Stories · Emotions · Life

LEITURA EM PARTESParte 3 de 10

Parte 3

Toronto recebeu Marina com um vento frio que parecia atravessar o casaco. Ela pegou um táxi no aeroporto e foi para um pequeno apartamento mobiliado que alugara por algumas semanas. Não havia empregados, corredores silenciosos nem uma mesa de jantar comprida demais para duas pessoas. Havia apenas uma cama, uma cozinha estreita, uma janela voltada para prédios comuns e um sossego que, naquela manhã, parecia mais luxuoso do que qualquer coisa que existisse na mansão Ferraz.

Henrique continuou ligando durante o dia. Marina não atendeu. Ele enviou mensagens curtas no início, depois textos mais longos. Em um deles, dizia que perdera a cabeça ao vê-la pressionar Isadora diante dos convidados. Em outro, reconhecia que jamais deveria tê-la empurrado.

Marina leu aquela segunda mensagem duas vezes. A primeira parte ainda tentava explicar o inexplicável. A segunda, ao menos, assumia o gesto. Mesmo assim, ela não respondeu.

Durante três dias, sua rotina se resumiu a caminhar, dormir mal e fotografar. Marina saía cedo com a câmera e registrava desconhecidos esperando o bonde, vitrines molhadas pela chuva, idosos alimentando pássaros e crianças correndo diante das escolas. Não buscava imagens bonitas. Buscava sentir outra vez o prazer de observar o mundo sem precisar ocupar o papel de esposa de alguém.

No quarto dia, abriu uma pasta antiga no computador.

Ali estavam ensaios feitos antes do casamento.

Retratos.

Eventos pequenos.

Projetos autorais.

Marina passou quase uma hora olhando aquelas imagens. Foi desconfortável perceber que reconhecia melhor aquela jovem fotógrafa do que a mulher em que havia se transformado nos últimos anos.

Henrique, em São Paulo, começava a descobrir o tamanho do silêncio deixado pela ausência dela. No primeiro dia, acreditou que Marina voltaria depois de esfriar a cabeça. No segundo, pediu ao administrador da casa que avisasse assim que ela fizesse contato. No terceiro, entrou no antigo espaço de trabalho dela e percebeu que vários equipamentos haviam permanecido guardados durante meses.

A constatação o incomodou.

Henrique sempre dissera que nunca proibira Marina de trabalhar.

Era verdade.

Mas outra verdade começou a se formar ao lado daquela: ele também nunca perguntara por que ela havia parado quase completamente.

Naquela noite, a mãe dele apareceu na mansão.

Ela já sabia da festa.

— Você empurrou sua esposa?

Henrique não tentou negar.

— Foi um impulso. Eu não queria derrubá-la.

— Não perguntei se queria derrubar. Perguntei se empurrou.

— Empurrei.

A mãe permaneceu alguns segundos olhando para o filho.

— Então pare de tratar o resultado como se fosse um mal-entendido.

Henrique apertou a mandíbula.

— Eu vou consertar isso.

— Não sei se ainda é você quem decide.

A frase o acompanhou pelo resto da noite.

Em Toronto, Marina finalmente respondeu a uma única mensagem.

“Estou bem. Preciso de distância. Não venha atrás de mim agora.”

Henrique respondeu quase imediatamente.

“Quanto tempo?”

Marina ficou encarando a pergunta.

Era exatamente aquilo que a incomodava. Mesmo naquele momento, ele queria um prazo. Uma estrutura. Uma garantia de que ela voltaria a ocupar o lugar de sempre.

Ela não respondeu.

No dia seguinte, Marina procurou uma advogada brasileira por videoconferência. Não queria iniciar nenhuma guerra. Queria entender, com clareza, o que significaria uma separação caso decidisse não voltar para o casamento.

A conversa durou mais de uma hora.

Marina ouviu explicações gerais sobre documentos, patrimônio, organização prática e caminhos possíveis. Não tomou nenhuma medida definitiva naquele dia. Porém, ao encerrar a chamada, sentiu algo diferente do desespero.

Pela primeira vez, havia opções.

Isso mudou sua postura.

Naquela mesma tarde, um antigo contato profissional de Toronto respondeu a uma mensagem que ela havia enviado. Era uma produtora com quem Marina trabalhara anos antes, durante uma campanha curta no Canadá. Precisavam de uma fotógrafa para auxiliar em dois trabalhos nas semanas seguintes.

Não era um contrato milionário.

Não era uma oportunidade capaz de transformar sua vida da noite para o dia.

Era apenas trabalho.

E talvez por isso significasse tanto.

Marina aceitou.

No primeiro ensaio, suas mãos tremeram ligeiramente quando ajustou a lente. A insegurança durou poucos minutos. Depois, o instinto voltou. Ela se movimentou pelo estúdio, corrigiu a luz, orientou os modelos e reencontrou uma parte de si que julgara adormecida.

No fim do dia, recebeu o pagamento combinado.

Ficou olhando a notificação bancária com os olhos ardendo.

Não era o valor.

Era o significado.

Ela ainda sabia fazer alguma coisa que era só sua.

Na mesma noite, Henrique ligou outra vez.

Dessa vez, Marina atendeu.

Nenhum dos dois falou de imediato.

— Marina…

A voz dele parecia diferente. Menos firme.

— Eu disse que precisava de distância.

— Eu sei. Não vou para Toronto.

Ela fechou os olhos por um instante.

Não esperava ouvir aquilo.

— Então por que está ligando?

— Porque preciso saber se você pretende voltar.

Marina olhou para a câmera sobre a mesa.

— Para São Paulo, sim.

Henrique soltou o ar.

— Então…

— Não terminei. Eu vou voltar para resolver minha vida. Isso não significa que vou voltar para o casamento.

O silêncio do outro lado tornou-se pesado.

— Você está falando em separação?

— Estou falando que, pela primeira vez, estou pensando seriamente nela.

— Por causa daquela noite?

Marina sentiu a antiga vontade de explicar tudo desaparecer.

— Se você ainda acha que foi por causa de uma noite, então ainda não entendeu nada.

Henrique não respondeu.

Marina continuou:

— Eu passei três anos sendo a pessoa que precisava compreender tudo. Seu trabalho. Sua rotina. Sua irmã. Sua família. Suas ausências. Na festa, quando você me empurrou e foi embora com a Isadora, eu percebi que até quando eu era a pessoa ferida ainda esperavam que eu fosse razoável.

— Eu errei.

— Errou.

Foi a primeira vez que ela ouviu aquela palavra sem uma justificativa logo depois.

Mesmo assim, Marina não sentiu alívio.

— Vou ficar aqui mais alguns dias — disse. — Depois volto. E quando eu voltar, nós vamos conversar como dois adultos. Sem a sua irmã. Sem a sua mãe. Sem ninguém.

— Certo.

Henrique parecia querer dizer mais alguma coisa.

Marina não deu espaço.

— Boa noite.

Ela encerrou a chamada.

Em São Paulo, Henrique permaneceu com o celular na mão por um longo tempo.

Depois saiu do escritório e foi até o apartamento de Isadora.

A irmã abriu a porta de pijama, surpresa ao vê-lo.

— Henrique? O que aconteceu?

Ele entrou sem responder de imediato.

Pela primeira vez desde a festa, não estava ali para consolá-la.

— Quero que você me conte exatamente o que aconteceu com aquele vaso.

O sorriso de Isadora desapareceu.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

DESCUBRA MAIS

Histórias mais recentes

Comece sempre pela Parte 1