
Seis anos depois do divórcio, fui buscar um cliente no aeroporto — e encontrei meu ex-marido com a nova família
Parte 1
Seis anos depois do meu divórcio, fui ao aeroporto buscar um cliente.
O homem que atravessou o portão de desembarque era meu ex-marido.
Naquela altura, eu já era gerente comercial regional de uma empresa especializada no transporte refrigerado de medicamentos. No papel, parecia um cargo importante. Na prática, significava que todo cliente difícil, toda negociação delicada e todo contrato capaz de tirar o sono de alguém acabava chegando à minha mesa.
Naquela manhã, pouco depois das nove, o diretor Bastos me chamou ao escritório.
Ele tinha pouco mais de cinquenta anos, falava devagar e raramente levantava a voz. Em compensação, bastava um olhar para deixar claro que quase nada passava despercebido por ele.
Empurrou uma ficha de recepção na minha direção.
— Marina, às duas e meia da tarde o diretor Renato Almeida chega de São Paulo. Quero que você vá buscá-lo no aeroporto.
Baixei os olhos para o papel.
Renato Almeida.
As letras pareceram se destacar do restante da página.
Não levantei a cabeça.
— O senhor pode me mandar também o material completo do cliente?
Bastos me observou por um instante.
— Você conhece esse homem?
— Não somos próximos.
Minha voz saiu perfeitamente estável.
O diretor bateu a ponta dos dedos sobre a mesa.
— Essa operação é importante. A Horizonte Médica está procurando um novo prestador de cadeia fria para atender sete estados. É um contrato grande. Renato hoje é vice-presidente da empresa e tem forte influência na decisão de compras.
Fechei a pasta.
— Entendi.
Quando saí do escritório, Camila, do administrativo, veio quase correndo atrás de mim e me entregou a placa de recepção.
Fundo branco. Letras pretas.
BEM-VINDO, DIRETOR RENATO ALMEIDA.
Olhei para aquelas palavras por dois segundos antes de colocar a placa no carro.
Seis anos.
Durante seis anos, imaginei que, se algum dia voltasse a encontrar Renato, seria em uma fotografia perdida de antigos colegas, em alguma publicação de confraternização empresarial ou talvez atravessando uma rua sem que nenhum dos dois tivesse tempo de parar.
Nunca imaginei que seria diante do portão de desembarque de um aeroporto.
Muito menos que ele chegaria acompanhado da mulher e do filho.
O saguão estava lotado.
Rodinhas de malas riscavam o piso numa sequência apressada de ruídos. Vozes se misturavam aos avisos do sistema de som, enquanto pessoas se abraçavam, procuravam motoristas e conferiam celulares.
Eu vestia um terninho preto, estava com o cabelo preso num coque baixo e segurava a placa ao lado direito da saída.
Meu celular vibrou.
Número desconhecido.
“Ele trouxe gente com ele. Não demonstre que reconheceu ninguém logo de cara.”
Li a mensagem e apaguei.
Eu esperava por aquele aviso havia três dias.
Quem tinha enviado era Helena Nunes, funcionária antiga do departamento financeiro da Horizonte Médica.
Seis anos antes, também tinha sido Helena quem enviara discretamente um pacote para mim.
Dentro dele havia uma abotoadura masculina prateada, com uma pequena lasca em uma das bordas.
Eu já tinha visto Renato usar aquela peça.
Mas, naquela noite, ela apareceu embaixo do criado-mudo de um quarto de hotel.
Foi também naquela noite que Renato jogou diante de mim algumas fotografias que, segundo ele, provavam minha traição.
Junto com elas veio o pedido de divórcio.
— Marina Costa, você me dá nojo.
Não tentei explicar.
O homem que aparecia nas fotografias era um cliente meu.
O quarto do hotel tinha sido reservado pelo próprio Renato.
E o copo que eu havia bebido antes de perder a noção do que estava acontecendo também tinha sido entregue por ele.
Quando acordei, minhas roupas estavam intactas.
Minha cabeça, porém, parecia prestes a se partir ao meio.
Havia um paletó masculino no quarto que não estava ali antes.
Do lado de fora, havia um fotógrafo.
E Renato apareceu no momento exato.
O modo como ele me olhou naquele instante ficou gravado na minha memória.
Como se eu fosse lixo.
Assinei o divórcio.
Saí sem nada.
Ele ficou com a empresa que nós dois tínhamos construído.
Também transferiu para seu controle a patente de tecnologia de cadeia fria que meu pai havia deixado.
Minha mãe passou mal e precisou ser internada.
Eu me ajoelhei ao lado da cama dela sem conseguir dizer uma única palavra.
Foi ali que aprendi uma coisa.
Para odiar alguém, não é preciso gritar.
Às vezes, basta lembrar de cada dívida.
Às 14h28, o avião pousou.
Às 14h45, Renato apareceu.
Estava um pouco mais pesado do que seis anos antes. O cabelo permanecia impecavelmente penteado, e no pulso havia um relógio que não precisava de apresentação para deixar claro quanto custava.
Ao lado dele vinha uma mulher usando um conjunto marfim, maquiagem discreta e um sorriso sereno.
Eu a reconheci imediatamente.
Lívia Martins.
Antiga gerente financeira da nossa empresa.
A mesma mulher que se casou oficialmente com Renato no segundo ano depois do nosso divórcio.
Ela segurava a mão de um menino.
O garoto usava um pequeno terno azul e carregava no peito um brinquedo do Ultraman.
Quando viu minha placa, apontou na mesma hora.
— Pai, é aquela moça que veio buscar a gente.
Renato seguiu a direção do dedo do menino.
Nossos olhos se encontraram.
Ele parou.
Foi apenas um instante, mas parou.
Lívia também me viu.
O sorriso dela não desapareceu. Apenas os dedos apoiados no ombro do menino se contraíram.
Baixei a placa.
— Boa tarde, diretor Renato. Sou Marina Costa, da Vértice Logística Térmica. Ficarei responsável pela recepção e pelo acompanhamento da sua equipe durante esta visita.
A garganta dele se moveu antes de a voz sair.
— Gerente… Marina?
— Sim.
Estendi a mão.
Renato olhou para ela, mas não a apertou imediatamente.
Lívia falou antes.
— Que coincidência, Marina. Não sabia que você estava trabalhando na Vértice.
Voltei os olhos para ela.
— Lívia. Quanto tempo.
O sorriso em seus lábios cresceu.
— Não precisa falar comigo desse jeito tão formal. Pode me chamar de Lívia. Antigamente você até me ensinava algumas coisas da contabilidade, lembra?
Assenti.
— Lembro. Pelo visto você aprendeu muito bem.
Por uma fração de segundo, o sorriso dela endureceu.
Renato finalmente apertou minha mão.
A palma estava seca, mas a ponta dos dedos parecia fria.
— Obrigado por vir nos receber.
— Faz parte do meu trabalho.
Virei-me e caminhei em direção ao estacionamento.
Durante todo o percurso, não perguntei quem era o menino.
Renato também não apresentou.
A criança, por outro lado, falava sem parar.
Puxou a manga do pai e perguntou:
— Pai, a gente vai ficar naquele hotel grande?
Renato abaixou a voz.
— Davi, não faça bagunça.
Abri a porta traseira da van executiva.
Lívia ajudou o menino a entrar e se sentou ao lado dele. Renato ocupou o banco ao lado.
Eu fui na frente e entreguei o roteiro ao motorista.
O veículo deixou o aeroporto.
Dentro da van, o silêncio dos adultos contrastava com Davi brincando com uma arma de brinquedo e fazendo pequenos “pá, pá” em direção à janela.
Pelo retrovisor, vi Lívia me observando.
Havia em seus olhos a segurança de alguém que acreditava ter vencido.
Mas também havia cautela.
Ela provavelmente achava que eu acabara de descobrir a existência daquele menino.
O que Lívia não sabia era que eu conhecia a data de nascimento dele havia muito tempo.
No dia em que fui obrigada a assinar meu divórcio, ela estava grávida de oito semanas.
Helena tinha fotografado o recibo da consulta que Lívia fizera sozinha.
O documento mostrava o nome, a data e um pequeno prendedor azul quase insignificante.
Aquele modelo de prendedor era usado exclusivamente no escritório de Renato.
Durante seis anos, eu não fiz nada.
Não porque fosse generosa.
Mas porque, naquela época, as peças que eu tinha eram fragmentadas demais.
Uma lâmina que ainda não está afiada não deve ser retirada da bainha.
Desta vez, porém, foi a própria Horizonte Médica que procurou a Vértice para negociar.
Renato havia colocado a oportunidade na minha frente com as próprias mãos.
A van parou diante do hotel.
Desci e abri a porta.
Renato me encarou.
— Gerente Marina, você participa do jantar de hoje?
— Sim.
Parecia ter recuperado parte do controle.
— Ótimo. Já que somos antigos conhecidos, podemos aproveitar para conversar sobre os velhos tempos.
Olhei diretamente para ele.
— Claro.
Lívia pegou Davi pela mão e falou num tom doce:
— Renato, não vamos fazer os outros esperarem.
Ela pronunciou o nome dele com uma intimidade quase calculada.
Como se fizesse questão de que eu ouvisse.
Foi então que meus olhos baixaram para o pulso dela.
Uma pulseira fina de platina.
No centro, pendia um pequeno diamante em forma de gota.
Seis anos antes, aquela pulseira estava dentro da minha caixa de joias.
Minha mãe tinha me dado de presente no meu casamento.
Depois do divórcio, eu nunca mais a encontrei.
Agora, ela estava no pulso de Lívia.
Sorri de leve.
Muito bem.
Mais uma dívida para a conta.
Às sete da noite, o jantar de negócios começou no terceiro andar do hotel.
A sala reservada tinha uma mesa redonda para dezesseis pessoas.
Pela Horizonte Médica, estavam Renato, Lívia, o chefe do jurídico, o gerente de compras e o diretor de marketing.
Pela Vértice, o diretor Bastos liderava a equipe.
Eu estava sentada à direita dele.
Renato ocupava um dos lugares centrais.
Lívia estava ao seu lado.
Ela havia trocado o conjunto claro por um vestido preto.
A pulseira continuava no pulso.
Sob a iluminação da sala, o diamante em forma de gota brilhava o suficiente para chamar atenção.
Quando o garçom serviu as bebidas, Lívia apoiou delicadamente o punho sobre a borda da mesa.
Como se quisesse exibi-la.
Peguei um pouco dos legumes do meu prato e continuei comendo.
Bastos foi o primeiro a erguer a taça.
— Diretor Renato, agradecemos a oportunidade de apresentar a capacidade da Vértice. Vamos demonstrar toda a seriedade que esse projeto exige.
Renato também ergueu a taça.
— Diretor Bastos, para nós, segurança vem em primeiro lugar. Medicamento não é mercadoria comum. Um erro na cadeia fria pode gerar consequências que ninguém quer assumir.
Enquanto falava, ele lançou um olhar para mim.
Eu sabia exatamente o que havia por trás daquela frase.
Seis anos antes, Renato tinha usado palavras muito parecidas.
“Marina, alguém com a vida pessoal desse jeito não tem credibilidade para administrar uma operação de medicamentos.”
Foi com esse argumento que ele me afastou da empresa.
Foi com aquele escândalo que retirou meu cargo e minhas participações.
O jantar continuou.
Renato sabia negociar.
Elogiava a estrutura da Vértice e, logo depois, aumentava as exigências.
Controle de temperatura.
Rastreabilidade das rotas.
Cobertura de seguro.
Responsabilidade por perdas.
Cláusulas de indenização.
Tudo parecia tecnicamente justificável.
Mas cada exigência tornava o contrato mais pesado.
Bastos olhou para mim algumas vezes.
Eu sabia que esperava minha intervenção.
Apoiei os talheres no prato.
— O diretor Renato está certo. Em logística farmacêutica refrigerada, a primeira prioridade é conformidade. A segunda é rastreabilidade. O preço vem apenas em terceiro lugar.
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