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LEITURA EM PARTESParte 9 de 10

Parte 9

O encontro foi marcado para dois dias antes da viagem de Marina.

A sala era simples.

Nada lembrava os ambientes luxuosos da família Ferraz.

Havia uma mesa, quatro cadeiras, água e pastas organizadas.

Marina chegou com sua advogada.

Henrique já estava lá com o advogado dele.

Quando os olhos dos dois se encontraram, não houve choque.

Apenas reconhecimento.

A conversa começou pelos pontos práticos.

Documentos.

Bens pessoais.

Questões financeiras.

Nada se transformou em disputa.

Henrique cumpriu o que prometera.

Não tentou usar o processo para adiar o inevitável.

Quando os profissionais terminaram, a advogada de Marina perguntou se ela queria ir embora.

Henrique falou antes.

— Posso pedir cinco minutos?

A advogada olhou para Marina.

Ela assentiu.

Os dois profissionais saíram.

Henrique e Marina ficaram sozinhos.

Por alguns segundos, nenhum deles falou.

Então Henrique tirou do bolso uma fotografia.

Colocou sobre a mesa.

Era antiga.

Mostrava os dois no primeiro ano de casamento, sentados no sofá da mansão. Marina estava descalça, com a cabeça apoiada no ombro dele.

— Encontrei isso enquanto organizava algumas coisas.

Marina olhou.

Uma parte dela doeu.

Outra parte sorriu.

— Nós éramos felizes aí.

— Éramos.

Henrique não tentou negar.

— Eu passei muito tempo tentando descobrir quando estraguei tudo.

Marina continuou observando a fotografia.

— Não foi em um dia.

— Eu sei.

— Acho que esse foi o problema. Se tivesse acontecido uma coisa enorme logo no começo, talvez eu tivesse reagido. Mas foram pequenas concessões.

Henrique assentiu.

— E eu transformei sua compreensão em algo garantido.

Marina levantou os olhos.

— Sim.

Ele respirou fundo.

— Eu quero te pedir desculpas uma última vez. Não para mudar sua decisão.

Ela esperou.

— Desculpa por ter feito você sentir que precisava competir por um lugar que já deveria ser seu. Desculpa por ter confundido silêncio com satisfação. E desculpa por aquela noite.

Marina sentiu os olhos arderem.

Henrique continuou:

— Eu pensei muito no momento em que te empurrei. Não porque tenha sido o único erro. Mas porque foi a primeira vez que eu consegui enxergar fisicamente o que vinha fazendo havia anos. Eu te empurrei para fora de uma discussão e depois fui embora com a pessoa que eu estava defendendo.

Marina apertou os lábios.

A lembrança ainda doía.

Mas já não dominava seu corpo.

— Eu aceitei suas desculpas — disse.

Henrique pareceu surpreso.

Ela continuou:

— Aceitar não significa voltar.

— Eu sei.

— Nem significa fingir que não aconteceu.

— Eu sei.

— Significa que eu não quero carregar raiva para o resto da vida.

Os olhos de Henrique ficaram úmidos.

Ele desviou o rosto por um instante.

— Você ainda me ama?

Marina sabia que aquela pergunta poderia aparecer.

Tinha pensado nela muitas vezes.

— Amo uma parte do que nós fomos.

Henrique ficou imóvel.

— E talvez ainda exista carinho pelo homem que você está tentando ser. Mas isso não muda o que eu preciso fazer.

Ele assentiu lentamente.

— Entendo.

Marina empurrou a fotografia de volta para ele.

Henrique não pegou.

— Fica com você.

— Por quê?

— Porque nem tudo precisa ser jogado fora só porque terminou.

Marina olhou novamente a imagem.

Depois a guardou na pasta.

Não como promessa.

Como memória.

Quando os advogados retornaram, os dois assinaram o que faltava.

Henrique não hesitou.

Marina também não.

Ao deixar o prédio, ela sentiu uma estranha mistura de tristeza e tranquilidade.

Henrique saiu alguns minutos depois.

Na calçada, encontrou Isadora esperando dentro do carro.

Ela baixou o vidro.

— Como foi?

Henrique entrou.

— Terminou.

Isadora ficou quieta.

— Você está bem?

Henrique olhou pela janela.

— Não.

Ela não tentou dizer que tudo ficaria bem.

Apenas permaneceu ali.

Depois de alguns minutos, Henrique falou:

— Mas eu vou ficar.

Isadora assentiu.

Era o máximo que podiam fazer.

Na manhã seguinte, Marina voltou ao estúdio.

Organizou equipamentos para a viagem.

A cerâmica restaurada estava sobre uma mesa próxima à janela.

A luz atravessava as fissuras e criava sombras pequenas na superfície.

Marina fotografou o vaso uma última vez antes de sair.

Não para publicar.

Para guardar.

Naquela noite, fez a mala.

Dessa vez, não havia pressa.

Não havia vestido manchado.

Não havia joelho ferido.

Não havia dezenas de ligações ignoradas.

Toronto já não era um lugar para onde ela fugia.

Era um destino para o qual estava indo.

Antes de dormir, recebeu uma mensagem da advogada.

A etapa final seria concluída em breve.

Marina leu e colocou o celular sobre a mesa.

No dia seguinte, pisaria novamente no mesmo aeroporto onde, meses antes, retirara a aliança pela primeira vez.

Só que agora não estaria deixando uma vida para trás no impulso da dor.

Estaria chegando ao último passo de uma decisão construída com calma.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

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