
Parte 4
Isadora cruzou os braços.
— Eu já contei. Esbarrei sem querer.
Henrique permaneceu de pé diante dela.
— Não estou perguntando apenas sobre o vaso. Estou perguntando sobre tudo o que aconteceu depois.
A irmã desviou os olhos.
— Marina ficou olhando para mim como se eu tivesse feito de propósito.
— E fez?
— Não.
A resposta veio rápida.
Henrique observou o rosto dela.
— Então por que você se escondeu atrás de mim?
Isadora se irritou.
— Porque ela estava furiosa.
— Ela disse alguma coisa contra você?
A jovem abriu a boca, mas não respondeu.
Henrique insistiu.
— Ela gritou? Encostou em você? Ameaçou você?
— Não precisava. Dava para ver na cara dela.
Foi naquele momento que Henrique entendeu algo que antes jamais questionara: durante anos, bastava Isadora se sentir desconfortável para ele assumir que alguém a estava atacando.
Ele passara tanto tempo protegendo a irmã que deixara de perguntar do que exatamente a estava protegendo.
— Eu empurrei minha esposa por causa disso.
Isadora revirou os olhos.
— Você está jogando isso em cima de mim agora?
— Não. O empurrão foi meu. A escolha foi minha. Estou tentando entender por que fiz tantas escolhas sem pensar.
— Marina está colocando você contra mim.
Henrique ficou imóvel.
— Marina está em outro país.
A frase desmontou a acusação.
Isadora apertou os braços contra o corpo.
— Ela sempre quis que você se afastasse de mim.
— Quando?
— Como assim?
— Me dá um exemplo.
Isadora não conseguiu.
Henrique deixou o apartamento pouco depois, mais inquieto do que chegara.
Toronto, entretanto, não trouxe respostas simples para Marina. Ela se sentia melhor trabalhando, mas à noite continuava acordando e procurando, por hábito, o outro lado da cama. Havia momentos em que sentia saudade de Henrique com uma força quase irritante.
Aquilo a confundia.
Ela ainda o amava.
E odiava descobrir que amor e decisão podiam caminhar em direções diferentes.
Uma semana depois, Marina voltou ao Brasil.
Não avisou à família Ferraz o horário do voo. Reservou um quarto em um hotel e pediu ao administrador da mansão que separasse algumas roupas e seus equipamentos.
Henrique descobriu que ela havia chegado quando recebeu uma mensagem dela.
“Podemos conversar amanhã às 15h. Prefiro em um lugar neutro.”
Ele respondeu apenas: “Estarei lá.”
Encontraram-se em uma sala reservada de um hotel.
Henrique chegou antes.
Quando Marina entrou, ele se levantou imediatamente.
Ela estava diferente, embora talvez nada em sua aparência tivesse realmente mudado. Vestia calça escura, camisa branca e carregava uma pasta fina debaixo do braço.
Sem aliança.
O olhar de Henrique caiu sobre a mão esquerda dela.
Marina percebeu.
Não tentou escondê-la.
— Obrigado por vir — disse ele.
— Eu que marquei.
O constrangimento foi instantâneo.
Henrique puxou a cadeira, mas Marina sentou-se sozinha.
Ele ficou diante dela.
— Quero começar dizendo que sinto muito.
Marina esperou.
— Eu não devia ter colocado a mão em você. Não importa o que eu estivesse pensando naquele momento.
— Certo.
Henrique pareceu desconcertado com a resposta curta.
— Eu sei que “desculpa” não apaga.
— Não apaga.
— Marina, eu estou tentando.
Ela respirou lentamente.
— Henrique, o problema é que você ainda está falando do empurrão como se ele tivesse surgido do nada.
— Não surgiu.
— Então de onde surgiu?
Ele não respondeu de imediato.
Marina continuou:
— Surgiu de três anos em que você decidiu que a Isadora precisava mais de você do que eu, em qualquer situação. Surgiu de todas as vezes em que eu cedi porque você dizia que eu era mais madura. Surgiu de você acreditar que eu aguentaria qualquer coisa porque nunca fiz escândalo.
Henrique baixou os olhos.
— Talvez eu tenha me acostumado.
— Exatamente.
— Isso pode mudar.
— Pode. Mas não significa que eu precise continuar casada esperando.
A frase caiu entre os dois.
Henrique ergueu a cabeça.
— Você decidiu?
Marina abriu a pasta.
Dentro havia anotações e uma lista de documentos que sua advogada havia solicitado caso ela seguisse adiante.
— Eu quero o divórcio.
Henrique empalideceu.
— Não.
Marina não se alterou.
— Não é uma pergunta.
— Três anos, Marina. Você vai jogar três anos fora?
Ela sentiu o peito apertar.
— Não fale comigo como se eu tivesse feito isso sozinha.
Henrique passou a mão pelo rosto.
— Me dá tempo.
— Tempo para quê?
— Para mostrar que eu consigo mudar.
— Você pode mudar sem me usar como teste.
Ele ficou em silêncio.
Dessa vez, não havia argumento capaz de devolver a situação ao lugar conhecido.
Quando Marina se levantou, Henrique não tentou segurá-la.
— Eu vou colaborar com o que precisar — disse por fim. — Só não consigo dizer que aceito isso.
Marina pegou a pasta.
— Você não precisa gostar. Precisa respeitar.
Ao sair da sala, ela encontrou Isadora no corredor.
A jovem havia descoberto onde o irmão estava e aparecera sem ser convidada.
— Marina.
Ela parou.
Isadora parecia nervosa, mas a irritação veio antes do pedido de desculpas.
— Você está mesmo destruindo seu casamento por causa de um vaso?
Marina a encarou por alguns segundos.
— Não.
— Então por quê?
— Pergunte ao seu irmão.
Isadora soltou uma risada curta.
— Isso é ridículo. Todo mundo comete erros.
— Concordo.
Marina se aproximou um passo.
— Mas depois de errar, algumas pessoas assumem. Outras procuram alguém para culpar.
Isadora ficou vermelha.
— Você sempre se achou melhor do que eu.
Antes que Marina respondesse, a porta da sala se abriu.
Henrique apareceu.
Isadora imediatamente virou-se para ele.
— Henrique, explica para ela…
— Chega, Isadora.
As duas mulheres ficaram imóveis.
Era a primeira vez que Marina o ouvia usar aquele tom com a irmã.
— Você veio sem eu pedir — continuou Henrique. — E está repetindo exatamente o que fez naquela noite.
— Eu só estou tentando ajudar.
— Não está.
Isadora olhou para ele como se tivesse recebido um tapa.
Henrique apontou para o elevador.
— Vai para casa.
Marina não sentiu satisfação.
Também não sentiu esperança.
Apenas percebeu que Henrique finalmente conseguia fazer algo que durante três anos parecera impossível: estabelecer um limite com a irmã.
O problema era que aquele limite chegara depois que Marina já havia decidido estabelecer o próprio.
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