
Parte 5
Nos dias seguintes, Marina evitou a mansão.
Pediu que o administrador separasse seus objetos pessoais e combinou um horário em que Henrique estaria no escritório. Não queria transformar a retirada das próprias coisas em outra conversa emocional.
Quando chegou, porém, encontrou uma caixa sobre a mesa de seu antigo espaço de trabalho.
Dentro estavam os pedaços do vaso.
Todos.
Até os menores fragmentos haviam sido recolhidos depois da festa.
Marina passou os dedos sobre a porcelana quebrada.
Por mais estranho que parecesse, aquilo a atingiu mais do que os vestidos caros pendurados no closet ou as fotografias do casamento ainda distribuídas pela casa.
O vaso podia ser restaurado.
Não voltaria a ser o que era.
Mas poderia continuar existindo.
Ela fechou a caixa e decidiu levá-la.
Também pegou suas câmeras, livros, arquivos de trabalho e objetos trazidos do apartamento onde morava antes do casamento.
As joias recebidas da família Ferraz ficaram.
O administrador tentou lembrá-la de que alguns presentes eram dela.
— Sei — respondeu Marina. — Mas não preciso decidir tudo hoje.
A diferença era importante.
Durante anos, Marina tomara decisões para evitar problemas.
Agora, começava a tomar decisões para preservar a própria clareza.
No mesmo período, aceitou dois trabalhos em São Paulo.
O primeiro era simples: retratos corporativos para uma empresa de médio porte. O segundo, uma campanha pequena para uma marca de roupas.
Nada daquilo parecia impressionante para quem conhecia a fortuna dos Ferraz.
Para Marina, era enorme.
No estúdio, ninguém a chamava de senhora Ferraz.
Perguntavam sobre iluminação, enquadramento, prazo e orçamento.
Ela voltou a ser Marina Alves.
A mãe de Henrique pediu para encontrá-la.
Marina hesitou antes de aceitar.
Tinha carinho pela mulher, mas não queria ser pressionada a salvar o casamento.
Encontraram-se em uma cafeteria tranquila.
A mãe de Henrique parecia abatida.
— Não vim pedir para você voltar.
Marina relaxou um pouco.
— Obrigada.
— Vim pedir desculpas por uma coisa que talvez eu tenha ajudado a criar.
Marina franziu a testa.
— Não entendi.
A mulher mexeu devagar na xícara.
— Desde que eram crianças, Henrique sempre protegeu Isadora. A diferença de idade entre eles é grande, e eu achava bonito vê-lo cuidar da irmã. Quando ela cresceu, ninguém percebeu que aquele hábito precisava mudar.
Marina ouviu em silêncio.
— Não estou dizendo que Isadora é culpada por tudo — continuou ela. — Muito menos pelo que meu filho fez. Henrique é adulto. Mas nós normalizamos uma dinâmica ruim.
— Durante muito tempo, eu também normalizei.
A mãe dele assentiu.
— Talvez porque todos tenham se acostumado a você ser a pessoa tranquila.
Marina sorriu sem humor.
— Ser tranquila virou uma obrigação.
— Eu sei.
A sinceridade daquela resposta tirou de Marina parte da tensão.
A mulher não tentou convencê-la de que Henrique era bom no fundo.
Não listou qualidades.
Não pediu paciência.
Apenas disse:
— Seja qual for sua decisão, eu espero que seja sua.
Marina voltou para o hotel mais leve.
Naquela mesma tarde, recebeu uma ligação da profissional que começaria a restaurar o vaso.
— Dá para salvar — disse a ceramista. — As marcas vão continuar visíveis, mas a estrutura pode ser reconstruída.
Marina respondeu:
— Não quero esconder as marcas.
Houve uma pausa.
— Tem certeza?
— Tenho.
Em outro ponto da cidade, Henrique começava a sentir consequências muito menos simbólicas.
Ele havia passado anos funcionando por eficiência. Problemas apareciam, ele resolvia. Isadora ligava, ele atendia. Marina silenciava, ele entendia que estava tudo bem.
Agora, nada obedecia mais a essa lógica.
Ele não podia resolver o casamento com dinheiro.
Não podia obrigar Marina a voltar.
Não podia sequer transformar o divórcio em uma negociação empresarial, porque ela não estava disputando uma vantagem.
Queria sair.
Essa realidade o desmontava.
Na empresa, Henrique se pegava olhando o celular em reuniões.
Em casa, jantava sozinho.
Certa noite, abriu o armário e encontrou o espaço deixado pelas roupas que Marina levara.
Foi quando Isadora entrou sem avisar.
— A mãe está me tratando como se tudo fosse culpa minha.
Henrique fechou a porta do armário.
— Não é tudo culpa sua.
— Pelo menos você entende.
— Eu disse “não é tudo”.
Isadora franziu a testa.
Henrique continuou:
— Você passou anos me chamando para resolver coisas que podia resolver sozinha.
— Porque você sempre disse que eu podia contar com você.
— Contar comigo não é a mesma coisa que me usar contra outras pessoas.
— Agora eu uso você?
— Na festa, usou.
Isadora ficou em silêncio.
Henrique respirou fundo.
— Você derrubou o vaso por acidente. Eu acredito nisso. Mas quando Marina ficou abalada, você se escondeu atrás de mim. E depois que eu a empurrei, você deixou que eu levasse você embora sem sequer perguntar se ela estava machucada.
Isadora desviou o rosto.
— Eu estava nervosa.
— Você estava satisfeita.
Ela o encarou.
Henrique não elevou a voz.
— Eu vi.
As mãos de Isadora se fecharam.
— Você vai escolher ela agora?
Henrique respondeu de um jeito que jamais respondera antes.
— Não é uma escolha entre vocês.
— Sempre foi.
— Só porque nós deixamos virar isso.
Isadora começou a chorar.
Durante anos, aquele teria sido o ponto em que Henrique a abraçaria e encerraria a conversa.
Dessa vez, permaneceu onde estava.
— Você precisa pedir desculpas a Marina.
— Ela não vai me perdoar.
— Isso não é motivo para não pedir.
Isadora saiu pouco depois.
Na manhã seguinte, Marina recebeu uma mensagem.
Não era de Henrique.
Era de Isadora.
Ela demorou alguns minutos antes de abrir.
“Eu realmente não quebrei o vaso de propósito. Mas preciso admitir uma coisa pior: quando o Henrique ficou do meu lado naquela noite, eu gostei. Eu sabia que você estava machucada e mesmo assim fiquei satisfeita porque ele tinha escolhido me defender. Não tenho desculpa para isso.”
Marina leu até o fim.
A última frase era simples.
“Desculpa.”
Ela apoiou o celular sobre a mesa.
Não sentiu vontade de responder imediatamente.
Mas uma coisa, enfim, estava clara.
O problema nunca tinha sido descobrir se Isadora planejara quebrar o vaso.
O problema era que, no momento em que algo se partiu, cada um deles revelou exatamente o lugar que Marina ocupava naquela família.
E agora ela decidira mudar esse lugar por conta própria.
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