
Parte 2
Com o passar dos meses, porém, Marina começou a perceber que havia uma pessoa capaz de interromper qualquer plano dos dois: Isadora. Bastava a irmã de Henrique ligar, e um jantar podia ser cancelado, um fim de semana adiado ou uma conversa interrompida. No começo, Marina não reclamava. Dizia a si mesma que era natural um irmão cuidar da irmã mais nova.
O problema não era Isadora precisar dele de vez em quando. Era Henrique agir como se qualquer necessidade da irmã fosse automaticamente mais urgente do que tudo relacionado à esposa. Quando Marina tentava comentar, ele respondia que Isadora era imatura e precisava de apoio. Depois acrescentava que Marina era mais sensata e saberia compreender.
Durante muito tempo, ela confundiu essa frase com confiança. Só depois percebeu que, na prática, significava que sempre caberia a ela ceder. Isadora podia se irritar, chorar, fazer cena ou mudar de ideia. Marina precisava ser a adulta compreensiva.
Aos poucos, Marina também foi reduzindo seus trabalhos. Não porque Henrique exigisse, mas porque a rotina da família Ferraz engolia seu tempo sem que ela percebesse. Havia almoços, recepções, compromissos sociais e viagens nas quais sua presença parecia esperada. A câmera que antes saía de casa todos os dias passou a ficar semanas guardada.
Na noite do vaso, todo esse desgaste encontrou um ponto de ruptura. Depois que Henrique foi embora com Isadora, Marina permaneceu alguns minutos no salão até conseguir controlar a respiração. Em seguida, pediu uma caixa e recolheu pessoalmente os pedaços maiores da porcelana.
Ninguém tentou impedi-la. Alguns convidados desviaram o olhar, constrangidos. Outros fingiram conversar. Marina saiu levando a caixa nos braços, ainda com o vestido manchado e o joelho ferido.
Quando chegou à mansão, Henrique ainda não havia voltado. O administrador da casa perguntou se precisava de ajuda, mas Marina apenas pediu gelo para o joelho. Depois subiu para o quarto, tomou banho e colocou roupas simples.
Diante do espelho, ela ficou olhando a própria aliança durante muito tempo. A discussão sobre o vaso já não parecia a questão principal. O que doía era lembrar do rosto de Henrique enquanto dizia que ela estava constrangendo Isadora, como se Marina fosse a agressora daquela cena.
Pela primeira vez, ela não procurou uma justificativa para ele. Não pensou que estivesse cansado, preocupado ou tentando evitar um escândalo. Limitou-se a admitir uma coisa simples: Henrique escolhera protegê-la menos do que proteger a irmã. E fizera isso publicamente.
Marina abriu o notebook. Havia meses adiava uma viagem para Toronto, cidade que conhecera em um trabalho de fotografia e onde ainda mantinha alguns contatos profissionais. Não precisava decidir o resto da vida naquela noite. Precisava apenas sair de um lugar onde já não conseguia respirar.
Comprou a primeira passagem disponível para a manhã seguinte. Separou uma mala pequena, documentos, câmera e algumas roupas. Não levou joias da família Ferraz nem objetos caros. Dentro da bolsa, guardou apenas um fragmento azul do vaso da avó.
Henrique não voltou naquela madrugada. Depois de deixar Isadora em casa, permaneceu fora, convencido de que seria melhor conversar quando ambos estivessem mais calmos. Na cabeça dele, tratava-se de uma briga séria, mas ainda assim de uma briga de casal.
Marina saiu antes do amanhecer. Ao administrador da casa, disse apenas que viajaria e que Henrique seria informado quando voltasse. Não pediu que escondesse nada. Também não deixou uma cena preparada para que ele encontrasse.
Horas depois, Henrique atravessou a porta da mansão trazendo o peso de uma noite mal dormida e a decisão de pedir desculpas. Foi então que ouviu a frase que o fez parar no meio do hall: Marina havia embarcado para Toronto.
Ele ligou imediatamente. Uma vez. Duas. Dez. Quando o avião pousou, Marina viu a tela cheia de chamadas perdidas. Entre as mensagens, havia uma de Henrique: “Eu errei. Precisamos conversar.”
Ela leu, bloqueou a tela e permaneceu sentada por alguns instantes, observando as pessoas atravessarem o aeroporto com malas e pressa. Então retirou a aliança, colocou-a dentro da bolsa, ao lado do fragmento azul de porcelana, e se levantou. Pela primeira vez em três anos, não tomou uma decisão pensando no que Henrique esperaria dela.
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