabia era que algumas felicidades vencem antes mesmo de a gente perceber que existe uma data de validade.

No primeiro mês depois do casamento, tudo pareceu perfeito.

Henrique continuava ocupado, mas fazia questão de voltar para jantar.

Nos fins de semana, ficava em casa.

Às vezes, os dois simplesmente se acomodavam no sofá, dividiam uma manta e assistiam a um filme até tarde.

E Marina acreditava que aquilo seria suficiente para construir uma vida inteira.

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