
Parte 8
Os meses seguintes foram menos dramáticos do que Marina imaginara.
E talvez por isso tenham sido tão importantes.
Não houve uma grande guerra entre famílias.
Henrique não tentou usar dinheiro para pressioná-la.
Isadora não apareceu novamente sem ser convidada.
A vida simplesmente começou a se reorganizar ao redor da decisão que Marina havia tomado.
O estúdio ganhou clientes.
Nada aconteceu de repente.
Um trabalho trouxe outro.
Uma marca indicou Marina para uma agência.
Uma família que gostou dos retratos voltou para outro ensaio.
Ela continuava fazendo contas, negociando prazos e recusando trabalhos ruins.
Era cansativo.
Mas era um cansaço que lhe pertencia.
Certa manhã, Marina recebeu uma proposta para participar de uma exposição coletiva de fotógrafos brasileiros em Toronto.
Ela leu o convite com um sorriso involuntário.
A cidade para onde viajara para fugir se transformara no lugar de onde surgira uma nova oportunidade profissional.
Dessa vez, a ideia de voltar não tinha nada a ver com Henrique.
Marina aceitou.
Antes da viagem, a mãe dele pediu para visitar o estúdio.
Chegou sozinha e trouxe apenas uma planta pequena.
— Isso eu aceito — brincou Marina.
A mulher sorriu.
Caminhou pelo espaço e parou diante do vaso restaurado.
— Ficou bonito.
— Ficou diferente.
— Às vezes é a mesma coisa.
Marina não respondeu.
Pouco depois, Isadora também foi mencionada.
— Ela está diferente — disse a mãe.
Marina levantou uma sobrancelha.
— Espero que por ela mesma.
— Eu também.
A mulher não insistiu.
Antes de ir embora, abraçou Marina.
Não disse “nora”.
Não pediu que reconsiderasse o divórcio.
Disse apenas:
— Tenho orgulho de você.
Marina ficou emocionada.
— Obrigada.
Aquela despedida encerrou um medo que ela não percebera carregar: o de que sair do casamento significaria apagar todos os afetos construídos durante os três anos anteriores.
Nem tudo precisava permanecer.
Mas nem tudo precisava ser destruído.
Henrique, por sua vez, mudara sua relação com Isadora de forma visível.
Quando a irmã ligava por problemas que podia resolver sozinha, ele perguntava:
— O que você já tentou fazer?
No começo, Isadora se irritava.
Depois começou a responder.
Uma noite, o carro dela apresentou problema no estacionamento.
O impulso foi telefonar para Henrique.
Ela chegou a abrir o contato.
Parou.
Chamou a assistência.
Resolveu.
Quando contou ao irmão dias depois, ele riu.
— Viu?
Isadora revirou os olhos.
— Não se acostuma.
Era uma conversa banal.
Mas representava uma nova relação.
Henrique já não precisava ser salvador.
Isadora já não precisava ser resgatada.
O preço para aprender aquilo havia sido alto demais.
Henrique sabia.
Ele também soube da exposição em Toronto.
A mãe mencionou durante o jantar.
— Marina vai voltar para lá no mês que vem.
Henrique pousou os talheres.
— A trabalho?
— Sim.
Ele sentiu uma fisgada difícil de definir.
Meses antes, Toronto significara abandono.
Agora significava carreira.
A diferença deixava claro o quanto Marina havia avançado sem ele.
— Ela está bem? — perguntou.
A mãe sorriu de leve.
— Acho que sim.
Henrique não pediu detalhes.
Na semana anterior à viagem, Marina encontrou Isadora novamente.
Dessa vez, foi por acaso.
As duas estavam na mesma livraria.
Isadora percebeu Marina primeiro.
Hesitou antes de se aproximar.
— Oi.
— Oi.
Houve um desconforto breve.
— Fiquei sabendo da exposição — disse Isadora.
— Sua mãe contou?
— Contou.
— Vou na semana que vem.
Isadora sorriu.
— Parabéns.
— Obrigada.
A jovem olhou para a bolsa de Marina.
Um pequeno pingente azul estava preso ao zíper.
Era feito de um pedaço de porcelana que não pudera ser reintegrado ao vaso.
Isadora reconheceu.
Seu rosto mudou.
— É daquele vaso?
Marina assentiu.
— A ceramista disse que esse fragmento não encaixava mais.
Isadora baixou os olhos.
— Eu sinto muito.
Marina percebeu que, pela primeira vez, a frase não vinha acompanhada de medo sobre as consequências.
Era apenas arrependimento.
— Eu sei.
Isadora ergueu a cabeça.
— Você me perdoa?
Marina demorou.
— Acho que estou começando.
A resposta não era total.
Mas era verdadeira.
Isadora assentiu.
— Já é mais do que eu merecia esperar.
Elas se despediram sem abraço.
Mesmo assim, ambas saíram daquela conversa diferentes.
Dois dias depois, a advogada de Marina telefonou.
Faltava apenas um encontro final para concluir os últimos termos antes da formalização do divórcio.
Henrique já havia concordado com tudo.
— Ele pediu apenas para estar presente pessoalmente nessa última conversa — explicou a advogada.
Marina ficou em silêncio.
— Você pode recusar — acrescentou.
Ela olhou para a passagem de Toronto sobre a mesa.
Meses antes, teria evitado qualquer encontro.
Agora, não sentia medo.
— Não precisa recusar.
— Tem certeza?
Marina tocou de leve o pingente azul da bolsa.
— Tenho.
Ela já não precisava fugir de Henrique para manter sua decisão.
E percebeu que essa talvez fosse a prova mais clara de que estava pronta para encerrá-la diante dele.
A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇














