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LEITURA EM PARTESParte 5 de 10

Parte 5

Dois dias depois, minha advogada enviou uma notificação formal solicitando cópias da documentação relacionada à transferência e ao uso comercial da patente.

Não era uma ação judicial.

Ainda não.

Era um pedido de esclarecimento acompanhado da comunicação de que a titularidade estava sendo contestada.

Eu revisei cada linha antes de autorizar o envio.

Queria ter certeza de que o texto não dizia mais do que podíamos sustentar.

A notícia chegou à Horizonte no mesmo dia.

Na manhã seguinte, Bastos recebeu uma ligação do jurídico deles.

A negociação comercial seria temporariamente suspensa até que o potencial conflito fosse analisado.

Nenhum contrato havia sido perdido.

Nenhuma empresa havia quebrado.

Nenhuma porta tinha sido fechada para sempre.

Mas Renato havia deixado de controlar o ritmo.

Quando Bastos me chamou, foi direto.

— Eles querem saber se a Vértice está usando essa disputa para pressionar a Horizonte.

— Não está.

— Foi o que respondi.

Ele girou uma caneta entre os dedos.

— Você fez tudo como pessoa física, fora da empresa e com uma advogada particular. Isso ajuda. Mas daqui para frente precisamos manter a separação ainda mais clara.

— Concordo.

— Então você não participa de nenhuma conversa sobre o valor do contrato enquanto a revisão estiver aberta.

— Certo.

Bastos me encarou.

— Você parece aliviada.

Pensei um pouco.

— Porque agora ninguém precisa acreditar apenas na minha palavra. Os documentos vão falar pelo que forem capazes de provar.

Naquela tarde, Helena me telefonou.

A voz dela estava baixa.

— O compliance começou a entrevistar algumas pessoas.

— Não me conte nada que você não possa contar.

— Eu sei.

Ela respirou.

— Só queria dizer uma coisa. Se me chamarem formalmente para falar do que vi naquela época, eu não vou mentir.

Fechei os olhos.

Seis anos antes, eu teria implorado para que ela falasse.

Agora não.

— Faça apenas o que for correto.

— Você mudou muito.

— Era necessário.

Naquela semana, voltei para casa tarde quase todos os dias.

Não porque estivesse perseguindo Renato.

O trabalho da Vértice continuava.

Havia outros clientes, outras rotas e outros problemas.

Essa normalidade foi mais importante do que eu esperava.

Durante muito tempo, minha memória transformara Renato no centro de tudo o que eu tinha perdido.

Agora eu percebia que minha vida atual existia independentemente dele.

Na quinta-feira, o jurídico da Horizonte enviou parte da documentação solicitada.

Minha advogada marcou uma reunião por vídeo.

— A transferência não é simples — disse. — A tecnologia entrou na operação da empresa por meio de um arranjo que mistura licença de uso e cessão de determinados direitos.

— Isso favorece quem?

— Ninguém automaticamente.

Ela ampliou uma página.

— O ponto é que, depois da sua saída, a Horizonte passou a tratar tudo como se a titularidade fosse integral. Só que os documentos anteriores não são tão claros assim.

— Então eles podem estar usando uma patente que não possuem totalmente.

— Essa é uma possibilidade a ser examinada. Não uma conclusão.

Assenti.

Eu já tinha aprendido a respeitar essas diferenças.

Na sexta-feira, recebi uma mensagem de Renato.

“Precisamos conversar sem advogados.”

Apaguei.

Cinco minutos depois, outra.

“Não é sobre o contrato.”

Também não respondi.

Na terceira, ele escreveu:

“É sobre aquela noite.”

Minha mão parou sobre o celular.

O antigo impulso veio rápido.

Querer saber tudo.

Querer ouvir imediatamente.

Querer agarrar qualquer frase que pudesse finalmente explicar seis anos de silêncio.

Mas impulso não era decisão.

Respondi:

“Se quiser falar, será em local público. Minha advogada será informada de que haverá uma conversa. Nada será tratado como negociação jurídica.”

Ele aceitou.

Encontramo-nos no café do hotel onde a equipe dele estava hospedada.

Escolhi uma mesa aberta, perto da recepção.

Renato chegou sozinho.

Sentou-se diante de mim.

Parecia ter envelhecido mais em uma semana do que em seis anos.

— Você está gostando disso? — perguntou.

— Se veio para isso, pode ir embora.

— Não.

Passou a mão pelo rosto.

— Eu só não sei como falar.

— Comece pela verdade.

Ele ficou olhando para a mesa.

— Eu não mandei ninguém colocar nada na sua bebida.

Meu estômago apertou.

Não demonstrei.

— Eu não perguntei isso.

Renato levantou os olhos.

— Mas é o que você pensa.

— O que eu penso não importa. O que aconteceu importa.

Ele inspirou fundo.

— Naquele dia, Lívia me disse que você estava se encontrando com aquele cliente escondido.

— E você acreditou.

— Havia mensagens.

— Mensagens de trabalho.

— Eu estava com raiva.

— Isso eu já sabia.

Renato continuou.

— Ela disse que, se eu quisesse descobrir a verdade, precisava ver com meus próprios olhos.

— E o fotógrafo?

O rosto dele mudou.

Foi pouco.

Mas vi.

— Renato.

— Eu contratei.

A frase caiu entre nós.

Não era tudo.

Mas era muito.

— Para quê?

— Para registrar caso o que ela estava dizendo fosse verdade.

Eu senti uma frieza subir pelo peito.

— Você contratou alguém para me fotografar escondida num hotel.

— Eu achava que você estava me traindo.

— E, antes de descobrir se era verdade, preparou uma câmera para registrar minha humilhação.

— Eu estava fora de mim.

— Não.

Inclinei-me um pouco.

— Você estava tomando decisões.

Ele fechou a boca.

— O quarto — continuei. — Foi você quem reservou.

— Porque a reunião terminaria tarde. Isso era normal.

— E o copo?

— Eu te entreguei, sim. Mas não coloquei nada nele.

— O paletó?

Renato passou a língua pelos lábios secos.

— Não sei.

— A abotoadura?

Ele ficou pálido.

— Que abotoadura?

Eu não respondi.

Era informação demais para entregar naquele momento.

Ele percebeu.

— Marina, eu não sabia que você ficaria desacordada.

A palavra me atingiu.

Desacordada.

Não “cansada”.

Não “bêbada”.

Desacordada.

— Como você sabia que eu estava desacordada?

Renato congelou.

A pergunta permaneceu entre nós.

Ele tentou corrigir.

— Pelas fotos.

— Nas fotos eu parecia desacordada?

— Eu…

Levantei-me.

— Chega.

— Marina.

— Você queria conversar. Conversamos.

— Eu estou tentando explicar.

— Então pense melhor antes de tentar de novo.

Saí do café sem correr.

Só quando entrei no carro percebi que minhas mãos estavam frias.

Não era medo.

Era a sensação de finalmente tocar numa parte da história que durante seis anos permanecera atrás de uma parede.

Renato tinha acabado de admitir que contratara o fotógrafo.

Também havia se referido ao meu estado naquela noite de uma forma que levantava uma pergunta que eu nunca lhe fizera.

Ainda não era prova de que ele sabia do que havia no meu copo.

Mas era uma contradição.

E contradições, ao contrário de lembranças, podiam ser confrontadas.

A próxima parte da história está logo abaixo. Continue lendo comigo 👇

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